Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
Reportagem - aliás muito boa - de Juliana Portugal, "O Estado de S. Paulo" de 01/04, com base em pesquisa do Gallup Organization (me parece ser o Instituto americano) revela que nada menos que 79 por cento dos que trabalham no Brasil estão insatisfeitos com seu emprego. Me lembro que, em 1965, no "Correio da Manhã", sugeri à direção do jornal levantamento semelhante, junto com o Ibope, para medir o grau de satisfação e perspectivas de trabalho.
Falei com meu amigo Paulo Montenegro, pai do atual diretor-presidente, Carlos Augusto. Creio que o pensamento conservador e a inércia bloquearam a iniciativa. A idéia ressurgiu agora com êxito e fico satisfeito por isso. Importante esta pesquisa. Afinal de contas, passamos praticamente um terço de nossas vidas trabalhando. Às vezes mais. Além disso, a existência de todos nós depende se nossa atividade profissional. De uma forma ou de outra depende do que produzimos. E só há três fatores de produção: capital, tecnologia e trabalho humano. Máquinas não precisam de dinheiro, tampouco têm emoção.
Restam o capital e o trabalho, eterno conflito. Difícil administrá-lo como os fatos comprovam através da história. Em nosso país, a partir de FHC, o lema tem sido para o capital tudo, a começar pelas privatizações-doações de que fala Helio Fernandes, para o trabalho nada. Exagero? Não. Basta confrontar os índices de inflação do IBGE e as percentagens aplicadas aos reajustes dos salários. A motivação, claro, tem que cair, como tem declinado e o Gallup demonstrou. Isso porque todo ser humano tem como objetivo progredir na vida. É evidente e lógico. Mas pelo Trabalho? Coletivamente impossível.
Dentro de um quadro assim comprovado matematicamente, os 90 milhões que formam a mão-de-obra ativa brasileira, especialmente os funcionários públicos, sentem-se desprestigiados e explorados, pessoas de segunda classe. Muitos se empenham a fundo em suas tarefas. Mas, de repente, se perguntam: para quê? Afinal, vivemos em um país em que, por exemplo, a taxa inflacionária de 2006 foi de 3,1 por cento, porém os juros cobrados pelo comércio nas vendas a prazo e nos créditos bancários atingem 57 por cento ao ano.
Que providência toma o governo, por intermédio do banco Central, como seria de esperar, para conter tal absurdo, tal disparidade? O nível de emprego em fevereiro subiu de 9,3 para 9,9 por cento em relação ao mês anterior. Reemprego é uma aventura. Qual a política trabalhista do governo? Até hoje não existe. Se houvesse, pelo menos os salários empatariam com a inflação oficial. Nem isso.
Os salários no Brasil são baixíssimos. Descem de valores de ano para ano. Uma prova? Nos últimos quatro exercícios, a parcela de trabalhadores e funcionários que ganhava o salário mínimo subiu de 22 para 27 por cento. E que dizer dos demais vencimentos? Estamos num país em que 76 por cento dos que trabalham não recebem mais do que cinco pisos. E apenas 1 por cento ganha mais que 20 salários mínimos, 7 mil reais por mês. Sentindo barrada a rota do progresso, a população brasileira se desmotiva, fenômeno que o Gallup detectou. Com isso, o ato de trabalhar torna-se penosa obrigação, não um prazer.
Não há satisfação de realizar e construir alguma coisa, por menor que seja. É exatamente a partir deste ponto que se projeta o subdesenvolvimento social.
No Brasil, exceções confirmando a regra, só há incentivo para o capital, não para o trabalho. Tanto assim que as pessoas físicas terminam pagando mais Imposto de Renda do que as empresas. Além de substituírem estas no que se refere a assumir o peso dos tributos. Outro dia, nesta coluna, dei o exemplo do comércio de automóveis. O ICMS (estadual), o IPI (federal) e o ISS (municipal) são embutidos no preço final dos veículos. Portanto foram pagos pelos consumidores.
Entretanto, no ano seguinte, a montadora e o revendedor deduzem as três contribuições fiscais no Imposto de Renda a ser recolhido pela cédula. Como? Nós é que pagamos e eles, que não pagaram nada, embutiram tudo no preço, é que têm o direito de abater? Basta a simples colocação do tema para que todos tenham a mais plena certeza do absurdo e da injustiça. Num panorama assim, difícil haver motivação. Os seres humanos não são tratados dignamente no País. Com isso, o Brasil perde - e muito. Cria-se um fator a mais para o empobrecimento e para um comportamento mental negativo.
Desconfiamos de tudo e de todos. Não acreditamos em nada e em ninguém. Motivos não faltam. Os fatos estão aí. O Gallup localizou o fenômeno, nós o estamos explicando. A desmotivação entretanto não decorre apenas da falta de cursos e de treinamento profissional moderno. Trata-se de uma conseqüência da injustiça que essencialmente se pratica todos os dias.
Um reflexo da falta de perspectiva. Como o PIB, formado em um terço pela massa salarial, pode evoluir assim? Muito difícil. Mas quais os governantes que conseguem ver o óbvio? Muito poucos. E, mesmo assim, só no papel, na teoria, não na prática. Falta visão econômico-social concreta e lúcida entre nós. A insensibilidade é um desastre. O Gallup mostrou.
Reportagem - aliás muito boa - de Juliana Portugal, "O Estado de S. Paulo" de 01/04, com base em pesquisa do Gallup Organization (me parece ser o Instituto americano) revela que nada menos que 79 por cento dos que trabalham no Brasil estão insatisfeitos com seu emprego. Me lembro que, em 1965, no "Correio da Manhã", sugeri à direção do jornal levantamento semelhante, junto com o Ibope, para medir o grau de satisfação e perspectivas de trabalho.
Falei com meu amigo Paulo Montenegro, pai do atual diretor-presidente, Carlos Augusto. Creio que o pensamento conservador e a inércia bloquearam a iniciativa. A idéia ressurgiu agora com êxito e fico satisfeito por isso. Importante esta pesquisa. Afinal de contas, passamos praticamente um terço de nossas vidas trabalhando. Às vezes mais. Além disso, a existência de todos nós depende se nossa atividade profissional. De uma forma ou de outra depende do que produzimos. E só há três fatores de produção: capital, tecnologia e trabalho humano. Máquinas não precisam de dinheiro, tampouco têm emoção.
Restam o capital e o trabalho, eterno conflito. Difícil administrá-lo como os fatos comprovam através da história. Em nosso país, a partir de FHC, o lema tem sido para o capital tudo, a começar pelas privatizações-doações de que fala Helio Fernandes, para o trabalho nada. Exagero? Não. Basta confrontar os índices de inflação do IBGE e as percentagens aplicadas aos reajustes dos salários. A motivação, claro, tem que cair, como tem declinado e o Gallup demonstrou. Isso porque todo ser humano tem como objetivo progredir na vida. É evidente e lógico. Mas pelo Trabalho? Coletivamente impossível.
Dentro de um quadro assim comprovado matematicamente, os 90 milhões que formam a mão-de-obra ativa brasileira, especialmente os funcionários públicos, sentem-se desprestigiados e explorados, pessoas de segunda classe. Muitos se empenham a fundo em suas tarefas. Mas, de repente, se perguntam: para quê? Afinal, vivemos em um país em que, por exemplo, a taxa inflacionária de 2006 foi de 3,1 por cento, porém os juros cobrados pelo comércio nas vendas a prazo e nos créditos bancários atingem 57 por cento ao ano.
Que providência toma o governo, por intermédio do banco Central, como seria de esperar, para conter tal absurdo, tal disparidade? O nível de emprego em fevereiro subiu de 9,3 para 9,9 por cento em relação ao mês anterior. Reemprego é uma aventura. Qual a política trabalhista do governo? Até hoje não existe. Se houvesse, pelo menos os salários empatariam com a inflação oficial. Nem isso.
Os salários no Brasil são baixíssimos. Descem de valores de ano para ano. Uma prova? Nos últimos quatro exercícios, a parcela de trabalhadores e funcionários que ganhava o salário mínimo subiu de 22 para 27 por cento. E que dizer dos demais vencimentos? Estamos num país em que 76 por cento dos que trabalham não recebem mais do que cinco pisos. E apenas 1 por cento ganha mais que 20 salários mínimos, 7 mil reais por mês. Sentindo barrada a rota do progresso, a população brasileira se desmotiva, fenômeno que o Gallup detectou. Com isso, o ato de trabalhar torna-se penosa obrigação, não um prazer.
Não há satisfação de realizar e construir alguma coisa, por menor que seja. É exatamente a partir deste ponto que se projeta o subdesenvolvimento social.
No Brasil, exceções confirmando a regra, só há incentivo para o capital, não para o trabalho. Tanto assim que as pessoas físicas terminam pagando mais Imposto de Renda do que as empresas. Além de substituírem estas no que se refere a assumir o peso dos tributos. Outro dia, nesta coluna, dei o exemplo do comércio de automóveis. O ICMS (estadual), o IPI (federal) e o ISS (municipal) são embutidos no preço final dos veículos. Portanto foram pagos pelos consumidores.
Entretanto, no ano seguinte, a montadora e o revendedor deduzem as três contribuições fiscais no Imposto de Renda a ser recolhido pela cédula. Como? Nós é que pagamos e eles, que não pagaram nada, embutiram tudo no preço, é que têm o direito de abater? Basta a simples colocação do tema para que todos tenham a mais plena certeza do absurdo e da injustiça. Num panorama assim, difícil haver motivação. Os seres humanos não são tratados dignamente no País. Com isso, o Brasil perde - e muito. Cria-se um fator a mais para o empobrecimento e para um comportamento mental negativo.
Desconfiamos de tudo e de todos. Não acreditamos em nada e em ninguém. Motivos não faltam. Os fatos estão aí. O Gallup localizou o fenômeno, nós o estamos explicando. A desmotivação entretanto não decorre apenas da falta de cursos e de treinamento profissional moderno. Trata-se de uma conseqüência da injustiça que essencialmente se pratica todos os dias.
Um reflexo da falta de perspectiva. Como o PIB, formado em um terço pela massa salarial, pode evoluir assim? Muito difícil. Mas quais os governantes que conseguem ver o óbvio? Muito poucos. E, mesmo assim, só no papel, na teoria, não na prática. Falta visão econômico-social concreta e lúcida entre nós. A insensibilidade é um desastre. O Gallup mostrou.