sexta-feira, abril 13, 2007

O método petista

Secretária de Lula acha legítima invasão de supostos sem-teto. Tal PT, quais oposições?
Reinaldo Azevedo

Por Eduardo Scolese, na Folha. Volto em seguida:
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A secretária nacional de Habitação, Inês da Silva Magalhães, 44, afirmou ontem que são "legítimas" as diferentes ações dos movimentos de sem-teto pelo país. Filiada ao PT, ela compara as manifestações, como acampamentos e invasões a prédios, às promovidas por militantes do Greenpeace.A afirmação foi feita ontem, quando movimentos de todo o país promoveram invasões, bloqueios de vias e atos em pelo menos 11 Estados -MG, SP, BA, AL, PE, MA, CE, RJ, SE, PR e SC- e no Distrito Federal.
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"São manifestações que são legítimas no sentido de chamar a atenção da sociedade para esse tema, assim como o Greenpeace se amarra no casco de um navio. Cada movimento da sociedade e cada organização tem a sua estratégia de manifestação", disse a secretária nacional do Ministério das Cidades.(...)
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As invasões promovidas ontem em todo o país foram convocadas pela União Nacional por Moradia Popular (UNMP). O objetivo, segundo o movimento, é cobrar dos governos municipais, estadual e federal programas de moradia popular.
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As invasões foram pacíficas e, em sua maioria, duraram só algumas horas. Em São Paulo, foram três invasões e uma tentativa frustrada, além de duas manifestações. As ações conjuntas foram decididas em assembléia nacional, com as mais de 270 entidades que compõem a União, há cinco meses.O movimento diz não ter ligações com partidos políticos e se mantém com recursos de ONGs ligadas à Igreja Católica, principalmente fora do Brasil, e com a contribuição de militantes. Uma parte substancial das lideranças é filiada ao PT.
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Volto
Entendam bem. Temos um Ministério do Desenvolvimento Agrário que estimula a invasão de terra e entrega o Incra ao MST; um ministro da Defesa que, junto com o presidente, incentiva a quebra da disciplina e da hierarquia militares; uma secretária da Igualdade Racial que acha legítimo certo racismo; uma secretária nacional de Habitação que, na prática, incentiva a invasão de prédios urbanos. Isso é loucura, maluquice, burrice, estupidez? Não! Isso é método. Trata-se de um modo racional e calculado de fazer política. Não! Não acuso uma conspiração, uma decisão tomada nas sombras, nada disso. O PT assume a sua condição de partido dos “movimentos sociais”. E um partido dos “movimentos” tem a sua face de ação direta, que não pode esperar pela mediação institucional.
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Censuro, posts abaixo, a decisão do governador José Serra de criar um grupo executivo para ampliar medidas de reparação racial — ou supostamente racial, já que cor de pele não é raça — em São Paulo. Como digo lá, censuro no mérito (não creio em discriminação positiva; ela sempre é negativa) e também na oportunidade. Ao fazê-lo, o PSDB se alinha com certa militância ligada aos tais “movimentos sociais” que sempre terão uma direção: o PT. Ainda que o PSDB, o DEM ou qualquer outro partido se esforçassem para ter o seu, vá lá, “braço popular”, isso jamais aconteceria porque se trata, felizmente, de entendimentos distintos do que vêm a ser a sociedade e a política. Serra pode impor aquelas cotas se quiser. À frente de querer “justiça”, o movimento é fração de um projeto de poder. E é o do PT.
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Vejam lá o que diz a secretária: “Cada movimento da sociedade e cada organização tem a sua estratégia de manifestação". Entenderam? Para dona Inês, a sociedade é o quê? Ora, é um conjunto de “movimentos”, que vão impondo a sua agenda e a sua pauta no grito, no berro. Quem não grita e não berra não é “movimento” e, portanto, não é nada; não merece nem mesmo ser ouvido. A forma mais acabada que o petismo tem de exercer essa sua “democracia” são os seus tais “orçamentos participativos”. Como eles funcionam? Uma parcela mínima do orçamento é debatido com a “comunidade”. Qual comunidade? A comunidade dos petistas dos vários bairros e núcleos que se organizam. Se você quer ser “participativo”, tem de ser um deles.
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Inexiste para o petista a democracia do cidadão comum, não-mobilizado, que cuida da sua própria vida e da de sua família, ciente de que suas garantias e seus direitos estão consubstanciados num conjunto de leis. Nada! Isso pra eles é bobagem. O indivíduo só passa a existir à medida que ganha uma identidade reivindicadora, que assume um ethos coletivista, que se põe a serviço de uma causa — a causa, evidentemente, do partido.
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É claro que essa mística a que me refiro vale para essa massa de manobra, geralmente gente, com efeito, pobre e ignorante, que ganha, no entanto, a sensação de pertencer a alguma coisa. Já comparei aqui e volto a fazê-lo: o PT tem uma estrutura muito parecida com a dessas igrejas neopentecostais que brotam por aí aos montes (mais novas do que o meu uísque). Da mesma sorte, os dirigentes da Igreja Petista não têm a mesma ingenuidade dos fiéis. Seus “pastores”, “bispos”, “reverendos” e “apóstolos”, se preciso, conseguem ser muito pragmáticos. Mas têm de manter nos fiéis a esperança. Por isso, estimulam esse “tome o que lhe faz falta; é um direito”.
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Onde as oposições erram? Ainda não aprenderam a falar ao “cidadão-ninguém”, àquele não mobilizado, ao que não sai gritando por aí “fogo na floresta” — ou, o que é pior, botando fogo na floresta. Querem um exemplo? Os 3,4 milhões de pessoas jurídicas que estão na bica de serem achacadas ou humilhadas por fiscais da Receita não vão para as ruas ocupar prédios públicos, não tomam dos outros o que não lhes pertence, não praticam o assalto social. E, por isso, ninguém dá bola para elas. Mais do que isso: as lideranças de oposição deixam que sejam sacrificadas no altar do petismo, como carneiros.
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Enquanto isso, a tigrada sai por aí botando fogo no circo. Todos eles têm uma profissão: são “discriminados”. E, é claro, são petistas. E impõem a sua agenda tanto a “seus” governos como aos governos dos “adversários”.