quarta-feira, maio 16, 2007

MR-8: Da luta armada ao fisiologismo selvagem

Rodrigo Camarão, Jornal do Brasil

Eles participaram do seqüestro do embaixador americano em 1969, promoveram assaltos e se autoproclamaram revolucionários em homenagem a Ernesto Che Guevara. Os anos passaram. Como não havia mais tanques nas ruas nem generais a derrubar no Planalto, os guerrilheiros do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) depuseram as armas e se renderam ao fisiologismo, sem, no entanto, renunciar a velhas técnicas terroristas. Convencidos de que comunistas também precisam capitalizar-se, debandaram em 1979 para o PMDB. Namoraram Orestes Quércia em São Paulo, onde eram o braço de esquerda do governo. Depois, casaram com Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a barba hirsuta do presidente, os antigos revolucionários vislumbraram Karl Marx e a personificação do ideal socialista. Com o apoio de um ex-ministro, infiltraram-se e aparelharam áreas do governo, notadamente no Ministério da Educação (MEC). Ex-guerrilheiros ou seguidores do MR-8 conseguiram espaço em programas como a volta do Projeto Rondon, tocado pela Secretaria de Educação Superior do MEC na Amazônia, entre outros.

Nos Estados, os revolucionários, aposentados ou não, também alcançaram postos importantes. Mário Bacelar, chefe-de-gabinete do governador do Paraná, Roberto Requião, é dirigente do grupo. Emerson Pires Leal, vice-prefeito da cidade paulista de São Carlos, também integra do MR-8. O atual secretário-geral do movimento, Sérgio Rubens de Araújo Torres, foi indicado pelo PMDB paulista como delegado em Convenção Nacional do partido, ao lado do presidente nacional do partido, Michel Temer, e regional, Orestes Quércia.

Requião, a cidade de São Carlos e Sérgio Rubens mereceram louvações e espaço nas páginas do jornal Hora do Povo, ligado ao MR-8.

O ex-governador de São Paulo jura ter desfeito todos os vínculos com o grupo infiltrado no PMDB. Quem lhe pergunta que importância tem o MR-8, ouve a resposta depois de alguns segundos de reflexão.

- A importância é... sei lá. Para mim, todo mundo é importante, mas não tenho relação direta com eles, nem leio o Hora do Povo - desconversa ao JB um constrangido Quércia.

Com apoio incondicional ao lulismo - "chapa-branca", como disse um ex-militante do MR-8 - o Hora do Povo estampa nas páginas entrevistas com integrantes do movimento e faz elogios desmedidos ao Lula que "resgatou o papel do Estado como instrumento de distribuição de renda, de promoção de justiça social". Em março, os revolucionários do periódico denunciaram a tortura empreendida pelo governo ao não anunciar no jornal durante sete meses. O apelo pelo vil metal, como gostam de dizer, surtiu efeito. Meia página foi reservada a um anúncio da Receita Federal. A Secretaria de Comunicação não informa quanto custou o anúncio, mas antecipa que não está prevista mais nenhuma publicidade no Hora do Povo.

O jornal é publicado pelo Instituto Brasileiro de Comunicação Social, sediado na Vila Bancária, São Paulo. O CNPJ é inscrito na Receita Federal como associação de defesa dos direitos sociais, que dá direito a benesses fiscais.

O Hora do Povo alega ter tiragem de 50 mil exemplares, mas não está filiado ao Instituto Verificador de Circulação (IVC). Para cada edição, colorida de oito páginas, o custo médio, de acordo com gráficas consultadas pelo JB, é de R$ 10.545. Como circula duas vezes por semana, o valor ultrapassa R$ 84 mil mensais.

No mesmo 27 de abril, o jornal resolveu retribuir o anúncio pago pelo governo. Comprou a briga do ministro Franklin Martins, ex-militante do grupo até o início dos anos 80. Os ex-revolucionários lembraram os velhos tempos e ameaçaram de morte o jornalista Diogo Mainardi, colunista de Veja.