quarta-feira, abril 11, 2007

A queda do secretário, o dólar e as evidências

Reinaldo Azevedo

No Estadão On Line. Volto depois:

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda deixará o governo, anunciou o ministro Guido Mantega, após a publicação, nesta quarta-feira, de uma entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo na qual Júlio Gomes de Almeida criticou a política de juros do Banco Central e seu efeito sobre o câmbio."Eu acredito que o Banco Central está praticando uma política monetária adequada, correta para o país", afirmou Mantega em entrevista, após anunciar que Gomes de Almeida havia pedido demissão na segunda-feira, dia 2 de abril, "por motivos pessoais".
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A vaga de Gomes de Almeida será assumida por Bernard Appy, atual secretário-executivo do ministério. Para o lugar de Appy, irá o ex-ministro da Previdência Social Nelson Machado. Mantega negou que esteja cogitando outras mudanças em sua equipe, mas anunciou que Tarcísio Godoy continuará como secretário interino do Tesouro Nacional.
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Ele disse ainda que não cogita trazer para o ministério o atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Demian Fiocca, que foi de sua equipe quando esteve à frente do Ministério do Planejamento.
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Na entrevista, Gomes de Almeida afirmou que a valorização cambial é prejudicial ao país e é resultado da política de juros altos. Para Mantega, ao conceder a entrevista, Gomes de Almeida já falou, na prática, como alguém fora do governo, uma vez que já apresentara seu pedido de demissão.Mantega afirmou que o câmbio não passa por uma "sobrevalorização desenfreada" e disse que o país vive "o melhor dos mundos", com inflação baixa, juro em queda e crescimento econômico. "Então eu não posso condenar o Banco Central, que é um dos responsáveis por essa política", disse o ministro.
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Voltei
Vamos ver. Júlio Gomes de Almeida, com efeito, não pode ambicionar ficar no governo depois de criticar a política econômica. Isso não seria divergência de opinião, mas bagunça. Também não faz sentido a versão de que já tinha deixado o posto quando concedeu a entrevista. Mantega fez o que tinha de fazer.Mas agora há o mérito do que ele disse. Acabo de ver uma reportagem no Jornal Nacional sobre a queda do dólar, que está a um passo, passinho mesmo, dos R$ 2. Fechou hoje a R$ 2,0340, menor cotação desde 6 de março de 2001. Chegou a ser negociado a R$ 2,0280. A repórter fez uma síntese rápida da lei da oferta e da procura. Segurando um dólar na mão, ela dizia: “Se sobra dólar, cai o preço; se falta, ele sobre”. Faltou ficar um pouco mais claro por que a oferta da moeda é tão grande.
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Até outro dia, estavam todos mais ou menos conformados: é a balança comercial. Mas essa posição, agora, começa a fica insustentável. Sobram dólares no Brasil porque os investidores vêm atrás dos juros reais elevadíssimos. E, se o BC não tivesse entrado no mercado para valer, a moeda já teria caído abaixo dos R$ 2. O Brasil aproveita o momento para aumentar as reservas. Sim. Mas, como sabemos, isso também tem um custo interno elevado.Esse problema é melhor do que o da falta de dólares? Sem dúvida. Mas seria o caso de reconhecer, como queria Padre Vieira, que não era economista, que também é preciso remediar os remédios. Ou eles viram veneno. A dose de juros, parece, está errada. Isso não joga no lixo a política do Banco Central. Apenas evidencia que o Copom não é feito de deuses olímpicos, o que é uma boa notícia.
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Quanto ao secretário, reitero: é óbvio que teria de sair. Equipe econômica não é centro acadêmico.

COMENTANDO A NOTÍCIA: Durante muito tempo (até hoje, se bem que com menor eloqüência), os juros foram a danação criticada de norte a sul como o maior mal brasileiro, e que por força deles, os juros, o país não crescia. Até que os juros começaram a cair, a cair, e hoje pouco o criticam. Ainda é alto ? Claro que é, considerando-se os juros reais praticados no restante do mundo, e que a inflação nacional encontra-se contida.

Como o bom (para os quadrúpedes) é sempre achar uma desculpa fajuta para o não crescimento, um dia alguém descobriu o câmbio como problema. Logo, apareceram as justificativas: o volume de dólares que entram pela exportação, faziam o real despencar.

Durante muito tempo, criticamos esta postura. Defendíamos que a questão cambial estava atrelada ao níveis de juros. Juros altos atraíam capital especulativo. O volume alto de ingresso destes dólares chamados de “capital motel”, adicionados ao volume de dólares das exportações, além daqueles ingressados através de remessas de brasileiros residentes no exterior, na conjunção destes fatores, o real realmente acabava se valorizando em relação à moeda americana.

Poucos falaram desta conjunção. A cantilena ia e vinha pelo canal das exportações, o que agora pouco a pouco vai se demonstrando que as exportações por si só não teriam a força de fazerem o real valorizar-se tanto. Claro que o governo vai demorar para “aceitar” a realidade. Tem sido assim o tempo todo desde que Lula chegou ao poder. Primeiro nega-se o fato. /Depois, quando este já é comum ao conhecimento geral que geral seria burrice, então se inventa uma desculpa por mais maluca que possa parecer, para justificar a bandalheira.

Devemos, assim, buscar formas de contrabalancear o peso excessivo do real perante o dólar, se o que o país deseja é realmente acelerar seu crescimento. Estamos exportando capital (investimentos produtivos) e mão de obra, além de gerar empregos lá fora. Em conseqüência, a produção nacional pouco a pouco está sendo substituída por importações. Em resumo: o pais vive o chamado processo de desindustrialização. Além disto, o nível de crescimento das importações tem se dado em percentuais bem acima do das exportações.

Ou o governo trata de reverter este quadro, e rapidamente, ou dentro em pouco estaremos queimando as gorduras acumuladas de nossas reservas. Além de se agravarem os problemas de desemprego, quebradeira de fábricas, perda de renda, redução da capacidade investimentos em novas plantas, etc. E com um agravante adicional: o mundo ensaia uma redução no seu ritmo de crescimento. Isto significa dizer o seguinte: jogamos fora uma excepcional oportunidade de vivermos um gigantesco salto econômico nestes últimos anos. E a tal ponto isto é verdadeiro, que a nossa taxa de desemprego vem se mantendo constante em torno dos 10% já há muitos anos. A falta de investimentos, a perda de renda conjugada com desemprego alto, tem levado os brasileiros a um grau de endividamento que pode fugir do controle rapidamente e aí, sim, poderemos por a perder todo o esforço feito nos últimos anos para atingirmos estabilidade econômica. Resta dizer que nosso crescimento médio nos últimos 20 anos tem sido absolutamente ridículo se comparado com as demais nações ricas e emergentes. Há pelos cinco anos estamos vivendo uma estagnação econômica que só faz aumentar a perda de renda média.
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O artificialismo de se conceder aumentos reais ao salário mínimo acabam comprometendo a economia como um todo, e isto se reflete na pouca capacidade do Estado em investir em educação, saneamento básico e infra-estrutura o que acaba comprometendo ainda mais nossa capacidade de crescer acima do crescimento demográfico. Conseqüência: estamos gerando miséria e pobreza de um lado, com a perda do controle sobre o endividamento interno por absoluta inoperância do governo sobre seus gastos correntes. Uma verdadeira bomba-relógio armada para explodir a qualquer momento.