sexta-feira, abril 13, 2007

O produto das reformas

Por Alexa Salomão, EXAME

Os brasileiros conheceram nos últimos dias uma nova fotografia da economia do país -- e o Brasil que surge nela é bem diferente do que se conhecia até então. Graças à adoção de uma metodologia mais avançada de medir o produto interno bruto (PIB), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que a economia brasileira é 11% maior do que se imaginava. A nova medida teve o mágico efeito de impulsionar o crescimento da noite para o dia. Descobriu-se que, no ano passado, o PIB avançou 3,7%, não os 2,9% indicados pelo método anterior. Mais importante foi o fato de a nova aferição captar os resultados de alguns avanços ocorridos na economia brasileira na década de 90 -- como a abertura econômica e as privatizações. "Por muitos ângulos, a economia parece estar mais forte do que imaginávamos", diz o economista Samuel Pessôa, da Fundação Getulio Vargas. "A revisão no cálculo mostra que houve uma melhoria na vida econômica brasileira."

Uma das grandes heranças desse período recente da história, agora dimensionada no PIB, é o avanço do setor de serviços na oferta de bens e na geração de riqueza. Refeitas as contas, a participação dos serviços cresceu de 54% para 64%. Boa parte desse avanço ocorreu porque agora se avalia melhor o peso que alguns setores adquiriram. Em destaque estão os serviços financeiros, contabilizados por meio de balanços de bancos, e os sistemas de informação, que incluem não apenas a tradicional telefonia mas também serviços como internet, TV por assinatura e call centers. Para os analistas, é a primeira vez que as contas nacionais estão medindo o impacto das privatizações sobre a expansão da economia. "Os dois segmentos privados que mais contribuíram para ampliar o peso do setor de serviços são informação, que inclui telecomunicações, e sistema financeiro. Ambos foram impulsionados pelas privatizações", diz Sergio Vale, da consultoria MB Associados. "Sem aqueles avanços nos anos 90, não haveria a pujança de hoje nesses segmentos."

Sob o aspecto do consumo, as mudanças são ainda mais marcantes. Na nova versão do PIB, as famílias mostram fôlego para responder por 60,4% do consumo. Antes, contribuíam com 55,5%. É fato que a população tem comprado mais de tudo -- roupas, eletrodomésticos, veículos e até imóveis. Com a nova metodologia, que inclui a Pesquisa de Orçamento Familiar, foi possível apurar que o movimento nas lojas deriva principalmente do aumento do poder de compra dos salários, que não são mais corroídos pela inflação, e da expansão do crédito bancário. À medida que a taxa de juro cai -- ainda que lentamente --, é natural que os bancos elevem o volume de financiamento. Segundo levantamento do Banco Central, só no ano passado as operações de crédito cresceram cerca de 30%. Os serviços financeiros contribuem hoje com 8% do crescimento do país, dois pontos percentuais a mais que o apontado na metodologia anterior.

Outro fator decisivo na modernização da economia foi a abertura de mercado. As empresas brasileiras tornaram-se mais eficientes para enfrentar a concorrência do mundo a partir dos anos 90, beneficiando os consumidores. À luz da nova metodologia do PIB, Pessôa, da FGV, estima que o crescimento da produtividade nacional seja de 1% ao ano. "De um lado, a abertura permitiu a importação de produtos mais baratos; de outro, incentivou a modernização de vários segmentos da indústria", diz ele. "O novo cálculo do PIB mostra que ambos os benefícios foram revertidos para o país na forma de produtos melhores e mais baratos. A população tem mais qualidade de vida."

Nem tudo é motivo de comemoração, porém. Os números do IBGE trazem um importante alerta: as reformas adiadas nos anos 90 fazem muita falta no novo milênio. A máquina pública e seus vícios permanecem intocáveis e o Estado amplia seu peso. Na nova metodologia, essa presença desmedida fica ainda mais clara. O governo consome quase 20% de toda a riqueza produzida no país -- e não 11%, como indicava a antiga metodologia. É um valor imenso. Em países em desenvolvimento, como o vizinho Chile, onde o governo investe mais e melhor em saúde, educação e infra-estrutura, o Estado responde por 12,6% do consumo. Nos Estados Unidos, 15,4%.

Parte do gigantismo do governo brasileiro é movida pelo indiscriminado aumento no número de empregados. Segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego, incluída no cálculo do PIB, há hoje cerca de 1,5 milhão de funcionários públicos estatutários nas seis principais capitais, 10% mais que em 2002, quando a pesquisa começou a ser realizada. Detalhe: o levantamento não inclui dados sobre Brasília, a capital do servidor público. "É nítido que o Estado se tornou grande e quer ficar maior", diz o economista Armando Castelar Pinheiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Mas há maneiras muito mais inteligentes de fazer um país crescer do que aumentando o Estado."

O crescimento estatal, mostra a pesquisa, tem sufocado o setor produtivo. A nova contabilidade revisou para cima o peso dos impostos e mostrou que ele subiu para 5,2% em 2006. O gasto maior com tributos funciona como um obstáculo às empresas na hora de investir. Não estranha que o IBGE tenha captado um patamar de investimentos totais da economia bem menor do que se imaginava -- pelo novo cálculo, a taxa de investimentos é de apenas 16%, ante 20,6% registrados anteriormente. "Governo grande é um problema, pois ele ocupa espaço do setor privado", diz Vale, da MB Associados. Para complicar, o governo continua gastando muito mal. Os gastos com educação, que constam do cálculo do PIB, têm baixa qualidade. Os indicadores de desempenho dos alunos brasileiros estão entre os piores do mundo. Isso é particularmente danoso para uma economia fortemente calcada em serviços, como parece ser, cada vez mais, o caso do Brasil. "Existem diferentes tipos de serviço: aquele prestado pelo vendedor de bala no sinal, o da máquina pública e os especializados em áreas como a jurídica, a da saúde e a de tecnologia. O país precisa definir qual deles prefere", diz Castelar. "Crescer contratando funcionários públicos e vendendo bala na esquina com certeza não é a melhor opção."

Nova contabilidade
Veja como fica o PIB com a mudança na metodologia de cálculo do IBGE(1)

Antes
Serviços 54%
Indústria 38%
Agropecuária 8%

O que melhorou
A economia cresceu quase 11% acima do que apontava o antigo cálculo, alcançando 2,3 trilhões de reais

Desde 2000 o PIB cresceu em média 3,1% ao ano.A média anterior era 2,6%
A produtividade da economia dobrou e hoje está em cerca de 1% ao ano
O consumo cresceu com a queda da inflação e o aumento do crédito.

Agora
Serviços 64%
Indústria 30,4%
Agropecuária 5,6%

O que piorou
Mesmo com o bolo do PIB maior, o governo manteve sua fatia, enquanto agropecuária e indústria diminuíram a participação.

Caiu de 1,9% para 1,6% o crescimento da indústria de transformação em 2006

A taxa de poupança nacional recuou de 22,2% para 17,1% do PIB

A taxa de investimento é de apenas 16,8%

Na antiga metodologia, era de 20,6%

Fonte: IBGE