sexta-feira, agosto 10, 2007

Atletas cubanos: uma história mal contada

Brasil devolve à ditadura cubanos aparentemente dispostos a afastar-se dela
William Waack, Portal G1

Não é preciso declarar que Cuba é uma ditadura – é justamente o fato de ser uma ditadura que atrai uma boa parte dos defensores do regime de Fidel Castro, especialmente no Brasil. Mas alguns detalhes sempre surpreendem: é o próprio ditador quem escala a equipe de boxe de Cuba, lembra-nos um artigo assinado por Fidel no diário Granma, e os boxeadores que fugiram e voltaram (as circunstâncias ainda não estão claras) para Cuba não mais farão parte do grupo.No Brasil, pouco antes da última Copa, Lula aproveitou uma videoconferência com o treinador da seleção brasileira para dar palpites sobre alguns jogadores – Parreira comportou-se de maneira fria, deixando claro que ele escalava o time, e não o chefe do nosso Estado, que é democrático e de direito. É uma boa tradição brasileira, aliás. Mesmo durante o pior da nossa ditadura militar, o técnico do time de futebol brasileiro resistiu à “sugestão” do General Garrastazu Médici quanto à escalação do comando do ataque.

A ditadura militar brasileira, sob esse aspecto, pode ser qualificada como muito mais suave do que a ditadura cubana – mas esse tipo de comparação não leva muito longe e, de qualquer maneira, pouco significado tem para quem sofreu sob o arbítrio, a tortura, a mentira e a opressão, as armas de qualquer ditador.

Por ser um país que viveu apenas uma geração atrás o fim de um regime de exceção, o Brasil devia ser mais cauteloso quando está em jogo devolver a uma ditadura cidadãos que pareciam dispostos a afastar-se dela, como foi o caso dos dois boxeadores cubanos que abandonaram sua delegação durante os jogos pan-americanos do Rio. Supondo que todos os ritos da lei tenham sido cumpridos, ainda assim o problema não se limita aos seus aspectos legais: é político.

Sobretudo em relação a uma ditadura como a cubana, um regime desprezível que pune pessoas por delito de opinião, o atual governo brasileiro teria de ser ainda mais cuidadoso. Um recente embaixador brasileiro em Havana justificou de maneira inaceitável a repressão e punição infligida pelo ditador a dissidentes. Em algumas recentes votações na ONU envolvendo a questão de Darfur a posição brasileira quanto ao respeito aos direitos humanos foi definida por diplomatas ocidentais como “dúbia” – ou seja, ficamos em cima do muro.

Vai mais uma comparação com o tempo da ditadura militar brasileira, que surpreendeu com algumas decisões (que fugiam ao alinhamento automático com a potência hemisférica, os Estados Unidos) de política externa que acabaram sendo conhecidas como “pragmatismo responsável”. Hoje é diferente. Darfur e o caso dos cubanos ameaçam deixar algumas medidas de política externa brasileiras qualificadas como pragmatismo irresponsável.