quarta-feira, outubro 17, 2007

Brasil bate recorde de investimentos... no exterior

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Ainda na campanha de 2002, Lula foi taxativo ao prometer a geração de 10 milhões de empregos em quatro anos, apresentando como pérola preciosa o programa Primeiro Emprego.

Ora, emprego não se fabrica apenas por obra e graça da vontade. É necessária uma ampla gama de políticas coordenadas que permitam a atração de capitais produtivos, estes sim, capazes de gerar emprego e renda.

Como, invariavelmente, o que conta é o resultado, o governo Lula ficou pela metade. Só que até agora parece que ele não entendeu. A começar, porque não apenas manteve a mesma carga tributária recebida, como ainda tratou de aumenta-la. E na perversa combinação de carga tributária, juros altos, insegurança jurídica (de que já falamos aqui inúmeras vezes), excesso de burocracia, infra-estrutura deficiente, e ainda a política cambial praticada pelo seu governo ao longo de todo o primeiro mandato, acabaram gerando empregos, mas lá fora.

E por conta de toda a pantomima que ele não se envergonha de apresentar e cantar maravilhas, a situação atual é a seguinte: primeiro, os investimentos de empresas brasileiras no exterior já é maior do que os investimentos que recebemos aqui. Segundo, inúmeras cadeias produtivas que eram exportadoras históricas, deixaram de exportar, com muitas fechando suas portas, como ocorre por exemplo no ramo calçadista. Terceiro, estamos gerando mais empregos lá fora do que aqui dentro, até porque nossas importações estão crescendo duas vezes mais do que as exportações, cuja base continua sendo, primordialmente, commodities e minérios. Isto representa dizer que, apenas uma parcela pequena no país está sendo beneficiada pela atual política econômica adotada por Lula, a de que grandes empresários exportadores, e claro, a dos banqueiros.

Quando se falava de que era preciso crescer o bolo para depois dividi-lo com a população, Lula condenava veementemente. Agora, ele simplificou: ao invés de crescer o bolo, diminua-se. Assim, pelo conjunto da obra, vemos que não poderemos mesmo ter crescimentos nos níveis que assistimos dos demais emergentes, pelo menos internamente. E, considerando-se as oportunidades que a economia mundial nos tem oferecido nos últimos cinco anos, não há dúvidas de que, mais um vez, estamos na contramão da história. Claro, dentro da lógica petista, mas o presidente conta com “imensa” aprovação popular, apesar de que estamos ficando cada dia mais pobres. Em todos os sentidos.

Em contrapartida, se o investimento aqui é menor, já na remessa de lucros para o exterior o governo atual segue impávido e colosso quebrando recordes.

A remessa de lucros e dividendos de filiais brasileiras para as matrizes multinacionais nos quatro primeiros anos do governo Lula foi o triplo do registrado no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Entre 2003 e 2006, a cada US$ 10 que entraram no Brasil, US$ 6 foram enviados ao exterior como ganho às sedes.
.
Nos últimos quatro anos da gestão FHC foram remetidos US$ 2 para cada US$ 10 que entraram no país. Entre 1995 e 1998, no primeiro mandato de Fernando Henrique, foram remetidos US$ 2,5.
.
O ingresso de investimentos estrangeiros entre 2003 e 2006 somou US$ 62,1 bilhões, sendo que as remessas foram de US$ 37,8 bilhões, segundo o Banco Central do Brasil. O BC revisou em setembro das projeções para as contas externas para este ano e as previsões para 2008. A previsão de remessa de lucros e dividendos deste ano foi ampliada de US$ 15,7 bilhões para US$ 16,5 bilhões. Para o ano que vem, o BC aposta em saídas de US$ 16,8 bilhões.

Assim, logo, logo deixaremos de ser classificados como países emergentes. Vamos inaugurar a categoria de países submergentes, ou seja, aqueles que se abraçam ao atraso e, ao invés de andarem para frente, afundam na ideologia vagabunda do retrocesso “planejado”.

A notícia é da BBC Brasil.

Os investimentos diretos do Brasil no exterior alcançaram o recorde de US$ 28 bilhões em 2006 e superaram pela primeira vez o fluxo na via contrária, segundo um relatório da Unctad, o braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para o desenvolvimento econômico.

Na mão oposta, o volume de investimentos recebidos pelo país no ano passado foi de US$ 19 bilhões, o mesmo do México, de acordo com o relatório.

Os números, divulgados nesta terça-feira, refletem a chamada "internacionalização" das empresas brasileiras, sobretudo por meio da compra de concorrentes em países desenvolvidos.

A importância destas operações no total de investimentos brasileiros pulou de 13% do total em 2001 para 35% em 2005.

Um exemplo foi a compra da mineradora Inco pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) – uma operação que chegou a US$ 17 bilhões e configurou a maior já realizada por uma companhia de país emergente em um país desenvolvido.

"As companhias brasileiras começaram a investir no exterior após anos de exportações recordes. Em alguns casos, fornecedores brasileiros procuraram ficar mais perto de seus clientes, como na indústria automotiva: a Sabó agora tem fábricas na Europa, e a Marcopolo está produzindo na China", diz o relatório.

"A valorização da moeda, o real, favoreceu estas operações. O crescimento doméstico lento foi outro fator a motivar as decisões de alguns grupos de se expandir para o exterior."

O Brasil respondeu pelo maior volume de investimentos externos diretos (IED) realizados por um país latino-americano no ano passado.

Relatório da Unctad
O relatório desenhou um quadro dinâmico para o Brasil no que diz respeito aos investimentos externos diretos.

Mesmo distante da "época de ouro" do fim dos anos 1990, quando flutuava próximo dos US$ 30 bilhões, a entrada de investimentos no país – US$ 19 bilhões – foi a maior desde 2001, e cerca de 25% além dos US$ 15 bilhões recebidos em 2005.

Já os recursos que saíram em 2006 – US$ 28 bilhões – superaram 11 vezes o volume do ano anterior, e triplicaram o então recorde de US$ 9,8 bilhões registrado em 2004, ano da venda da cervejaria Ambev para a belga Interbrew.

"O investimento externo por firmas brasileiras é de certa forma parte de um processo de expansão e consolidação que também ocorre em casa. Companhias brasileiras estão procurando consolidar suas indústrias, como mineração e aço, comprando competidores estrangeiros para não perder mercado ou se tornarem alvo de compra elas mesmas", diz o relatório.

Segundo a Unctad, em 2006, os investimentos no mundo subiram 38% em relação a 2005, atingindo US$ 1,3 trilhão – recuperando-se da escassez que chegou ao seu ponto baixo em 2003 (naquele ano, os IED somaram US$ 560 bilhões).

Em 2006, os países desenvolvidos receberam US$ 857 bilhões em IED. Os países em desenvolvimento, US$ 380 bilhões. E os países em transição (comunistas e da ex-União Soviética), US$ 69 bilhões.

A expectativa da Unctad é de que, no próximo ano, os IED alcancem o seu recorde de US$ 1,4 trilhão registrado em 2004.