quarta-feira, outubro 17, 2007

Entre ditadores, a lógica canibal

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Se dividir com estados e municípios a CPMF se tornará permanente. Assim, é melhor que apenas o governo federal fique com o bolo todo, pelo menos provisoriamente. E qual o tempo do provisório? Enquanto durar o governo Lula.

Foi esta a lógica canibal que Lula apresentou hoje, durante visita ao Congo. Aliás, se ele não anda “bebendo” deve estar com algum problema que acaba afetando sua capacidade de discernimento.

Neste segundo dia de sua turnê pela África, ele afirmou que a República do Congo está "ensinando a construir uma democracia cada vez mais forte e na paz". A declaração foi dada no palácio presidencial do país africano, na capital Brazaville. Em seu discurso, Lula valorizou a democracia como valor necessário para o desenvolvimento das nações. "Para um país se desenvolver, precisamos exercer a democracia, aprender a conviver na diversidade e construindo a paz. Somente na paz os países africanos podem prosperar."
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Ao lado de Lula, estava o presidente congolês Denis Sassou-Nguesso, que chegou ao poder pela primeira vez em 1979, através de um golpe de Estado. Sassou-Nguesso só deixou o cargo após ser derrotado nas primeiras eleições multipartidárias do país, realizadas em 1992.

Ele voltaria ao poder em 1997, depois de uma sangrenta guerra civil, em que foi apoiado por tropas angolanas. Em março de 2002, Sassou-Nguesso foi vitorioso em novas eleições presidenciais. Contudo, dois de seus principais adversários - o ex-presidente Pascal Lissouba e o ex-primeiro-ministro Bernard Kolelas – foram impedidos de participar em decorrência de novas leis de residência no país. O terceiro concorrente, André Milongo, desistiu da candidatura dois dias antes do pleito por protesto contra supostas fraudes eleitorais. Lula não comentou as circunstâncias que levaram Denis Sassou-Nguesso ao poder.

Aliás, ontem mesmo, vossa excelência já precisou vestir uma saia justíssima. A notícia é do Estadão online:

UAGADUGU, Burkina Faso - Depois de defender mudanças na Organização Mundial do Comércio (OMC) e nas Nações Unidas para resolver os problemas econômicos e sociais da África, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve de passar pelo constrangimento de visitar, na manhã desta segunda-feira, 15, o suntuoso palácio do ditador de Burkina Faso, Blaise Campaoré no poder há exatos 20 anos.

O conjunto de prédios de granito e azulejos verdes, onde trabalha e vive o líder da antiga colônia francesa de Alto Volta, independente em 1960, destoa na paisagem árida e seca de Uagadugu, a capital de um dos países mais miseráveis do continente africano. Todo o conjunto é cercado por um extenso jardim verde, com pequenas árvores podadas, que recebe água de um complexo sistema de irrigação. As margens de um rio que passava em frente foram cimentadas, para ganhar novos contornos. Mas o rio está seco.

Dois cavalos de bronze em tamanho natural e um chafariz em forma de globo marcam a entrada do palácio. Duas centenas de soldados fazem ponto na guarita central. Pelos jardins, outras dezenas de militares fazem a vigilância do homem que chefiou um sangrento golpe de Estado em 1987, que resultou no assassinato do então presidente marxista Thomaz Sankara.

A parte administrativa do palácio fica num primeiro prédio, logo depois do chafariz. É preciso andar mais um quilômetro até chegar a uma segunda construção. Ali reside o presidente de Burkina Fasso, que recebe os visitantes com um clássico ray ban. Outros prédios estão sendo erguidos na área. Segundo os poucos representantes da oposição que ainda vivem no país, Campaore não sabe diferenciar bem público e bem privado. Desde o golpe, ele realizou e venceu três eleições, sendo acusado de fraudar todas elas.

Logo na entrada da luxuosa residência, onde na manhã de ontem Campaore ofereceu champanhe francês ao presidente Lula e a ministros brasileiros, um aparelho perfuma o ambiente. Jornalistas brasileiros puderam entrar na casa para acompanhar parte do encontro dos dois presidentes.

Grandes lustres de cristal iluminam a principal sala da casa. Conjuntos de micro lâmpadas, acima dos lustres, mudam de cores, alterando a luminosidade do espaço. Cerca de 50 poltronas e dezenas de cadeiras em madeira de lei estão à disposição dos moradores e dos visitantes do palácio. As portas e janelas da residência têm detalhes dourados. As cortinas são de seda.

Ostentação à parte, a residência certamente custou caro para um país que, segundo o próprio presidente Lula, conta com um orçamento que representa um décimo do orçamento da estatal brasileira Petrobrás. O país tem 13 milhões de pessoas, a maioria analfabeta. A comitiva de Lula também ficou impressionada com dois jaguares adultos empalhados usados para decorar o ambiente.

O sistema de ar-condicionado da residência atende todas as dezenas de quartos, salas e corredores. Foi na varanda coberta por tapetes vermelhos e decorada com flores naturais que Campaore e Lula fizeram uma declaração à imprensa e falaram da importância de melhorar as condições de vida na África.

É bem provável que Lula deva ter confidenciado ao “democrata” Blaise Campaoré que, no Brasil, também construímos palácios nababescos em flagrante contraste com a miséria e a pobreza do povo. Porém, arranjando-se umas bolsas -cala-te boca, dá ainda pra comemorar a “popularidade”...

Afinal, entre ditadores, a lógica canibal sempre acaba sendo o maior argumento...