terça-feira, novembro 24, 2009

O velho truque das manchetes tendenciosas

Adelson Elias Vasconcellos

Divulgou-se na pesquisa CNT/Sensus, e com manchetes de primeira página, um outro dado que, de tão tendencioso, chega a parecer brincadeira, mas não é. Trata-se de um truque, de uma tentativa de tentar influir na escolha do candidato da oposição. Se esta tentativa já não por si só, imoral, a manchete que se antecipa à notícia é vergonhosa. Mas vamos a ela. Retorno depois para comentar e desmitificar o truque.

Pesquisa: chapas com Aécio lideram na corrida presidencial
A pesquisa CNT/Sensus, divulgada nesta segunda-feira pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), avaliou o comportamento dos eleitores em função das chapas que poderão ser apresentadas para concorrer à Presidência da República em 2010. Nos três cenários pesquisados, as chapas que contaram com o nome do governador mineiro, Aécio Neves, saíram vitoriosas.

A maior margem de vitória seria com a chapa tendo José Serra como candidato a presidente e Aécio a vice. Neste cenário, a chapa tucana obteria 35,8% dos votos, contra 23,9% da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer; seguidos da chapa Ciro Gomes-Carlos Lupi (16,1%) e de Marina Silva-Guilherme Peirão Leal (5,2%).
 
Caso Aécio encabece a chapa tucana, com Serra de vice, o PSDB elegeria o novo presidente, com 31% das intenções de voto, seguido da chapa Dilma-Temer (22,6%); de Ciro Gomes-Carlos Lupi (18,1%); e de Marina Silva-Guilherme Leal (5,3%).
 
Aécio Neves também seria eleito presidente tendo Ciro Gomes como vice, com 32,4%. Neste cenário, a chapa Dilma-Temer teria 26,6%, e a de Marina Silva-Guilherme Leal 8,3%.
 
A pesquisa CNT/Sensus foi realizada entre os dias 16 e 20 de novembro em 136 municípios localizados em 24 estados. Ao todo foram entrevistadas 2 mil pessoas.
 
O presidente da CNT, Clésio Andrade, que já foi vice-governador de Aécio Neves, disse que apesar de seu vínculo político com Aécio, considera a pesquisa isenta.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Propositalmente, deixei para analisar, por último, o cenário em que a pesquisa revela as preferências do eleitorado quanto a prováveis composições das chapas, na forma como se desenham hoje, e não apenas os candidatos vistos isoladamente.

A manchete, aliás, é reveladora e constata na íntegra, aquilo que afirmei tanto no artigo anterior quanto aí em cima, na abertura: a de ser tendenciosa. Como vocês leram, ela diz assim: “Pesquisa: chapas com Aécio lideram na corrida presidencial”.

Ora, se algum menos avisado ler apenas a manchete, sem se deter no conteúdo da notícia, sairá por aí apregoando que Aécio é quem deve ser o candidato do PSDB à sucessão. Errado e ridículo. Com Aécio como cabeça de chapa, tendo Serra como vice, claro que a chapa das oposições ainda estaria à frente, mas a margem de vantagem já seria muito menor. Isoladamente, Aécio, sem se olhar quem será seu vice, perde a disputa. Este é o dado que interessa. Ele só será vencedor como candidato à presidência se compuser uma chapa com Serra.

Sob o ponto de vista do governador paulista, ele vence a disputa em todas as prováveis coligações que pode desenhar atualmente. E sempre com boa margem de vantagem.

Claro que os governistas adorariam que o candidato das oposições fosse Aécio, e sem José Serra junto do mineiro. Prá eles, tal idéia é o melhor dos mundos. E isto a pesquisa é bastante clara, quase indiscutível.

Está dito lá, reparem: A maior margem de vitória seria com a chapa tendo José Serra como candidato a presidente e Aécio a vice. Neste cenário, a chapa tucana obteria 35,8% dos votos, contra 23,9% da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer; seguidos da chapa Ciro Gomes-Carlos Lupi (16,1%) e de Marina Silva-Guilherme Peirão Leal (5,2%).

A pergunta que me faço e que fica é: terá o PSDB, em composição com o DEM, coragem de, a exemplo do erro cometido em 2005, com Alckmin, ir contra todas as evidências, e escolher um candidato que, isoladamente, tem menor chance de vencer, como as pesquisas estão indicando?

É simples, basta ver a pesquisa principal, leiam: No quadro onde José Serra é substituído pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves, o deputado Ciro Gomes sobe para primeiro lugar, com 25%, Dilma Rousseff também cresce para 21,3%, Aécio fica com 14,7% e Marina Silva cai para 7,3%.
 
Na disputa de segundo turno, a ministra Dilma Rousseff teve uma recuperação sobre José Serra no simulado de setembro para novembro. Serra caiu de 49,9% na rodada anterior para 46,8% em novembro e a ministra Dilma ganhou três pontos, de 25% para 28,2%.
 
A chefe da Casa Civil ganharia de Aécio Neves numa simulação do segundo turno com 36,6% contra 27,9% do mineiro. No cenário de José Serra e Ciro Gomes no segundo turno das eleições, o tucano venceria com 44,1% contra 27,2% de Ciro, mas ainda assim o governador de São Paulo teve uma queda de sete pontos percentuais.

Isoladamente, no primeiro turno, Aécio perde para Ciro Gomes (que Deus nos livre e guarde, arre!) e também para a ministra Dilma Roussef.  E, quando se compara uma possibilidade de segundo turno entre Aécio e Dilma, quem vence é a ministra. Ora, santo Deus, será que as oposições, de novo, vão apostar em quem, isoladamente, sequer chegaria num segundo turno, quando confrontadas todas as variáveis possíveis? E, que mesmo que chegasse lá, continuaria perdendo, fosse para Ciro ou para Dilma?

Não, não se pode aventar a compulsão dos oposicionistas para uma segunda derrota, e consecutiva, insistindo em adotar a estratégia da ... derrota.

Assim, e a pesquisa não deixa nenhuma margem para discussão, a chamada chapa puro sangue, e conforme já tínhamos analisado dias atrás, onde aparece Serra com Aécio como vice, é a aposta certa, além de abrir caminho para uma permanência no poder por longa data. Tal composição daria a Aécio a visibilidade nacional que hoje ele não tem, e que seria maior mesmo que o mineiro desistisse de compor com Serra para tentar o Senado.

Portanto, se as oposições deixarem de lado as questões pessoais, adotando uma posição de unidade em torno de um grande projeto de GOVERNO, e não de poder, com propostas que restaurem o fortalecimento das instituições democráticas, em que se desenhem programas, reformas e ações indispensáveis para remover as principais amarras que nos impedem de crescer de forma sustentável, com segurança e equilíbrio, com respeito às leis e às liberdades individuais, a permanência no poder por longa data como afirmei será mera conseqüência, sem ser porém, a essência do trabalho que farão.

É disto que se trata quando se apela para uma chapa puro-sangue. Talvez ate os dois já estejam combinados entre si neste sentido, e o jogo de cena que ambos praticam no momento, seja muito mais no sentido de despistarem, para não se tornarem desde já alvos da guerra suja que os petistas sempre fazem em campanhas políticas e que se torna mais cruel e mais suja mediante o uso indecoroso da máquina e dos recursos do Estado. Aliás, tática em pleno andamento e que só o TSE não enxerga, apesar de ser esta uma de suas funções.

Por fim, é de se esperar que os analistas políticos das oposições se debrucem com carinho nesta pesquisa do CNT/Sensus, analisem friamente os resultados, e passem, de fato, a se comportar como favoritos, adotando a estratégia adequada e que, de certa forma, e isto a pesquisa não deixa dúvida, parece ser a de atender o que a maior parte do povo brasileiro está esperando. Assim, desta vez ao menos, as oposições não contrariem a vontade popular. Mais do eles, o preço a pagar representará enorme prejuízo para o país como Estado-Nação e suas instituições. E, como última informação, olhando-se os índices de rejeição de candidatos e chapas prováveis, registre-se que o menor índice de rejeições junto ao eleitorado, traz Serra na cabeça com Aécio de vice. Portanto, que o PSDB saiba atender o que o povo brasileiro espera que ele faça. Afinal, o povo é que o dono do voto, ou o PSDB acha que não?

O recado, então, é este: que tucanos e democratas, pelo menos desta vez, tenham juízo. O Brasil, de norte a sul, lhes ficaria imensamente agradecido. Amém.