quarta-feira, abril 11, 2007

Relato de um controlador de vôo

Do Correio Braziliense:

"O relato foi colhido pelo procurador Fábio Fernandes, do Ministério Público do Trabalho em São Paulo. Algo pior ainda que o acidente da Gol pode acontecer. Venho atuando junto aos controladores e conheço suas condições de trabalho, afirma Fernandes. A iminência de uma catástrofe, segundo o sargento da reserva, que prefere não ter a identidade revelada, já atormentava sua cabeça naquela noite de 26 de maio. As freqüências de rádio apresentavam interferências das mais diversas. Os alvos duplicados, triplicados e multiplicados dos aviões na tela do X-4000 aumentavam a sensação de que não iríamos dar conta do recado. Na cabeça, um só pensamento: ‘será que vai ser comigo?’

O controlador, então, pediu à torre de Congonhas para usar as duas pistas e reduziu de cinco para três milhas náuticas a separação entre aviões. Solicitou aos centros de Brasília e de Curitiba que realizassem um controle de fluxo, mas sabia que isso era quase impossível. Gerava um efeito negativo na produtividade, explica. Às 20h, a tensão quase que rotineira se transformou em terror. Um silêncio tétrico repentinamente tomou conta da sala. Olhares incrédulos se cruzaram das oito posições operacionais ativadas e um gemido uníssono ecoou na sala: ‘Caiu a freqüência!’ Mas meu Deus, caíram todas? De uma vez?, lembra.

Supervisores tentavam ligar para os demais órgãos para que assumissem o tráfego, mas os telefones estavam mudos. Ficamos vinte e dois minutos com os olhos estatelados nas telas do radar, incrédulos e impotentes diante de um filme de terror. Quase bateram quatro aviões, dois sobre Santana do Parnaíba e dois sobre Bonsucesso, em Guarulhos, diz o relato. Às 23h, após anotar as alterações no

Livro de Registro de Ocorrências, desci as escadas, entrei no carro, fechei a porta e chorei como uma criança, lembra. Decidi que enquanto participasse daquele circo, haveria sempre de registrar e relatar tudo, buscando soluções, se necessário, nos altos escalões da Força Aérea. E assim o fiz."

COMENTANDO A NOTICIA: O relato reproduzido pelo Correio Braziliense não a crise em si, mas uma face dela. Uma face perversa por sinal. Não se pode apenas imputar aos controladores toda a responsabilidade pela crise como o presidente tem feito rotineiramente, que já perdura seis meses, sem que este mesmo presidente tenha tomado uma medida saneadora que fosse para evitar tudo isto que temos visto. Só o que fez foi discurso imbecil, transferência leviana de responsabilidades, intrometer-se onde não devia, atrapalhando o tráfego e andando na contramão, além da omissão irresponsável na leitura dos inúmeros relatórios de advertência que recebeu. Enquanto o governo tratar a questão nos níveis políticos, acreditem, esta crise tende a se manter no ar por muito tempo. Aqui, a decisão deve e precisa ser técnica. Não pode mais o governo continuar brincando de faz de conta com algo que, conduzido de forma negligente, redunda em mortes, como o foram as 154 vítimas do acidente com o Boeing da Gol. Aliás, aqui fica a pergunta: por que este governo, tendo o acidente ocorrido em setembro de 2006, até hoje não conseguiu produzir um diagnóstico decente das causas que o provocaram? Houvesse de parte de Lula real interesse em debelar a crise toda, teria começado por aí.