Mauro Santayana, Jornal do Brasil
"Estamos no mato sem cachorro", desabafou, em mensagem a esta coluna, o leitor Hemerval Zanoni, de Colatina, Espírito Santo. Outros leitores me enviaram mensagens revelando a mesma angústia. Este é o sentimento da imensa maioria dos cidadãos, diante da audição dos diálogos entre corruptores, corrompidos e corruptíveis, tornados públicos pela confidência de agentes da Polícia Federal.
Os conformistas - cínicos ou céticos - balançam os ombros: o homem é corrupto por natureza, e os políticos, além disso, pelas circunstâncias, seduções e oportunidades do ofício. Ao constatar que sempre houve corrupção, alguns observadores debochados chegam a creditar-lhe o avanço da civilização. A verdade é que a civilização, ao contrário, é o resultado da resistência contra os que parasitam a sociedade, desde os tempos tribais. Para que não pereçam, as sociedades livres não podem tolerar os que se apropriam do bem comum e têm o dever de insurgir-se contra os que violam os princípios democráticos.
Não é segredo para ninguém que o financiamento das campanhas sempre foi público, mediante o superfaturamento de obras e das vendas feitas aos governos, em todas as esferas do Estado. Por isso mesmo, os defensores do financiamento oficial, legal, da propaganda política, argumentam, com razão, que os contribuintes pagarão menos, e com transparência, se o dinheiro sair do Tesouro pelos guichês da frente. Embora igualmente condenável, uma coisa é valer-se do dinheiro clandestino para financiar campanhas, e outra, pior ainda, enriquecer-se com subornos, como tem ocorrido.
Os escândalos públicos vêm se acumulando em nosso tempo, sem a devida punição dos responsáveis desde os casos mais antigos, como o de socorro, pelo Tesouro, a empresários incompetentes ou desonrados, ainda no governo militar e, mais tarde, no governo passado. Nos oito anos precedentes ao atual governo, o processo de privatização foi eivado de suspeitas, reveladas também em diálogos gravados. As descobertas da Operação Navalha constituem a culminação debochada desse processo. Os cidadãos de bem consideram-se insultados em sua dignidade pessoal. É do dinheiro de seu trabalho, dos sacrifícios que fazem os assalariados, do que falta, em comida, em saúde, e do que sobra em preocupação à sua família, que se enriquecem esses senhores. Os corruptos e os corruptores.
O governo tem, é certo, o dever de respeitar o devido processo da lei, mas não pode, a pretexto de proteger presumidos inocentes, ficar de braços cruzados. Os funcionários do Estado não podem exercer qualquer autoridade se, sobre a sua honra, paira a névoa da dúvida. Os inocentes devem ser os primeiros a afastar-se de seus cargos, a fim de que os fatos se esclareçam. Quando as pessoas apontadas insistem em permanecer em suas funções, fazem crescer as suspeitas sobre sua culpa. O fato é que a corrupção atinge, de alto a baixo, a máquina do Estado, como se comprovou no conluio entre policiais militares e agentes turísticos para roubar a receita dos ingressos no Parque do Cristo Redentor.
Há, em Brasília, o temor de que a Polícia Federal e o Ministério Público, com o aval da Justiça, estejam iniciando ação devastadora contra o que se convencionou chamar classe política, com a investigação de grandes fortunas, amealhadas em sucessivos mandatos legislativos e executivos. Para certos observadores, isso não será difícil, se houver o exame da evolução do patrimônio de algumas personalidades. Ainda que muitos desses crimes, até hoje encobertos pela poeira do tempo, estejam juridicamente prescritos, os culpados não se encontram imunes à ira popular. É o pavor do juízo final.
"Estamos no mato sem cachorro", desabafou, em mensagem a esta coluna, o leitor Hemerval Zanoni, de Colatina, Espírito Santo. Outros leitores me enviaram mensagens revelando a mesma angústia. Este é o sentimento da imensa maioria dos cidadãos, diante da audição dos diálogos entre corruptores, corrompidos e corruptíveis, tornados públicos pela confidência de agentes da Polícia Federal.
Os conformistas - cínicos ou céticos - balançam os ombros: o homem é corrupto por natureza, e os políticos, além disso, pelas circunstâncias, seduções e oportunidades do ofício. Ao constatar que sempre houve corrupção, alguns observadores debochados chegam a creditar-lhe o avanço da civilização. A verdade é que a civilização, ao contrário, é o resultado da resistência contra os que parasitam a sociedade, desde os tempos tribais. Para que não pereçam, as sociedades livres não podem tolerar os que se apropriam do bem comum e têm o dever de insurgir-se contra os que violam os princípios democráticos.
Não é segredo para ninguém que o financiamento das campanhas sempre foi público, mediante o superfaturamento de obras e das vendas feitas aos governos, em todas as esferas do Estado. Por isso mesmo, os defensores do financiamento oficial, legal, da propaganda política, argumentam, com razão, que os contribuintes pagarão menos, e com transparência, se o dinheiro sair do Tesouro pelos guichês da frente. Embora igualmente condenável, uma coisa é valer-se do dinheiro clandestino para financiar campanhas, e outra, pior ainda, enriquecer-se com subornos, como tem ocorrido.
Os escândalos públicos vêm se acumulando em nosso tempo, sem a devida punição dos responsáveis desde os casos mais antigos, como o de socorro, pelo Tesouro, a empresários incompetentes ou desonrados, ainda no governo militar e, mais tarde, no governo passado. Nos oito anos precedentes ao atual governo, o processo de privatização foi eivado de suspeitas, reveladas também em diálogos gravados. As descobertas da Operação Navalha constituem a culminação debochada desse processo. Os cidadãos de bem consideram-se insultados em sua dignidade pessoal. É do dinheiro de seu trabalho, dos sacrifícios que fazem os assalariados, do que falta, em comida, em saúde, e do que sobra em preocupação à sua família, que se enriquecem esses senhores. Os corruptos e os corruptores.
O governo tem, é certo, o dever de respeitar o devido processo da lei, mas não pode, a pretexto de proteger presumidos inocentes, ficar de braços cruzados. Os funcionários do Estado não podem exercer qualquer autoridade se, sobre a sua honra, paira a névoa da dúvida. Os inocentes devem ser os primeiros a afastar-se de seus cargos, a fim de que os fatos se esclareçam. Quando as pessoas apontadas insistem em permanecer em suas funções, fazem crescer as suspeitas sobre sua culpa. O fato é que a corrupção atinge, de alto a baixo, a máquina do Estado, como se comprovou no conluio entre policiais militares e agentes turísticos para roubar a receita dos ingressos no Parque do Cristo Redentor.
Há, em Brasília, o temor de que a Polícia Federal e o Ministério Público, com o aval da Justiça, estejam iniciando ação devastadora contra o que se convencionou chamar classe política, com a investigação de grandes fortunas, amealhadas em sucessivos mandatos legislativos e executivos. Para certos observadores, isso não será difícil, se houver o exame da evolução do patrimônio de algumas personalidades. Ainda que muitos desses crimes, até hoje encobertos pela poeira do tempo, estejam juridicamente prescritos, os culpados não se encontram imunes à ira popular. É o pavor do juízo final.