domingo, agosto 26, 2007

Processar a Abril não inocentará Renan...

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Bem o que se pode dizer de um camarada destes? Que se trata de um homem honrado, decente, íntegro ? Que é um cidadão que respeita o mandato parlamentar que lhe foi confiado ? Que no exercício deste mandato age com elevados princípios morais e em defesa da comunidade que o elegeu ? No caso do senhor Renan, estamos muito aquém disto tudo. Sua truculência é capaz de até de admitir sua culpabilidade, porém, a vingança de buscar represálias contra aqueles que o desmascararam vai além dos limites éticos e honrados do próprio mandato.

Diante de uma perícia feita pela Polícia Federal que lhe colocam no precipício, ao invés de dignamente afastar-se do cargo para permitir uma investigação isenta, de começo, partiu para as ameaças contra seus próprios parceiros de senado. Depois, iniciou um movimento contra a Abril Cultura, editora da Revista VEJA que desnudou sua face de hipocrisia e exibiu para todo o país o lobo que estava vestido de cordeirinho.

Renan, como já afirmei aqui repetidas vezes, pode casar-se quantas vezes entender, pode ter quantos filhos desejar dentro e fora do casamento, pode até ter uma vida desregrada tanto quanto sua astúcia lhe permitir. Ninguém terá nada com isso. São opções pessoais, de seu foro íntimo. Contudo, no momento em que usa um mandato parlamentar, pago e sustentado pela sociedade, toda e qualquer ação individual que se misturar à sua atividade pública, passa sim a ser do interesse coletivo. A partir do momento em que usou os serviços de um lobista de uma empreiteira que mantém e se interessa em manter contratos com o Estado, o senhor Renan pisou em falso e cometeu um ato fora do decoro que lhe é exigido.

Todas as tentativas de defender-se resultaram inúteis, ora porque contava versões diferentes e contraditórias para um mesmo conjunto de fatos, ora porque apresentava documentos cuja veracidade e exatidão não ficaram comprovados. Teve repetidas oportunidades para uma ampla defesa que resultou, como se viu até aqui, inúteis até ao ponto de colocar em risco tanto o cargo de presidente da casa do Senado Federal, quanto o próprio mandato parlamentar.

Agora, tenta salvar-se jogando no desespero, na truculência, na canalhice e na sordidez. Primeiro, tentando forçar que a votação do relatório final seja secreta, pois conta com o anonimato dos membros do Conselho de Ética para evadir-se dos crimes praticados. E, de outro lado, solta um pelotão de brucutus para colher assinaturas para a instalação de uma CPI contra a Editora Abril., tentando melar o contrato com a Telefonica e TVA, e de outro, retaliar a própria Editora Abril numa patética demonstração de força.

Mesmo que a negociação da TVA e Telefônica não atendesse a legislação brasileira a respeito, muito embora a ANATEL tenha dado parecer favorável à transação, em que esta CPI e a retaliação tornará o senador mais inocente ou menos culpado ? A obtusidade do senador, neste caso, chega a ser deprimente. É como se estivesse concordando com todas as acusações que foram imputadas e agora estivesse partindo para uma vendeta canalha.

Qualquer bom senso aqui não faria outra leitura. Sentindo-se ameaçado, quer forçar que alguém mais caia junto com ele.

Pois é, dignidade e caráter não é para qualquer um. O país desde a redemocratização já teve no poder o PMDB com José Sarney, depois Fernando Collor com o inexpressivo PRN, Itamar Franco que nunca sabe de que lado está, Fernando Henrique e o PSDB, e agora já dois mandatos consecutivos com Lula e o PT. Em todos estes governos, o senhor Renan fez parte da base aliada. Coerência política? Não, apenas jogo de interesses pessoais. Para ele não importa para que lado o vento sopra, sendo o poder, ele vai da direita para esquerda, passando pelo centro, com muito desenvoltura, feito um bailarino político, a desafiar seu equilíbrio mental com tanta dança na corda bamba desta orgia de conveniências pessoais.

É bom o senador saber que talvez ele até possa se safar do perigo que ronda a sua vida pública. Mas com certeza, sua vida moral estará irremediavelmente jogada na lama, no lixo, e isto a história registrará com muita tranqüilidade. Independentemente das ameaças, da truculência e do mau caráter. Se não tem como defender-se, pelo menos não aumentasse a lambança contra si.

E somente um estado policialesco é capaz de permitir uma ação de tão baixo teor. Somente um estado mancomunado com prática da violência, das arbitrariedades, o assalto aos mais elementares direitos de seus cidadãos, pode ainda sustentar alguém com tão baixa estatura moral. Somente outros anões do mesmo naipe são capazes de compor uma tropa de choque para agredir o estado de direito com tanta desenvoltura e desfaçatez. Somente um governo já tão solapado na sua condição moral, consegue manter-se aliado a figuras tão bizarras quanto ridículas e patéticas. Neste caso, fica comprovado o princípio de que os iguais se atraem.