Fausto Wolff, Jornal do Brasil
Muitos anos atrás, o rei Gustavo da Suécia era apenas príncipe e, na entrevista coletiva que deu no clube dos correspondentes estrangeiros em Roma, declarou ser somente um rapaz simples, como qualquer outro sueco da sua idade. Como o clima permitia e éramos da mesma geração, perguntei-lhe por que um rapaz simples queria ser rei da Suécia. Ele ficou levemente embaraçado mas se saiu muito bem e hoje é um excelente rei casado com uma senhora nascida no Brasil.
Existem zilhões de profissões que não obrigam o cidadão a uma conduta exemplar. O auxiliar do dentista de Benfica pode tomar os porres que quiser sem dar satisfações a ninguém. O mesmo não deveria acontecer para quem tem uma vida pública: um ator, um político, um policial, um jogador de futebol, um jornalista. Se tem um troço que me irrita mesmo é ver ator, atriz, cantor, cantora, modelo, que, depois de torrar os países baixos da imprensa especializada nesse tipo de débeis mentais, acreditando-se famosos, jogam água fora da bacia: "'Respeitem minha vida privada".
Tem nada disso, não moreno. Ajoelhou tem rezar. Ser simpático, sorrir, apertar mãos e assinar autógrafos faz parte da tua profissão e fim de papo. Quem optou pela vida pública tem de lutar gentilmente pela privada. Parece que vou mudar de assunto mas não vou. Vocês vão ver.
Continuo no mesmo galope porque é mais forte do que eu (os jovens médicos nazistas das UTIs da Santa Maria e da Bambina, por exemplo) e só consigo ver jornalismo como oposição, como caixa de ressonância, como quixotismo e panfletarismo. Escrever sobre normalidade em tempos anormais é crime. Apesar disso, acho que nós - homens e mulheres de bem deste país - perdemos a batalha para os maus elementos, para os indivíduos, para os marginais.
Por que eles ganharam definitivamente a batalha? Nós tentamos fazer do crime uma violação social que deve ser punida de acordo com a sua gravidade. Eles, os maus elementos, conseguiram o impossível: fazer do crime de colarinho branco (o que rende) no máximo um erro, uma negligência. E riem para as câmeras.
Eu sinto vergonha quando vejo aquele pessoal reunido na Câmara ou no Senado, um tentando lavar a cueca suja do outro como se aquilo não passasse de um hobbiezinho. Diz o senador Lima, do Sergipe (a quem cheguei a levar a sério por alguns dias): "Este negócio é uma cachaça. Basta eu ver o Renan que me bate uma vontade enorme de lavar as cuecas sujas dele".
Além disso, elogiou o lobbista por exercer a bizarra profissão de passador de dinheiro de homem pra mulher. Já (sei do cacófato) Jader Barbalho, cuja presença jóia consegue joiar um trigal inteiro, reclama: "A perseguição contra mim é tão grande que não me deixam lavar nem um cantinho da cueca do Renan".
Agora eu vou explicar por que acho que perdemos a guerra contra os indivíduos. Ter vergonha é tomar consciência da desonra, da desgraça, da condenação. Se não estivéssemos no Brasil tratando de políticos brasileiros eu diria que a vergonha é a violação de valores culturais e sociais. Depois de 1964 (sempre cada vez mais aceleradamente), a vergonha deixou de ser uma necessidade de estabelecer limites na infância, uma vez que as crianças são incapazes de julgar suas próprias ações. No fundo é isso que as autoridades do Legislativo, do Judiciário e do Executivo querem que pensemos delas: que são pobres crianças expostas ao crivo da opinião pública.
Mas não são crianças. São Malfeitores e sentem-se à vontade entre os seus pares, pois conhecem os pecadilhos uns dos outros e sabem como devem agir na hora aprazada. Para quem não tem vergonha, um ato vergonhoso é digno de aplauso, assim como o ex-chefe de Renan, Collor de Mello, foi aplaudido quando de sua volta ao Parlamento.
Estou me lixando se o senhor Calheiros vai para a cama com A ou Z; também não me importa se tem filhos com B ou Y. O que é inadmissível é que sejamos nós a pagar a conta. Quanto à Mônica Veloso, um aviso: a luta pela obtenção de uma notícia tem limites.
P.S. - O contador de histórias que existe dentro de mim não resiste e se pergunta: o que aconteceria se amanhã um repórter engravidasse uma senadora ou deputada? Quem pagaria a pensão e a quem? O repórter, a política ou o lobista?
Muitos anos atrás, o rei Gustavo da Suécia era apenas príncipe e, na entrevista coletiva que deu no clube dos correspondentes estrangeiros em Roma, declarou ser somente um rapaz simples, como qualquer outro sueco da sua idade. Como o clima permitia e éramos da mesma geração, perguntei-lhe por que um rapaz simples queria ser rei da Suécia. Ele ficou levemente embaraçado mas se saiu muito bem e hoje é um excelente rei casado com uma senhora nascida no Brasil.
Existem zilhões de profissões que não obrigam o cidadão a uma conduta exemplar. O auxiliar do dentista de Benfica pode tomar os porres que quiser sem dar satisfações a ninguém. O mesmo não deveria acontecer para quem tem uma vida pública: um ator, um político, um policial, um jogador de futebol, um jornalista. Se tem um troço que me irrita mesmo é ver ator, atriz, cantor, cantora, modelo, que, depois de torrar os países baixos da imprensa especializada nesse tipo de débeis mentais, acreditando-se famosos, jogam água fora da bacia: "'Respeitem minha vida privada".
Tem nada disso, não moreno. Ajoelhou tem rezar. Ser simpático, sorrir, apertar mãos e assinar autógrafos faz parte da tua profissão e fim de papo. Quem optou pela vida pública tem de lutar gentilmente pela privada. Parece que vou mudar de assunto mas não vou. Vocês vão ver.
Continuo no mesmo galope porque é mais forte do que eu (os jovens médicos nazistas das UTIs da Santa Maria e da Bambina, por exemplo) e só consigo ver jornalismo como oposição, como caixa de ressonância, como quixotismo e panfletarismo. Escrever sobre normalidade em tempos anormais é crime. Apesar disso, acho que nós - homens e mulheres de bem deste país - perdemos a batalha para os maus elementos, para os indivíduos, para os marginais.
Por que eles ganharam definitivamente a batalha? Nós tentamos fazer do crime uma violação social que deve ser punida de acordo com a sua gravidade. Eles, os maus elementos, conseguiram o impossível: fazer do crime de colarinho branco (o que rende) no máximo um erro, uma negligência. E riem para as câmeras.
Eu sinto vergonha quando vejo aquele pessoal reunido na Câmara ou no Senado, um tentando lavar a cueca suja do outro como se aquilo não passasse de um hobbiezinho. Diz o senador Lima, do Sergipe (a quem cheguei a levar a sério por alguns dias): "Este negócio é uma cachaça. Basta eu ver o Renan que me bate uma vontade enorme de lavar as cuecas sujas dele".
Além disso, elogiou o lobbista por exercer a bizarra profissão de passador de dinheiro de homem pra mulher. Já (sei do cacófato) Jader Barbalho, cuja presença jóia consegue joiar um trigal inteiro, reclama: "A perseguição contra mim é tão grande que não me deixam lavar nem um cantinho da cueca do Renan".
Agora eu vou explicar por que acho que perdemos a guerra contra os indivíduos. Ter vergonha é tomar consciência da desonra, da desgraça, da condenação. Se não estivéssemos no Brasil tratando de políticos brasileiros eu diria que a vergonha é a violação de valores culturais e sociais. Depois de 1964 (sempre cada vez mais aceleradamente), a vergonha deixou de ser uma necessidade de estabelecer limites na infância, uma vez que as crianças são incapazes de julgar suas próprias ações. No fundo é isso que as autoridades do Legislativo, do Judiciário e do Executivo querem que pensemos delas: que são pobres crianças expostas ao crivo da opinião pública.
Mas não são crianças. São Malfeitores e sentem-se à vontade entre os seus pares, pois conhecem os pecadilhos uns dos outros e sabem como devem agir na hora aprazada. Para quem não tem vergonha, um ato vergonhoso é digno de aplauso, assim como o ex-chefe de Renan, Collor de Mello, foi aplaudido quando de sua volta ao Parlamento.
Estou me lixando se o senhor Calheiros vai para a cama com A ou Z; também não me importa se tem filhos com B ou Y. O que é inadmissível é que sejamos nós a pagar a conta. Quanto à Mônica Veloso, um aviso: a luta pela obtenção de uma notícia tem limites.
P.S. - O contador de histórias que existe dentro de mim não resiste e se pergunta: o que aconteceria se amanhã um repórter engravidasse uma senadora ou deputada? Quem pagaria a pensão e a quem? O repórter, a política ou o lobista?