sexta-feira, agosto 10, 2007

O apagão mental em Mato Grosso

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Nem é preciso saber o que Lula disse. Basta a informação de que o presidente da República começou outro discurso de improviso para aquietar a alma sempre aflita dos editores de primeiras páginas. Todos sabem que o orador infatigável nunca falha: logo pousará na redação - a bordo de metáforas extravagantes, bravatas de botequim, bazófias insensatas ou rematadas maluquices - a manchete da próxima edição.

A expectativa adiciona o tempero da excitação quando a discurseira é antecedida por um almoço sem restrições inibidoras (Lula fica bem mais animado), ocorre em cidades calorentas (Lula fica ainda mais esquentado) e diante de platéias companheiras (Lula fica extraordinariamente inventivo se anabolizado por salvas de palmas). Como sabem os estudiosos da retórica lulista, seus melhores momentos sempre resultam da convergência desses três fatores.A eles somou-se, no dia 31 de julho, um quarto e poderoso elemento: a chance de encerrar o período de abstinência recomendado por circunstâncias adversas. A vaia no Maracanã aconselhara a suspensão de aparições públicas. A tragédia em Congonhas sugerira um prudente mergulho na mudez. Na viagem a Mato Grosso, o presidente louco por um microfone foi enfim liberado do silêncio obsequioso. E produziu o espantoso Improviso de Cuiabá.

"Minha amizade pessoal é uma coisa, questão partidária é outra, relação com os adversários é outra, mas tem gente que não pensa assim", avisou o intróito enigmático. Sem entender o que Lula pensava, a platéia tampouco descobriu quem é que não pensa assim. A perplexidade seria ampliada por ligeiras e audaciosas incursões pelo Brasil do século 20.

"Essa gente que não pensa assim levou Getúlio Vargas ao suicídio", começou. Oficialmente, todos os atores daquele dramático agosto de 1954 estão mortos. A denúncia formulada por Lula sugere que alguns resolveram virar fantasmas no Planalto, só para assombrar as noites do suposto herdeiro de Getúlio.

"Essa gente que não pensa assim fez a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que resultou no golpe de 1964", prosseguiu o grande improvisador. Alguns remanescentes dos idos de 1964 continuam mesmo por aí. Mas hoje trafegam pela contramão. Paulo Maluf e Severino Cavalcanti, por exemplo, marcham na aliança governista.

"Essa gente que não pensa assim ficou contente com os 23 anos de regime militar", recriminou o Improviso de Cuiabá. Pelas contas de Lula, portanto, todos os historiadores estão equivocados. O regime autoritário instaurado em 1964 não terminou em 1984, com o fim do governo do general João Figueiredo. Acabou só em 1987, quando o presidente da República era José Sarney. Hoje senador pelo PMDB, aliado e conselheiro de Lula, Sarney fingiu que não era com ele. Se vive de acordo com o novo amigo, não tem nada a ver com essa gente que não pensa assim.

Melhor para o país que o presidente tenha perdido o medo de avião e decolado de novo a bordo do Aerolula. Como atestou o besteirol na capital de Mato Grosso, o homem andava mesmo precisando de um descanso. Tomara que volte com a cabeça em ordem, recuperado da vaia no Maracanã e da descoberta de que não é Deus. O Brasil que pensa tem suportado estoicamente com o apagão aéreo. Não merece ser flagelado por um apagão mental do presidente.