Adelson Elias Vasconcellos
Sei que talvez este artigo vai incomodar muita gente, gente graúda. Com muito, mas muito poder econômico. Isto poderá reverter em alguns dissabores. Contudo, como o que me importa é a minha consciência, independente do dissabor que tiver de enfrentar, o farei tranqüilo.
Duas reportagens, uma na revista Veja e outra na Folha de São Paulo, demonstram que o título deste artigo faz sentido. Muito sentido.
De fato, para a elite econômica brasileira, pouco importa se no país vigora a plenitude democrática.
Peguemos o tempo da ditadura militar. Examinem quais empreiteiras prestavam serviços aos generais presidentes, e vejam se não praticamente as mesmas que agora se alinham a um governo pretensamente democrático?
Não se iludam: para os donos do capital independe quem sejam os donos do poder, desde que possam ganhar a vida e fazer fortunas, em suas relações com qualquer que seja o poder instalado.
Na revista Veja, há uma longa e esclarecedora reportagem em que fica claro o quanto nossos empresários estão muito longe de se importarem qual regime político vigora no país. Para eles, o mais importante, o mais relevante, são como as relações entre suas empresas e o Poder Público lhes pode engordar os lucros. E, neste sentido, mais importante do que qualquer arranjo político e até muito além do que qualquer noção moral,legal e ética nas relações poder público / iniciativa privada, o importante é “abrir portas”. Leia-se este “abrir portas”´ como as portas do cofre do Tesouro Nacional.
Ao tempo da ditadura militar se construiu muita fortuna no Brasil, independentemente de quantos estivessem agonizando nos porões dos quartéis e das delegacias. O chorar e ranger de dentes dos torturados nunca comoveu a elite empresarial brasileira. Para eles o ruído dos níqueis sendo derramados em seus cofres é que importavam. O resto, bem, o resto são coisas pequenas. Afinal, para eles, pobre sempre chora por alguma coisa.
O que a reportagem deixa claro é que a elite empresarial está dissociada por completo com os nossos destinos. E isto é tão evidente que, desde 1996, a renda média da classe trabalhadora decresceu, em contrapartida com o crescimento da economia e dos muitos negócios que se abriram e se ampliaram.
Haverá empresários no país que pensam diferente Pode ser, mas são raros, raríssimos.
Se alguém se detiver em estudar em profundidade a história dos Estados Unidos notarão a simbiose existente entre empresários e o bem estar da nação. Por detrás das grandes universidades, cuja excelência acadêmica é reconhecida no mundo todo, estão as grandes empresas e os grandes financistas americanos. Na base de sustentação dos grandes museus, das grandes corporações médicas de altíssimo nível, nos investimentos em institutos de pesquisas em seus diferentes segmentos, lá você identifica não o poder público, nem tampouco os “incentivos fiscais” do Estado. É o capital privado que se faz presente, quase que integralmente.
Aqui, bem, você identifica um e outro grande empresário voltado ou devotado à causas humanitárias, ou de ensino. Mas são exceções. Mais identificados estão, em ações de pequeno porte filantrópico, empresários de nível médio.
Aqui, se o grande empresário não for favorecido por algum bônus partido do Poder Público, ele simplesmente ignora o próprio país. E isto não vem de agora, é secular.
Nesta primeira parte, conforme se verá abaixo,vamos republicar trechos da reportagem da revista Veja em relação ao tal filme sobre Lula, que nada mais é do que parte de um movimento organizado de culto à personalidade de um político vivo. Vivíssimo e que ainda está no poder. Nos Estados Unidos, cuja indústria cinematográfica sempre foi excelente em retratar fatos e personalidades de sua história, não se cometeu tal heresia nem quando Ronald Reagan, que antes de presidente fora ator em Hollywood. Por quê? Em primeiro lugar porque para os norte-americanos, a Presidência da República é uma instituição a ser preservada e respeitada, não pode ser tratada como coisa ordinária, vulgarizada ao relés do chão como estamos fazendo no Brasil. Em segundo lugar porque e apesar de serem o país no mundo que mais respeita a liberdade de imprensa e de expressão, com direito a derrubarem inclusive um presidente, Richard Nixon, o presidente não é imposto,lá está porque quis e sua função é estar a serviço da comunidade, e não colocar a sociedade sob seu jugo.
Isto me faz lembrar o jornalista Reinaldo Azevedo, quando responde qual a diferença,no Brasil, entre empresa pública e empresa privada. "A empresa pública existe para favorecer a empresa privada, e a empresa privada para favorecer a empresa pública". Perfeito.
Depois que sair, e se for o caso, então história serão contadas e, se interessantes, gerarão filmes, mas com o intuito de informar e entreter.
Mas vamos à reportagem da Veja. Ela começa descrevendo o protagonista principal do filme dizendo que “... Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista internacional e, por isso, tolerada”
Depois, a reportagem vai descrevendo alguns fatos com relação ao filme que prefiro que os leitores primeiro leiam, e depois comento o saldo que tais fatos trazem para o momento presente do pais.
(...) “Antes mesmo de ser lançado em rede comercial, o filme está agitando os bastidores da política. Assessores envolvidos na campanha presidencial de Dilma Rousseff, a candidata escolhida pelo governo para suceder Lula, veem na película um poderoso instrumento eleitoral, capaz de fazer diferença na luta petista para se manter no poder”...
(...) “O ministro Franklin Martins acredita que a mitificação precoce de Lula pode ajudar a campanha de Dilma Rousseff”(...)
(...) “Os bastidores do projeto revelam que essas opções não foram meramente artísticas. Houve estreita colaboração entre os produtores do filme e a equipe de Lula. Em 2003, logo após adquirir os direitos da biografia oficial do presidente, Luiz Carlos Barreto obteve o aval do presidente para tocar o longa. Políticos próximos a Lula afirmam, sob a condição de anonimato, que o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, teve influência decisiva na definição do esquema de captação de recursos. Antes da edição final, Barreto viajou para Brasília pelo menos duas vezes para exibir o filme a políticos próximos ao Planalto. A primeira sessão aconteceu há três meses. Participaram ministros, como Paulo Bernardo, do Planejamento, e Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, e deputados, como João Paulo Cunha e Ricardo Berzoini, da cúpula do PT. Os petistas, depois da exibição, acharam as músicas incidentais muito pouco dramáticas e sugeriram acrescentar músicas populares, que seriam mais facilmente assimiláveis – no que foram prontamente atendidos.”
“Para minimizar a aparência de uma obra chapa-branca, os produtores foram orientados a não aceitar dinheiro público nem incentivos fiscais. Sem muito esforço, captaram patrocínios de dezoito empresas (veja o quadro abaixo), num total de 12 milhões de reais, uma fortuna para os padrões cinematográficos nacionais. Entre as companhias doadoras, há as que têm negócios diretos com o governo, as que têm interesses no governo e as que são controladas por instituições ligadas ao governo... Ouvidas por VEJA, as empresas explicaram que esse tipo de doação faz parte da política de incentivos culturais que cada uma delas desenvolve. Nada a ver com o perfil do biografado. O diretor de uma empreiteira, no entanto, contou a VEJA, reservadamente, o que de fato os atraiu. Segundo ele, os produtores deixaram claro que se tratava de um filme oficial, de interesse e "autorizado" pelo presidente da República. As empresas desembolsaram quantias que variaram de 500 000 a 1 milhão de reais. "Que empresa não iria querer participar? Isso ajuda a abrir várias portas no futuro. Ou, pelo menos, a não fechá-las", admite o funcionário.”(...)
(...) “ A construção de um mito dentro de um regime democrático é coisa raríssima. Na política, o mito costuma surgir em estados ditatoriais, nos quais o exercício da crítica é proibido. Foi o caso de Stalin, na União Soviética, ou de Benito Mussolini, na Itália. Nesses países, assim como em Cuba de Fidel Castro ou na Alemanha de Hitler, a arte – e, em particular, o cinema – foi controlada pelo estado totalitário, numa tentativa de moldar o imaginário social em torno de um projeto de poder. O Brasil, claro, não se encaixa nessa categoria. Diz o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília: "No Brasil, a criação de um mito dentro de um regime democrático é uma situação inédita. Desde Getúlio Vargas não há um fascínio tão perigoso com um líder carismático".(...).
Estes são os trechos principais que destacamos e sobre os quais comentaremos no post seguinte.