domingo, agosto 26, 2007

Um partido avesso ao modernismo...

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Modernizar-se significa atualizar-se. Assim, o conceito de moderno pressupõe progredir, evoluir, crescer. O ser humano tem na evolução a razão de haver ascendido das cavernas para estes tempos de alta tecnologia. Por conta disto, o efeito foi ter ampliado sua existência útil. Estamos mais produtivos na velhice, que se estende por muitos anos a mais de vida.

No post anterior, valemo-nos de uma entrevista que o cientista político Bolívar Lamounier deu à Revista VEJA há cerca de 8 anos atrás. Em nada aquela entrevista perdeu sua atualidade. Falamos antes sobre o caminho necessário para arrancar os indivíduos da miséria, até bem a propósito da notícia da semana sobre um quarto da população brasileira ser beneficiária do Bolsa Família.

Nas questões seguintes, Lamounier fez uma análise sobre o ideário arcaico do PT e das esquerdas de um modo geral. Reparem que a análise é o tempo em que o PT era aquela oposição fundamentalista, que jamais estendeu a mão para ajudar quem quer que fosse que estivesse no poder. É este mesmo partido que agora arrota e prega uma “união nacional”, ou na construção de um projeto para um país para daqui 15, 20 anos. E por que quando convidado, jamais se dispôs a participar?

Mas vamos ver o que cientista político Lamounier dizia sobre o PT, enquanto oposição.

Veja – O senhor esqueceu o PT.
Lamounier
– O PT é uma federação de grupelhos que finge ser um partido e que tem um candidato a presidente, que é o Lula. E o Lula finge que tem nas mãos um partido. O que me intriga é que o PT tem bons quadros intelectuais e não tem coragem de abandonar idéias antigas. Ora, ninguém sabe para onde vai a globalização. Nem Fernando Henrique Cardoso, nem Paul Krugman, nem Deus. Portanto, não sabemos o que dará certo nas opções que estamos fazendo. Mas sabemos com clareza o que deu errado no passado. O estatismo que vivemos, que é o ideal dessa esquerda, criou uma das sociedades mais deseducadas do planeta e não resolveu seu principal desafio, que é o problema da desigualdade de renda. Eles não perceberam que o discurso que adotaram não os levará a lugar nenhum. Será um caso incorrigível de superficialidade ideológica, como acham alguns pensadores? Ou falta de coragem de se livrar da pequena patrulha e dizer o que realmente pensa?


Veja – Qual é sua opinião?
Lamounier –
A oposição brasileira está entre as mais atrasadas do mundo. Ela não entendeu que o mundo e nós não podemos praticar a mesma política econômica que era razoável trinta anos atrás. A oposição continua falando as mesmas coisas. Quer reestatizar a economia e garantir vantagens para o funcionalismo público. Ela não aprende com os fatos. A esquerda insiste em proteger interesses que ela imagina serem interesses médios.

Olhem para o governo de Lula e digam: em que eles mudaram ? A única coisa que Lula–governo difere, não o Lula–oposição, é na política econômica estabilizada que recebeu do governo Fernando Henrique, apesar de cretinamente não admitir. No restante, o governo Lula tenta manter as mesmas práticas que anunciava quando na oposição. Gigantismo do estado, aparelhamento da máquina pública, vantagens para o funcionalismo público com a conseqüente manutenção e até ampliação da carga tributária, que tem roubado do país sua capacidade de investir em novos negócios na velocidade que se necessária para reduzir o histórico nível de desemprego.

Mas reduzir o desemprego estará nos planos de Lula ? Não creio, e seu governo tem dado mostras visíveis disto. Primeiro, que o desempregado crônico acaba se tornando cliente do Estado ingressando no programa do Bolsa-Família. Como o país não gera os empregos que seriam necessários para reduzir este índice, o beneficiado se torna permanente. Segundo, para aumentar o nível de emprego, corresponderia a fazer o país crescer em níveis bem superiores aos atuais. Só que isto implicaria em termos um apagão energético no curto prazo. Politicamente seria inconcebível. Este seria um dos males que somariam ao estrangulamento da incipiente e degradada infra-estrutura do país, o aparecimento da mentira da auto-suficiência no petróleo, além de inúmeros gargalos na área de serviços públicos. Ou seja, o país entraria num colapso generalizado. A conseqüência final seria o esvaziamento do discurso, e a perda da popularidade preço político cujo prejuízo é impensável para a vaidade presidencial.

Assim, na medida que Lula alimenta o gigantismo do Estado, força que não tenhamos oxigênio suficiente que permita aumentar a poupança e consumo internos. Só por este caminho teríamos uma ampliação em termos percentuais de um crescimento adicional de 3 %, na média.

Qual a foi a escolha? Sufocar o país com carga tributária, manutenção por muito tempo de uma taxa de juros proibitiva, e uma política esquisita de desonerar o ingresso de capital externo para financiamento da dívida pública. Resultado desta equação: a dívida pública que era em torno de 600 bilhões simplesmente dobrou em quatro anos. E ainda mais: isto permitiu que o país somasse muito bilhões de dólares de ingresso de capital volátil ao montante oriundo das exportações. Em conseqüência, a moeda americana perdeu peso. Assim, abriu-se o flanco do mercado interno para o ingresso de importados em condições mais favoráveis do que os similares nacionais. E não fica por aí: para a manutenção deste quadro, combinação perversa de câmbio, juros, carga tributária somou-se a insegurança jurídica oriunda da politização de agências reguladoras. Resultado: passamos a exportamos mão obra, enfraquecimento de inúmeros setores e cadeias econômicas outrora tradicionais exportadoras que não apenas deixaram de vender lá fora, mas que para sustentar-se aqui dentro precisaram encolher, claro, desempregando milhares de pessoas. Passamos ainda a ser exportadores de investimentos, como se aqui dentro neste campo estivéssemos num paraíso !

E para tornar o quadro mais desolador diante dos “insumos” básicos usados no plano econômico, a renda média do trabalhador vem caindo, mesmo que lentamente, mas a queda tem sido preocupantemente contínua.

A última ponta indispensável para a tração de investimentos é a soma de educação de qualidade e maciça com infra-estrutura otimizada e moderna. E aqui o elo desta corrente diabólica se fecha com a remessa de volume de recursos imenso para o serviço. Para garantir esta remessa, o país se obriga a manter um superávit primário astronômico para frente à remessa de R$ 140,0 bilhões por ano para a comunidade financeira internacional. Tal volume – e não há mágica neste caso - sai justamente do total que o governo nos toma dos impostos que pagamos, reduzindo substancialmente a capacidade do governo para investimentos justamente nos serviços, na educação e na infra-estrutura, fechando assim o ciclo que nos mantém amarrados. Como os demais países emergentes, da Europa e Ásia, além do México, Peru, Costa Rica e Chile, aqui na América Latina, não ficam parados no tempo, a corrente “progressista” do governo Lula está provocando uma estagnação colossal ao país.

Mas os fundamentos macro-econômicos não estão no ponto certo? E a estabilidade econômica, o risco-país, nada disso é positivo ? É sim, mas ficar deitados nisto por quanto tempo mais? Basta lembrar que metade dos jovens em idade de trabalho, de 16 a 29 anos, não encontram emprego. E, circunscrito neste nó vocês encontram as razões de um quarto da população brasileira estar no Bolsa Família: são mais de 46,5 milhões de pessoas ganhando menos de R$ 120,00 por mês, para um salário já muito mínimo de R$ 380,00. Para quem aprecia mediocridade, o governo atual é um prato cheio, sem dúvida.