domingo, agosto 26, 2007

Afinal, que "elites" são essas?

Fritz Utzeri, jornalista, Jornal do Brasil

Pois é, e o Brasil está quase virando um país para se investir, segundo as agências de risco. Quinta-feira foi a vez da Moody's elevar a nossa (deles) cotação de BA-2 para BA-1, última nota abaixo do grau de investimento, um selo dado a países com baixo risco de calote. Outras duas agências, a Fitch e a Standard & Poor's já haviam feito o mesmo e, pelo jeito, estamos com a bola toda. Ou não?

Essas agências de risco estão sob ataque de economistas, como o Nobel de Economia de 2006, Edmond Phelps, que considera que elas não foram capazes de antecipar a crise causada pelos empréstimos de alto risco (subprime) do mercado hipotecário dos EUA. Segundo Phelps, a metodologia das agências está errada e elas deverão ser substituídas por outras, capazes de errar menos. Que tal Mãe Estela e seus búzios?

Curioso país é o Brasil em que o governo jura que faz tudo pelos pobres e vive a denunciar as "elites", ao mesmo tempo em que ganha sucessivos atestados de bom comportamento dessas agências e do FMI (cujo presidente, por coincidência, se chama Rato) e que certamente representam o "povo".

Uma dessas agências de classificação, a Standard & Poor's, pelo menos garante que é "dos pobres", em inglês. Taí, pobre nem imagina que tem agência em Wall Street (mais escracho, impossível). Desse jeito, essas organizações da "internacional capitalista" vão acabar classificando o Brasil como país apto a receber investimentos até o final de 2008. Então vamos entrar no paraíso. Ou não?

É provável que não cheguemos nem perto. Os representantes do "povo" gostariam que a CPMF fosse mantida, e defendem a reforma da Previdência (essa instituição inexistente para a maioria dos brasileiros - perguntem a mim, que sou aposentado e não quis pedir "bolsa ditadura", fui processado em IPM e perdi emprego). Se algo pode complicar nossa entrada no "paraíso" é a quase total falência da infra-estrutura que, segundo a agência, "impõe sérias limitações ao potencial de crescimento do Brasil e apresenta-se como fator que poderá limitar as perspectivas de médio prazo". Enfim o "céu" está perto, mas não há avião, estrada ou trem para chegar lá.

Qual seria a "elite" que, segundo o Molusco, quer tanto derrubar o "governo popular" que faz tudo pelos pobres? Além dos porta-vozes de certa "esquerda" e de certo "pensamento acadêmico" (?), os políticos da chamada "base aliada" também vivem denunciando as "elites".

Cláudio Lembo (Democrata, ex-PFL, que tem "horror" à elite) e Sérgio Cabral (PMDB), do alto de sua condição de "povo" bem instalado em Angra, enchem a boca para desqualificar a "elite" e chegam a referir-se a uma "elite branca", em mais uma tentativa, nunca antes vista neste país, de gerar animosidade social e racial. Quem são esses brancos safados?

O próprio Molusco acusou essa "elite" de ser contra o Bolsa Família e apoiar as bolsas a estudantes de pós-graduação, "privilégio" para formar doutores - investimento que a China e a Índia priorizaram, e responsável por um prodigioso desenvolvimento científico e tecnológico desses países.

Ao mesmo tempo vejo os números do Bolsa Família e me convenço de que o governo comprará cada vez mais votos para manter a mediocridade, a pobreza, a impunidade e a corrupção. O discurso "anti-elite" chega a afirmar, como o fez Renan Calheiros, que seu processo é manobra dessas "elites" para atingir o Molusco, argumento usado por muitos neopetistas envolvidos em corrupção.

Em nome da decência é preciso que se revele quem são essas "elites". Será que os banqueiros, Olavão Sertubal, Milu Vilella (Itaú), Marcio Cipriano (Bradesco) e os demais, fazem parte dessa "elite"? Quem são esses "conspiradores"? Visam o quê? O socialismo? Talvez o "companheiro" Delfim Netto, que sempre foi "povo" e que já comandou a economia quando o Brasil era bom para investir, crescia e a pobreza aumentava, saiba de quem o Molusco e seus "companheiros" andam falando. Juro que estou curioso.