Marcelle Ribeiro e Tatiana Farah, O Globo
O PT pediu ontem que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) investigue quem encomendou a impressão de panfletos apócrifos com texto que recomenda o voto em candidatos contrários à descriminação do aborto e com críticas à posição do partido sobre o tema. Sábado, a Polícia Federal apreendeu um milhão de panfletos na Editora Gráfica Pana Ltda, na capital paulista, após o TSE conceder pedido de liminar ao partido.
Uma das sócias da gráfica é Arlety Satiko Kobayashi, filiada desde 1991 ao PSDB e irmã de Sérgio Kobayashi, coordenador de infraestrutura da campanha do candidato tucano à Presidência, José Serra.
- Temos denunciado toda uma central de calúnias nos subterrâneos da campanha. Até DVDs e CDs têm sido distribuídos. Pedimos a instauração de dois inquéritos, disse o deputado federal José Eduardo Cardozo (PT), um dos coordenadores da campanha da petista Dilma Rousseff.
Um desses inquéritos pede a apuração da impressão e distribuição dos panfletos; o outro solicita a investigação de denúncia publicada nos jornais "Correio Braziliense" e "Estado de Minas", de que estaria sendo feita uma campanha de telemarketing, focada em eleitores de Marina Silva (PV), com denúncias e calúnias contra o PT e Dilma.
- Há indícios veementes de que esses panfletos podem ter sido produzidos pelos adversários. A central de boatos parece que agora aponta para quem é o autor, disse Cardozo:
- Os panfletos não têm as formalidades exigidas pela legislação. É algo que nos parece ilegal. Quem tem recursos para pagar uma campanha cara como essa?
Segundo Paulo Ogawa, marido de Arlety e responsável pela gráfica Pana, a encomenda dos panfletos foi feita por Kelmon Luis de Souza, que se apresentou como representante do bispo de Guarulhos, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini. Ogawa disse que essa foi a segunda encomenda feita pela diocese.
Em nota à imprensa, os bispos da Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) disseram que "não indicam nem vetam candidatos ou partidos e respeitam a decisão livre e autônoma de cada eleitor".
Afirmaram ainda que não patrocinam a "impressão e a difusão de folhetos a favor ou contra candidatos".
O bispo de Guarulhos não retornou as ligações feitas pelo GLOBO.
Ogawa disse ter falado por telefone com Dom Luiz Gonzaga ontem, e este teria afirmado que a encomenda, no valor de R$ 30 mil, vai ser paga, mesmo após a apreensão:
- Afirmaram que vão pagar. Falei com o bispo, e ele pediu desculpas pelo transtorno da apreensão. Depois, passou a palavra ao assessor dele, João Carlos, que disse que o advogado da diocese estaria à disposição da gráfica, - disse Ogawa.
Ogawa negou ter qualquer ligação partidária e disse que, apesar de sua esposa ser filiada ao PSDB, ela nunca foi militante. Arlety, segundo Ogawa, está há uma semana nos Estados Unidos.
O líder da bancada petista na Assembleia Legislativa, Antonio Mentor, disse que Ogawa trabalhara no Ministério da Saúde. Mas Ogawa disse que nunca teve nenhum cargo público.
A campanha de José Serra informou, por meio de sua assessoria, que, na ânsia de querer obter provas contra o candidato tucano, os petistas se referiram a um homônimo de Paulo Ogawa.