Ralph J. Hofmann, Opinião Livre
Nestes últimos nove ou dez anos em que passei a escrever artigos sobre os males e ameaças que o Brasil e o mundo enfrentam noto que um dos assuntos recorrentes é a motivação das pessoas que vejo como vilões.
Nos meus últimos anos do ensino médio e na vida universitária eu os via como idealistas que estavam errados, mas seriam idealistas.
Fui criado por pais que haviam abraçado credos socialistas nas décadas de 20 e de 30, mas que viram a traição dos próprios socialistas e comunistas alemães entregues à sua sorte quando do pacto entre os nazistas e a União Soviética. Rapidamente souberam reavaliar o mito da realidade. Em 1939 já não acreditavam mais nas benesses vindas da Rússia.
Só fui saber do namoro que tiveram com as esquerdas quando eu já era um estudante universitário. Na minha casa falávamos, isto sim, das muitas traições dos comunistas. Pela nossa casa em Caxias do Sul desfilavam poloneses sobreviventes do Levante de Varsóvia, que lutaram contra os alemães enquanto o exército russo se detinha para os alemães terem tempo de matar todas as lideranças não-comunistas, assim finalizando a obra começada com o massacre de Katyn quatro anos antes.
Havia húngaros que haviam conseguido fugir antes do completo controle de seu país pelo exército vermelho. Havia Iugoslavos. E havia tchecos rememorando o triste fim de Edouard Benes e Jan Masaryk.
Muito cedo vim a entender a natureza selvagem dos comunistas. Em 1956 ficámos grudados ao radio de ondas curtas acompanhando o levante em Budapest. Em 1968 a Primavera de Praga despertou minha atenção mais do que as estripulias de pós-adolescentes mimados em Paris.
Pouco mudou nos anos seguintes. Lembro ainda que a poucos anos da queda do Muro de Berlim, causada pela absoluta incompetência dos regimes comunistas em gerar paz e prosperidade, houve atuações de natureza ríspida a violenta contra o emergente movimento Solidaridade na Polônia.
Um exame da condição de vida nos antigos países do Bloco Soviético mostrará a incomparável melhoria das condições de vida, liberdade e direitos civis na maioria dos mesmos após o fim da era em que seus governantes se submetiam aos ditames de Moscou e de caudilhos vitalícios como Ceaucescu.
Não entrarei sequer nos (de) méritos de Cuba, assunto já manjado entre nós, mas cabe lembrá-los quando os idealistas brasileiros das décadas de sessenta e setenta, no controle do país, demonstram ser hoje adolescentes em corpos de sessenta e mais anos.
Em 1966 víamos os jovens esquerdistas de 18 ou 20 anos (e nós também estávamos com esta idade) como sujeitos inteligentes, idealistas mas errados. Respeitávamos seus princípios e sua disposição para o sacrifício, apesar de que em muitos casos se dirigiam às reuniões do partidão nos carros mais luxuosos da época.
Suas mesas de boteco não raro eram fartas fora das posses de nós outros filhos da classe média em geral. Aliás, esta fartura até explicava em parte o tempo que podiam dedicar às suas atividades políticas.
Não tinham prazo para terminar a faculdade e começar a trabalhar. (Aqui cabem meus respeitos a outros, como José Serra, que não haviam nascido em circunstâncias tão favoráveis.).
Quando os exilados começaram a retornar á estavam com 38 a 40 anos de idade. Haviam vivido em países totalitários, haviam teoricamente testemunhado uma casta, a Nomenklatura, vivendo bem e o povo vivendo com medo e com poucas perspectivas.
Outros haviam vivido nas mais brilhantes democracias do mundo, França, Suécia, Estados Unidos, Inglaterra, Holanda. Lugares em que o povo gozava de prosperidade e de atividades de lazer inigualáveis na Cortina de Ferro.
Poderíamos esperar que tivessem feito anotações, chegado a conclusões sobre a capacidade quanto aos resultados que poderiam ser alcançados através dos diferentes regimes.
Ainda mais para um país com o potencial econômico do Brasil. E de fato, é digo de respeito o fato de que as bases de uma estabilidade econômica no Brasil foram lançadas por um ex-exilado, Fernando Henrique Cardoso, que conseguiu fazer o que a velha casta política, cujo epítome é representado por José Sarney e Fernando Collor, nunca tentou fazer com seriedade.
Contudo os oito anos do regime do PT nos demonstraram que a maioria dos líderes da esquerda dos anos sessenta e setenta apenas aprenderam a comportar-se como o jovem que decide que um dia vai ter um automóvel Mercedes Benz ou uma BMW.
Ou seja, vendo a Nomenklatura dos países onde passaram algum tempo sua ambição se resumiu em ter o tipo de poder desregrado, incontrolado dos seus antigos anfitriões.
Então podemos concluir que os brilhantes jovens, tidos como os mais inteligentes de suas décadas, que na maioria estiveram ausentes das lutas para construir a economia do Brasil, não tiveram a capacidade de amadurecer.
E infelizmente não há muitos de nós, contemporâneos deles que tenhamos um palco para ser ouvidos quando dizemos que conquanto aparentemente sejam adultos eles demonstram não ter maturidade sequer para serem portadores de carteiras de motorista.