Wilson Figueiredo, jornalista , Jornal do Brasil
Numa dessas em que o presidente Lula se mete por afobação, e depois sai de fininho, anunciou-se num golpe de surpresa a nomeação do professor Mangabeira Unger para gerir a Secretaria de Ação a Longo Prazo. Ninguém no governo se dignou a explicar a que exatamente se destinava. Não demorou, porém, a desconfiança de que o pensador avulso nada acrescentaria ao ministério. Muito pelo contrário.
A coalizão em que Lula embarcou autoriza previsões inconvenientes.A falta de oposição já se fazia sentir perigosamente. A sensação de soberania incontrastável, nas pesquisas de opinião, subiu à cabeça presidencial. E, antes que a fórmula do ministério eclético gerasse dificuldades, Lula se adiantou. A inclusão de Mangabeira Unger foi entendida como um gesto imperial de quem tinha a oposição a seus pés e podia posar para o futuro. Não havendo mais nada a fazer no presente, Lula foi em frente. Ninguém o advertiu de que o ministro que iria operar abstratamente o futuro tinha sido, em passado recente, o mesmo que apontou o governo do PT como o mais corrupto da História (mas só do Brasil). Adiada a posse, o novo órgão, para preencher o tempo, passou de Secretaria Especial a ministério da mesma categoria. O título, sem nada dizer, deixava tudo correr solto e, por efeito da lei do menor esforço, virou Ministério do Futuro. Que, até bem pouco, se dizia que "a Deus pertence". Não mais.
A nomeação de Mangabeira Unger empacou. E logo Lula, depois da reflexão que passou a praticar diariamente, reconsiderou tudo. Mudou para Planejamento Estratégico (a rigor, de coisa nenhuma) o nome da secretaria, que ficou sem o título e a responsabilidade de operar a Longo Prazo (quando estaremos todos mortos). Com a metamorfose, o puxadinho foi apelidado de Ministério do Futuro, mais de acordo com o pensador e com o autor. O inquilino que se arranje, como naquele ditado segundo o qual o corcunda sabe como se deita. E o papudo, não? Lula dispõe de um mandato novo inteiro, menos seis meses queimados com fogo de artifício. A mão que nomeou Mangabeira Unger não se animou a fazer o resto. Ou seja, demitir antes da posse, não é para qualquer um. O presidente pensou melhor: quem tem o PMDB tem tudo, tanto para criar como para resolver problemas.
O Ministério do Futuro pareceu suficiente arcabouço teórico e base científica para a aceleração do crescimento que não se faz por si. Dizia-se no século 20 que o Brasil crescia à noite, enquanto o governo dormia. Faz falta algo assim para competir com o espetáculo da corrupção. O Brasil até hoje tem bronca com a fórmula de "país do futuro" com que Stefan Zweig quis retribuir à acolhida nacional quando aqui chegou. Os contemporâneos do livro acharam que era uma questão de tempo. Com o tempo, porém, verificaram que o futuro não viria por gravidade. Antes, por fatalidade. Seria preciso mais. Com a aceleração ativada por Lula, já se viu que o futuro pede muita paciência. A questão ficou mais complicada depois que o presidente, de maneira pouco republicana, optou por esvaziar o passado. A fórmula com que se refere aos seus antecessores ofende o que o brasileiro tem de mais valioso, os brios nacionais. Foram eleitos pelos cidadãos. "Nunca antes, neste país, nenhum governo fez tanto" quanto ele pensa que fez. Nas tarefas de governo, o futuro pede cautela, que já foi tradição servir quando faltava caldo de galinha na mesa dos governantes.
Numa dessas em que o presidente Lula se mete por afobação, e depois sai de fininho, anunciou-se num golpe de surpresa a nomeação do professor Mangabeira Unger para gerir a Secretaria de Ação a Longo Prazo. Ninguém no governo se dignou a explicar a que exatamente se destinava. Não demorou, porém, a desconfiança de que o pensador avulso nada acrescentaria ao ministério. Muito pelo contrário.
A coalizão em que Lula embarcou autoriza previsões inconvenientes.A falta de oposição já se fazia sentir perigosamente. A sensação de soberania incontrastável, nas pesquisas de opinião, subiu à cabeça presidencial. E, antes que a fórmula do ministério eclético gerasse dificuldades, Lula se adiantou. A inclusão de Mangabeira Unger foi entendida como um gesto imperial de quem tinha a oposição a seus pés e podia posar para o futuro. Não havendo mais nada a fazer no presente, Lula foi em frente. Ninguém o advertiu de que o ministro que iria operar abstratamente o futuro tinha sido, em passado recente, o mesmo que apontou o governo do PT como o mais corrupto da História (mas só do Brasil). Adiada a posse, o novo órgão, para preencher o tempo, passou de Secretaria Especial a ministério da mesma categoria. O título, sem nada dizer, deixava tudo correr solto e, por efeito da lei do menor esforço, virou Ministério do Futuro. Que, até bem pouco, se dizia que "a Deus pertence". Não mais.
A nomeação de Mangabeira Unger empacou. E logo Lula, depois da reflexão que passou a praticar diariamente, reconsiderou tudo. Mudou para Planejamento Estratégico (a rigor, de coisa nenhuma) o nome da secretaria, que ficou sem o título e a responsabilidade de operar a Longo Prazo (quando estaremos todos mortos). Com a metamorfose, o puxadinho foi apelidado de Ministério do Futuro, mais de acordo com o pensador e com o autor. O inquilino que se arranje, como naquele ditado segundo o qual o corcunda sabe como se deita. E o papudo, não? Lula dispõe de um mandato novo inteiro, menos seis meses queimados com fogo de artifício. A mão que nomeou Mangabeira Unger não se animou a fazer o resto. Ou seja, demitir antes da posse, não é para qualquer um. O presidente pensou melhor: quem tem o PMDB tem tudo, tanto para criar como para resolver problemas.
O Ministério do Futuro pareceu suficiente arcabouço teórico e base científica para a aceleração do crescimento que não se faz por si. Dizia-se no século 20 que o Brasil crescia à noite, enquanto o governo dormia. Faz falta algo assim para competir com o espetáculo da corrupção. O Brasil até hoje tem bronca com a fórmula de "país do futuro" com que Stefan Zweig quis retribuir à acolhida nacional quando aqui chegou. Os contemporâneos do livro acharam que era uma questão de tempo. Com o tempo, porém, verificaram que o futuro não viria por gravidade. Antes, por fatalidade. Seria preciso mais. Com a aceleração ativada por Lula, já se viu que o futuro pede muita paciência. A questão ficou mais complicada depois que o presidente, de maneira pouco republicana, optou por esvaziar o passado. A fórmula com que se refere aos seus antecessores ofende o que o brasileiro tem de mais valioso, os brios nacionais. Foram eleitos pelos cidadãos. "Nunca antes, neste país, nenhum governo fez tanto" quanto ele pensa que fez. Nas tarefas de governo, o futuro pede cautela, que já foi tradição servir quando faltava caldo de galinha na mesa dos governantes.