quarta-feira, maio 16, 2007

Distância do povo

José Negreiros, Blog do Noblat

A pedido do presidente Lula, o governador José Arruda mandou construir um retorno próximo ao Palácio da Alvorada para desviar o trânsito de carros de turistas que vão até ali tirar fotos em frente à residência oficial do presidente.

Nem os militares, em 20 anos de ditadura, encontram justificativa para um absurdo desses.

O Alvorada, uma das obras mais famosas de Oscar Niemeyer, é uma espécie de Corcovado de Brasília. O brasiliense raramente vai lá, mas é um dos lugares mais visitados por quem está de passagem.

A paisagem e o impacto das colunas dão um choque de modernidade no visitante, cujo número aumentou muito desde a eleição de Lula. A grama do largo tapete que se forma entre a rua e o palácio torna-se uma defesa natural.

Protegida pelo traço imponente do arquiteto, moldada em espelho e vidro, a intimidade da casa do presidente nem de longe corre qualquer risco por causa do movimento dos carros dos turistas.

Se, como sugerem as notas sobre o assunto, o trânsito por ali for proibido, a casa do presidente vai virar um sítio, mais longe do que já é do contato com o povo.

Jânio, um maluco conhecido, não inventou nada para afastar a curiosidade do povo sobre seu presidente. Os generais, fanáticos por segurança, não impediram as pessoas de ir até lá. Collor, que também era pirado, resolveu ficar onde estava – na Casa da Dinda. A Itamar, outro sujeito esquisito, jamais ocorreu que havia um problema ali.

Nem na Casa Branca, um lugar onde dois malucos já jogaram seus aviões, residência do homem mais arrogante e poderoso do planeta (temeroso, com justa razão, de um ataque terrorista), proibiram os turistas de pisar na calçada.

Como é que Lula, homem do povo e pop star da política, dá uma ordem dessas, e um governador que fez campanha visitando os mais humildes eleitores em seus barracos, lá no fundo das cidades-satélites cumpre?

Só nos resta a pequena chance de que Arruda tenha vazado de propósito a nota para o “Radar” da Veja como forma de provocar um escândalo maior do que a gravação da estrela vermelha nos jardins do Alvorada, e com isso inviabilize a idéia de jerico.