"A morte política. De Renan ou do Senado"
"Eu sei que nesta quarta-feira, quando o plenário do Senado votar pela cassação ou não do senador Renan Calheiros, vai haver uma morte. A morte política do próprio Renan, ou a morte política do Senado".
A opinião é do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), para quem as pessoas com quem conversa pelas ruas no Rio de Janeiro pedem que se faça alguma coisa, porque o Brasil "está incomodado com a presença de Renan na presidência o Senado. É um corpo já sem vida política, que já há algum tempo está cheirando mal".
Deputado, como o senhor vê o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal dos 40 acusados nesse rocambolesco processo sobre quadrilhas e corrupção?
- Eu vejo a decisão do Supremo com muita alegria, porque ela abre uma janela de esperança no Brasil moderno. Abre a possibilidade de nós acabarmos com a tolerância com a corrupção e, considerando que grande parte dos clientes do STF são os políticos, nós podemos esperar uma continuidade dessa atitude, o que vai representar um avanço enorme. Não quer dizer que deixemos de trabalhar no sentido de evitar recaídas, mas o STF vai ajudar muito na luta contra a corrupção.
Como o senhor vê a questão do foro especial?
- Para mim isso é um absurdo. Sempre fui contra. Acho que só deveria haver foro especial no caso da expressão de idéias. No resto, não. É um absurdo que uma pessoa cometa um crime comum e vá responder no STF. E o que é pior, quando um deputado forma uma quadrilha, aqueles que se associam à quadrilha também ganham direito de serem julgados no STF. Então, temos que alterar esse quadro.
O senhor já militou no PT e conhece bem o partido. Como o senhor vê a reação do PT ao que aconteceu no Supremo?
- Vejo como a clássica reação da esquerda, de negar a realidade dos fatos. Quando Lula diz que ninguém sabe o que aconteceu, ele certamente estava abstraindo o Delúbio Soares, o Marcos Valério, o José Dirceu e outros. Porque algum deles sabe o que aconteceu. E quando ele diz que o PT está acima de todos os demais partidos na questão ética, no momento em que a cúpula do partido tinha sido julgada no STF, ele apenas quer dizer que o PT está acima da lei. Que eles não estão acima dos outros partidos na ética, mas que eles são os donos da ética.
Falando em ética, o senhor acha que Lula esteja urdindo, ou que passa pela cabeça dele um terceiro mandato?
- Até o momento, as indicações não são essas. São de que realmente ele não quer esse terceiro mandato. Mas, em relação ao Lula, eu não tenho mais nenhuma garantia sobre o comportamento dele ou sobre o que ele pensa. Ele tem sido muito surpreendente. Em frases e ações.
E esse negócio de Constituição específica para a reforma política?
- É uma proposta que surge no contexto da América Latina, onde já foi desenvolvida na Venezuela, mais recentemente na Bolívia e, possivelmente, também possa ser no Equador. Mas é um processo que, no meu entender, não é necessário no Brasil. Embora o argumento de que é muito difícil fazer uma reforma política com os políticos interessados atuando no processo seja um argumento correto, nós temos de achar um caminho de realizar a reforma sem precisar recorrer a uma Constituinte.
O senhor acha que a reforma política já era?
- Essa reforma política, que muitos queriam, de fato já era. Mas há caminhos para que possamos avançar no tema. Acho que a questão da fidelidade partidária, embora tenha sido votada na Câmara, é ilegal. Vamos ter de tomar as medidas para uma reforma política de forma fracionada. Não uma reforma acabada, mas medidas que vão melhorando progressivamente as condições políticas do país.
Voto distrital, o senhor acha que acontece?
- Existe um grupo que luta pelo voto distrital. E eu acho que é possível avançar também nisto. E creio que será necessário, porque se os homens que estão hoje no Senado, e não conseguem votar a cassação do Renan Calheiros, fossem deputados distritais em contato direto com seus eleitores, as coisas seriam diferentes.
Falando em Renan Calheiros, o senhor consegue prever um desfecho para a crise em que se envolveu o presidente do Senado?
- O que vai acontecer é que ele vai perder o cargo de presidente do Senado, vai perder o mandato de senador e, possivelmente, vai até para a cadeia. Eu acho que esse é o desfecho previsível, racional. Evidentemente que ele não percebeu isso, porque não consegue perceber que, realmente, o tempo dele já passou. Eu ando pelas ruas do Rio de Janeiro e as pessoas pedem até aos deputados que façam alguma coisa. Porque elas estão incomodadas, o Brasil está incomodado com a presença de Renan na presidência do Senado. É um corpo já sem vida política, que já há algum tempo está cheirando mal.
Mas ele tem amigos. Tem um feixe de acordos que o sustenta. E faz ameaças veladas. O senhor acha que tudo isso deixa de funcionar na hora da decisão?
- Eu acho que deve funcionar e eu até fico grato se funcionar. Porque revela um pouco a teia de cúmplices, porque não é que ele tem amigos. Tem cúmplices, pessoas com as quais ele partilha segredos. E esses segredos podem vir à tona. Muita gente se preocupa com a possibilidade de o Senado absolver Renan. Eu sei é que nesta quarta-feira, quando o plenário do Senado votar pela cassação ou não do senador Renan Calheiros, vai haver uma morte. A morte política do próprio Renan, ou a morte política do Senado. Eles vão ter de escolher. Pela minha experiência, toda vez que a cumplicidade e o instinto de sobrevivência entram em jogo, de um modo geral prevalece o instinto de sobrevivência.
O que teria ido fazer na casa do senador Renan Calheiros o ministro da Defesa, Nelson Jobim?
- Só pode ter ido nos afrontar, porque, na verdade, o ministro da Defesa deveria manter uma distância muito grande da corrupção. No entanto, foi levar solidariedade ao Renan Calheiros, ignorando todas essas acusações de corrupção que há contra o senador e contra os seus comparsas do PMDB. Eu acredito que o ministro, ao fazer o que fez, se afastou mais dos militares, do que ele talvez nem se importe. Mas se afastou muito mais da sociedade. Para um pré-candidato a presidente da República, foi um belíssimo suicídio.
Os militares responderam ao lançamento do livro 'Direito à verdade e à memória', sobre torturas e torturados durante a repressão. O senhor é favorável à manutenção da anistia ou acha que deveríamos reabrir aqueles casos que ainda não foram totalmente esclarecidos, produtos da repressão na época da ditadura militar?
- Sou favorável a todo tipo de avanço no conhecimento da História e a todo tipo de divulgação ou de pesquisa que possam nos fazer avançar democraticamente. No entanto, eu acho que o processo de anistia brasileiro foi um processo bem sucedido. Eu costumo comparar como nós somos avançados em relação, por exemplo, aos anos de chumbo na Itália, onde até hoje há problemas dramáticos. A Oriana Falacci, uma jornalista italiana falecida recentemente, fez alguma críticas ao processo brasileiro no princípio. E eu vejo hoje como ela estava equivocada. O processo brasileiro foi tão bem acabado, que algumas das chamadas vítimas daquele momento estão hoje no governo.
"Eu sei que nesta quarta-feira, quando o plenário do Senado votar pela cassação ou não do senador Renan Calheiros, vai haver uma morte. A morte política do próprio Renan, ou a morte política do Senado".
A opinião é do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), para quem as pessoas com quem conversa pelas ruas no Rio de Janeiro pedem que se faça alguma coisa, porque o Brasil "está incomodado com a presença de Renan na presidência o Senado. É um corpo já sem vida política, que já há algum tempo está cheirando mal".
Deputado, como o senhor vê o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal dos 40 acusados nesse rocambolesco processo sobre quadrilhas e corrupção?
- Eu vejo a decisão do Supremo com muita alegria, porque ela abre uma janela de esperança no Brasil moderno. Abre a possibilidade de nós acabarmos com a tolerância com a corrupção e, considerando que grande parte dos clientes do STF são os políticos, nós podemos esperar uma continuidade dessa atitude, o que vai representar um avanço enorme. Não quer dizer que deixemos de trabalhar no sentido de evitar recaídas, mas o STF vai ajudar muito na luta contra a corrupção.
Como o senhor vê a questão do foro especial?
- Para mim isso é um absurdo. Sempre fui contra. Acho que só deveria haver foro especial no caso da expressão de idéias. No resto, não. É um absurdo que uma pessoa cometa um crime comum e vá responder no STF. E o que é pior, quando um deputado forma uma quadrilha, aqueles que se associam à quadrilha também ganham direito de serem julgados no STF. Então, temos que alterar esse quadro.
O senhor já militou no PT e conhece bem o partido. Como o senhor vê a reação do PT ao que aconteceu no Supremo?
- Vejo como a clássica reação da esquerda, de negar a realidade dos fatos. Quando Lula diz que ninguém sabe o que aconteceu, ele certamente estava abstraindo o Delúbio Soares, o Marcos Valério, o José Dirceu e outros. Porque algum deles sabe o que aconteceu. E quando ele diz que o PT está acima de todos os demais partidos na questão ética, no momento em que a cúpula do partido tinha sido julgada no STF, ele apenas quer dizer que o PT está acima da lei. Que eles não estão acima dos outros partidos na ética, mas que eles são os donos da ética.
Falando em ética, o senhor acha que Lula esteja urdindo, ou que passa pela cabeça dele um terceiro mandato?
- Até o momento, as indicações não são essas. São de que realmente ele não quer esse terceiro mandato. Mas, em relação ao Lula, eu não tenho mais nenhuma garantia sobre o comportamento dele ou sobre o que ele pensa. Ele tem sido muito surpreendente. Em frases e ações.
E esse negócio de Constituição específica para a reforma política?
- É uma proposta que surge no contexto da América Latina, onde já foi desenvolvida na Venezuela, mais recentemente na Bolívia e, possivelmente, também possa ser no Equador. Mas é um processo que, no meu entender, não é necessário no Brasil. Embora o argumento de que é muito difícil fazer uma reforma política com os políticos interessados atuando no processo seja um argumento correto, nós temos de achar um caminho de realizar a reforma sem precisar recorrer a uma Constituinte.
O senhor acha que a reforma política já era?
- Essa reforma política, que muitos queriam, de fato já era. Mas há caminhos para que possamos avançar no tema. Acho que a questão da fidelidade partidária, embora tenha sido votada na Câmara, é ilegal. Vamos ter de tomar as medidas para uma reforma política de forma fracionada. Não uma reforma acabada, mas medidas que vão melhorando progressivamente as condições políticas do país.
Voto distrital, o senhor acha que acontece?
- Existe um grupo que luta pelo voto distrital. E eu acho que é possível avançar também nisto. E creio que será necessário, porque se os homens que estão hoje no Senado, e não conseguem votar a cassação do Renan Calheiros, fossem deputados distritais em contato direto com seus eleitores, as coisas seriam diferentes.
Falando em Renan Calheiros, o senhor consegue prever um desfecho para a crise em que se envolveu o presidente do Senado?
- O que vai acontecer é que ele vai perder o cargo de presidente do Senado, vai perder o mandato de senador e, possivelmente, vai até para a cadeia. Eu acho que esse é o desfecho previsível, racional. Evidentemente que ele não percebeu isso, porque não consegue perceber que, realmente, o tempo dele já passou. Eu ando pelas ruas do Rio de Janeiro e as pessoas pedem até aos deputados que façam alguma coisa. Porque elas estão incomodadas, o Brasil está incomodado com a presença de Renan na presidência do Senado. É um corpo já sem vida política, que já há algum tempo está cheirando mal.
Mas ele tem amigos. Tem um feixe de acordos que o sustenta. E faz ameaças veladas. O senhor acha que tudo isso deixa de funcionar na hora da decisão?
- Eu acho que deve funcionar e eu até fico grato se funcionar. Porque revela um pouco a teia de cúmplices, porque não é que ele tem amigos. Tem cúmplices, pessoas com as quais ele partilha segredos. E esses segredos podem vir à tona. Muita gente se preocupa com a possibilidade de o Senado absolver Renan. Eu sei é que nesta quarta-feira, quando o plenário do Senado votar pela cassação ou não do senador Renan Calheiros, vai haver uma morte. A morte política do próprio Renan, ou a morte política do Senado. Eles vão ter de escolher. Pela minha experiência, toda vez que a cumplicidade e o instinto de sobrevivência entram em jogo, de um modo geral prevalece o instinto de sobrevivência.
O que teria ido fazer na casa do senador Renan Calheiros o ministro da Defesa, Nelson Jobim?
- Só pode ter ido nos afrontar, porque, na verdade, o ministro da Defesa deveria manter uma distância muito grande da corrupção. No entanto, foi levar solidariedade ao Renan Calheiros, ignorando todas essas acusações de corrupção que há contra o senador e contra os seus comparsas do PMDB. Eu acredito que o ministro, ao fazer o que fez, se afastou mais dos militares, do que ele talvez nem se importe. Mas se afastou muito mais da sociedade. Para um pré-candidato a presidente da República, foi um belíssimo suicídio.
Os militares responderam ao lançamento do livro 'Direito à verdade e à memória', sobre torturas e torturados durante a repressão. O senhor é favorável à manutenção da anistia ou acha que deveríamos reabrir aqueles casos que ainda não foram totalmente esclarecidos, produtos da repressão na época da ditadura militar?
- Sou favorável a todo tipo de avanço no conhecimento da História e a todo tipo de divulgação ou de pesquisa que possam nos fazer avançar democraticamente. No entanto, eu acho que o processo de anistia brasileiro foi um processo bem sucedido. Eu costumo comparar como nós somos avançados em relação, por exemplo, aos anos de chumbo na Itália, onde até hoje há problemas dramáticos. A Oriana Falacci, uma jornalista italiana falecida recentemente, fez alguma críticas ao processo brasileiro no princípio. E eu vejo hoje como ela estava equivocada. O processo brasileiro foi tão bem acabado, que algumas das chamadas vítimas daquele momento estão hoje no governo.