Adelson Elias Vasconcellos
A título de brincadeira: lendo um comentário feito por um jornalista, ele dizia que a produção do filme procurou apresentar um Lula que não agride o idioma, para não ser obrigada a apresentar o filme, que é falado em português, com legendas...
Brincadeiras a parte, se vocês acompanharam os noticiários dos últimos dias, devem ter visto dois comportamentos diferentes: a oposição descendo a lenha não no filme que, como peça cinematográfica, dizem os especialistas ser até bem fraquinho. A ótica da oposição é de que se valeu do oficialismo, do aparato do Estado, e das relações empresas/governo (um tanto oblíquas, como vimos), para se produzir um peça de pura propaganda eleitoral. E, de outro lado,petistas tentando negar a evidência, mas reconhecendo a importância do filme para a campanha da Dilma (um contraste impressionante entre o que se diz e o que se pensa), com o Ricardo Berzoini, presidente do PT, chegando ao absurdo de afirmar que a oposição, ao invés de criticar, deveria fazer um filme do FHC.
Bem, ao Berzoini, um recado: nem todo mundo é tão sem escrúpulos, tão sem moral, tão sem decência,como sói os petistas conseguem ser !
Cretinices à parte, o que fica é que o Brasil segue ladeira abaixo. Só num país que perdeu o norte moral, o senso crítico de decência, se permite produzir algo parecido. Isto é resultado da asfixia de sentidos e de valores a que estamos sendo submetidos desde janeiro de 2003.
Nenhum país civilizado do mundo permite tal “arrojo” ou tamanha desfaçatez. Não que eu não aceita que a vida de Lula possa ser contada em filme. Acho que até deve. Sua tenacidade, sua obsessão em ser presidente, indo contra todas as dificuldades que para ele se apresentaram quando surgiu como sindicalista, no ABC paulista, ainda no tempo da ditadura militar, é sim para ser contada. Mas, permitir que isto seja feito ainda quando está na presidência da república? Convenhamos, chega a ser asqueroso e nojento. Até porque, com tantos interesses em jogo, quem o criticaria através de um filme, ou quem se negaria em financiar o filme?
Nem é tanto pelo fato de ser uma peça de propaganda eleitoral e, sim, de se permitir jogar a instituição que representa, e que portanto deveria acima de qualquer vaidade pessoal preservar e respeitar, na vala de uma instituição qualquer, acessível a qualquer um, bastando mentir e mistificar. A história de cada indivíduo, já se disse, é um momento único da história humana. Ela pode se repetir em um ou noutro evento, mas seu conjunto pertencerá sempre e apenas aquele indivíduo. A nenhum outro mais.
Mas a instituição da Presidência da República, não é uma cosa nostra, não é uma casa de amigos de um clube privê, não pode ser vista de forma tão ordinária e vulgar, tão apequenada, e de forma tão imprudente. É uma propriedade da nação brasileira, do país, é o status maior da nossa cidadania, da nossa soberania, guia maior da nossa democracia. Quem nela é investido, o é de forma provisória, e lá estará para servir ao seu país, com o melhor que puder contribuir. Sua condução se dá por força da confiança conquistada junto ao eleitorado, que lhe empresta a cadeira e faixa presidenciais, para através delas prestar um serviço missionário. E para que o faça da melhor maneira possível, lhe é pago um salário, lhe são cobertas todas as despesas e lhe é permitido contar com aparato de meios, de estrutura administrativa e de pessoal que custa caro à sociedade. Não compete ao ocupante ali chegar e privatizar a instituição em seu nome, ou reduzi-la a menor expressão da democracia representativa.
Alguém poderá achar que minha crítica é muito moralista. Não só é como deve ser, porque o de que mais sentimos falta no Brasil é justamente da atenção para com os valores e princípios morais. Ou o que se encontra por detrás da impunidade, da violência, da corrupção disseminada em todos os setores da vidfa pública nacional? Nunca a expressão "o exemplo vem de cima" foi tão loquaz, tão vívida e pertinente como no nosso caso.
Quanto ao tema central deste artigo, para ficar latente a afirmação de que, para a nossa elite econômica, democracia é o que menos importa, há outro exemplo muito bem apanhado pela Folha de São Paulo, sob o título, "Publicidade-exaltação" invade os comerciais de TV”.
Muitas destas empresas, ou mantém negócios no exterior, ou tem suas matrizes lá instaladas. Pois bem, entrando no ritmo do ufanismo bocó, em tempos de histeria coletiva tanto quanto ao bom momento econômico quanto ao seu governante maior, novas peças publicitárias de empresas públicas e privadas usam o governo Lula como garoto-propaganda e falam até em "momento de ouro". Através da propaganda se enaltece a firmeza do país na crise e a capacidade de superação dos brasileiros. Que empresas públicas pratiquem esta política, apesar de moralmente condenável, ainda assim se entende. Mas empresas privadas pretendem o que com tal expediente? Mais favores do governo, é isto? Alguma desoneração amigável para sua atividade, ou a autorização camarada do BNDES para ampliação de seus negócios?
Qualquer pessoa de mediana formação moral entenderá que tal prática é abominável em um país sério. Esta gente toda está esquecendo de que o Brasil não nasceu tampouco foi descoberto em 2003. Chegamos até aqui, e vivemos este momento favorável, porque nossa história comporta mais de 500 anos, história com erros e acertos, mas, especialmente, porque no período de 1995-2002, o país soube plantar as verdadeiras raízes de seu modernismo e, só não se avançou mais e em maior velocidade, porque, apesar da continuidade imprimida por Lula em relação ao governo FHC, ele deixou de implementar outras tantas reformas de que precisamos para avançar muito mais.
Ou será que esta gente está feliz em pagar imposto antecipado em mais de 35,0% sobre o que produz? Ou será que estão satisfeitos com a infra-estrutura que encarece em três vezes os custos de produção? Ou será que estarão alegres por serem asfixiados por uma burocracia governamental imbecil que atrasa a realização dos negócios? Ou será que também estão felizes por ainda pagarem os juros mais altos do planeta? Ou ainda estarão contentes por uma bala perdida, dentre as tantas que flagelam as pessoas do país, não ter alcançado a si, ou a algum ente querido?
Portanto, nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Vamos comemorar sim, aquilo que temos de bom, vamos nos felicitar por vivermos este momento feliz do ponto de vista da economia. Mas não vamos cegar nossos olhos e achar que está tudo uma maravilha, porque a verdade é que não está. Longe disso. Há muito para ser feito, e mesmo olhando por dentro das realizações do governo Lula, há muitos perigos no ar que não devem ser ignorados. Uma delas, é a instabilidade institucional e a precariedade dos serviços básicos e da infra-estrutura. Mais: não se pode comemorar os bons ventos do consumo olhando-se apenas pelo lado do crédito farto. Isto é falso e de pouca duração. Há que se cuidar da expansão da massa salarial, verdadeira distribuição de renda, e da qual estamos luzes de distancia do que seria razoável.
Como, também, o próprio equilíbrio fiscal, com a expansão contínua e crescente dos gastos correntes sem limites, podem comprometer ali adiante nossa estabilidade econômica. Além disto, há um avanço gradual do governo como agente econômico ativo, o que sempre foi danoso para o desenvolvimento do Brasil. A história está cheia de exemplos a nos lembrar de que não podemos cometer novamente o mesmo erro que nos atormentou e nos deixou estagnados durante 25 anos.
Nosso IDH-Índice de Desenvolvimento Humano figura entre os mais baixos do mundo, nossa qualidade de ensino é um freio para o desenvolvimento sustentável do país. Nossa renda per capita é uma das mais baixas do planeta.
Assim, um pouco de cautela neste ufanismo todo não nos faria mal algum e pela simples razão de que podemos achar que nada mais precisa ser feito no plano das reformas. Nada mais falso e traiçoeiro.
A seguir, o texto da reportagem da Folha de São Paulo que, antes de ser motivo de comemoração, se refletido, seria um belo texto a nos advertir para o excesso do tipo “já ganhou”.
Empresas aproveitam a popularidade do presidente Lula e o momento econômico favorável para fazer do governo seu garoto-propaganda.
Ambev, GM, Bradesco, Vale e Embratel produziram comerciais de televisão recentes enaltecendo a firmeza do país na crise, a capacidade de superação dos brasileiros, a harmonia entre o público e o privado e a relevância do país no mundo.
O Brasil é o país "da iniciativa privada em equilíbrio com o setor público", diz a campanha televisiva "Presença", do Bradesco, segundo maior banco privado brasileiro.
"Há dez anos, quem poderia imaginar a gente emprestando dinheiro para o FMI?", lembra o anúncio televisivo do carro Aprile, da Chevrolet/GM.
"A crise foi passageira", avisa comercial da maior siderúrgica do mundo, a Vale.
"O Brasil vive um momento de ouro", exalta o comercial da Brahma, marca da Ambev.
Para as empresas e publicitários envolvidos nos comerciais acima, trata-se de uma estratégia legítima, lógica e antiga.
De fato, não é a primeira vez que o setor privado exibe o otimismo do momento em campanhas publicitárias.
Do milagre econômico da ditadura -quando a Volkswagen exibiu um fusca desbravando o país da rodovia Transamazônica- às tentativas de estabilização da economia, várias campanhas seguiram essa linha.
Retornando:
Claro que se o propósito fosse editar um compêndio de exemplos (maus exemplos) para caracterizar a elite econômica como desinteressada do regime político do país, os exemplos deste artigo caberiam e bem. Mas, além destes, acreditem, há milhares deles.
Mas o comportamento de um bom números de empresas tanto em relação ao filme quanto às peças publicitárias, é demonstrativo de que, apesar da miséria estar esparramada de norte a sul, apesar da violência urbana, rural, e até do trânsito, apesar de todas as mazelas econômicas e conjunturais que flagelam pequenos e médios empresários, apesar da corrupção sem fim e da desmoralização crescente da classe política, apesar da impunidade que se mantém resistente quando se trata de agentes públicos da base governista, apesar de se saber que os ventos favoráveis que sopram na economia brasileira não tiveram origem neste governo, e sim no anterior, apesar da instabilidade institucional e dos programas que fragmentam etnicamente o povo e sedimentam um racialismo que nunca tivemos, ainda assim, apesar de todos estes flagelos, tem gente que acha motivos para comemorar. Gente que, sem dúvida, em seus negócios com o governo federal, está sendo muito favorecida. Gente que alimenta esperanças de haver continuísmo deste cenário. Resta saber a que preço ?