quarta-feira, maio 16, 2007

Mais um absurdo na política externa

Ricardo A. Setti, NoMínimo
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A cena apareceu dias atrás em todos os noticiários de TV, nos principais portais da internet e nos grandes jornais: o presidente Lula, o presidente da Argentina, Nestor Kirchner, e a primeira-dama, Cristina Fernández de Kirchner, protagonizando uma espécie de tríplice aperto de mãos diante dos fotógrafos, na residência oficial dos chefes de Estado argentinos, em Olivos, próximo a Buenos Aires.
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O gesto podia ser visto como simbólico dos resultados da visita, em que se discutiram questões energéticas e a respeito da qual Lula, com a habitual modéstia, aproveitou para assegurar que, sob o governo petista, a relação entre o Brasil e o grande vizinho do sul "vive seu melhor momento histórico". Até aí, nada demais... e que bom seria se a frase de Lula não passasse de mais uma bravata, pois o que não falta são turbulências entre os principais sócios do Mercosul. O problema é que o presidente aproveitou sua passagem meteórica (17 horas) pela Argentina para, com a maior tranqüilidade do mundo, reiterar que apóia a reeleição de Kirchner para o cargo, no pleito que se dará, em primeiro turno, no dia 28 de outubro.
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O presidente remeteu os jornalistas para uma sua entrevista, publicada na véspera por três grandes jornais de Buenos Aires, em que declarava ser o controvertido Kirchner "uma bênção extraordinária" para a Argentina e qualificava sua eventual continuidade no governo como "extremamente importante para a integração regional". Como se fosse um cidadão comum, e exibindo um amplo sorriso de satisfação, Lula consolidava, assim, a violação de um princípio universal de convivência entre as nações que há décadas o Itamaraty considera sagrado – o da não-interferência de um país nos assuntos internos de outro.
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O uso do verbo consolidar vem bem ao caso, uma vez que a espantosa naturalidade com que o presidente aponta preferências por candidatos em disputas eleitorais em países vizinhos parece estar-se transformando numa nova tradição da muitas vezes estapafúrdia política externa do lulato, já tendo ocorrido na eleição de Evo Morales na Bolívia, em 2005, e na segunda reeleição de Hugo Chávez na Venezuela, ano passado. (Sem contar embates em que, com menos alarde, gente do governo não escondia sua torcida para determinados candidatos, como ocorreu com o ex-ditador da Nicarágua Daniel Ortega, eleito no ano passado).
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É fácil constatar o absurdo dessa postura se, apenas para efeito de raciocínio, mudarmos, na mesma situação, a geografia e alguns personagens. Que tal, por exemplo, se o primeiro-ministro britânico Tony Blair, do Partido Trabalhista, tivesse declarado apoio à candidata socialista Ségolène Royal nas eleições recém-encerradas na França? Seria um escândalo político e diplomático de proporções monumentais, que certamente levaria à derrubada de Blair pelo Parlamento e estremeceria as colunas da União Européia. Governos lidam com governos, e seus titulares não podem, em hipótese alguma, exprimir preferências eleitorais em território alheio, sob pena de sério prejuízo aos interesses de seus países.
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França e Alemanha, os dois grandes pilares da União Européia, são um exemplo esplêndido de perfeita convivência entre Estados independentemente das ideologias temporariamente imperantes em qualquer dos lados: ao longo de seis décadas desde o final da II Guerra Mundial, os ex-inimigos mortais e hoje sólidos aliados têm mantido relações estreitas e profundas com presidentes de direita na França e primeiros-ministros social-democratas na Alemanha, ou presidentes socialistas na França e primeiros-ministros democratas cristãos (conservadores) na Alemanha , sem um fiapo de problema sequer. Isso para não falar da aliança entre Estados Unidos e Reino Unido, que não se altera um milímetro seja quem for que esteja ao leme – os ultraconservadores Ronald Reagan, nos EUA, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, ou, respectivamente, os liberais Bill Clinton e Tony Blair. Tem sido assim desde sempre, acentuando-se a aproximação com o liberal Franklin D. Roosevelt e o conservador Winston Churchill, durante a II Guerra.
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Não precisamos ir tão longe para expor a baboseira eleitoreira do governo brasileiro. Já imaginaram se, no ano passado, o americano George Bush ou o francês Jacques Chirac, num momento de desatino, tivessem expressado sua preferência pelo tucano Geraldo Alckmin na disputa contra Lula? A que estado se reduziriam as relações do Brasil com os Estados Unidos e com a França depois da vitória de Lula?
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É esse tipo de pergunta que o presidente deveria se indagar com suas últimas atitudes. Especialmente em se tratando da Argentina, nosso maior e mais importante vizinho latino-americano em todos os sentidos e peça-chave no comércio exterior brasileiro. Apoiar Kirchner significa que Lula está se posicionando num pleito a que poderão concorrer, também, além do presidente (ou de sua mulher, a senadora Cristina, que talvez dispute em seu lugar pelo peronismo, principal movimento político da Argentina), candidatos respeitabilíssimos de várias correntes representativas da sociedade argentina. Lá estarão, provavelmente, Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia do próprio Kirchner, apoiado pela oposicionista União Cívica Radical do ex-presidente Raúl Alfonsín, o também ex-ministro da Economia Ricardo López Murphy, de uma coligação de centro-direita, a ex-deputada e ex-candidata à Presidência Elisa Carrió, por um arco de partidos de centro e centro-esquerda, e talvez até mesmo o ex-presidente peronista Carlos Menem (1989-1999), agora titular de um novo partido.
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Se ganha um deles, com que cara vai ficar Lula? Muito mais importante do que a fisionomia presidencial: em que pé ficarão os interesses brasileiros na Argentina? Aí então o gesto de Lula poderia ser medido em toda a extensão de sua irresponsabilidade.
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O curioso – e triste – é que, para outros fins, o princípio da não-intervenção em assuntos internos de terceiros países continua sendo usado pelo governo brasileiro justamente quando não deveria. Pois foi dele que o governo lançou mão para justificar atitudes vergonhosas, como a de assinar um acordo sobre direitos humanos com um dos grandes violadores desses direitos no mundo, a China, ou a atitude de se abster na ONU na condenação de Cuba pela mesma questão, e a de igualmente se manter em cima do muro quando o Conselho de Segurança exigiu a retirada das tropas de ocupação sírias no Líbano, em 2004. Não se tratava, ali, de não-intervenção, mas de seguir princípios e procedimentos previstos na própria Carta da ONU, e acatados pelas principais nações civilizadas. Preferimos, em tais casos, a companhia de regimes como os da Argélia, da própria China ou do Paquistão. Nem regimes desse quilate, porém, fazem o que o Brasil anda fazendo: se meter, sem ser chamado, nas eleições dos outros.
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Esse tipo de bobagem, anotem os leitores, inevitavelmente deixa conseqüências.