terça-feira, outubro 19, 2010

Sobre as ideias econômicas atuais de Dilma Rousseff: conversão genuína ou o santo nome em vão ?

Bolívar Lamounier, Portal Exame

O momento pitoresco do debate de ontem ficou por conta da candidata governista. Foi quando Dilma Rousseff pediu direito de resposta por ter Serra supostamente afirmado que ela seria a favor da inflação.

A comissão incumbida de examinar tais recursos prontamente negou-lhe o direito de resposta, deixando claro que nada vira de ofensivo na fala de Serra.

Mas em si, fora do contexto do debate, a questão não deixa de ser interessante. Permitam-me aqui uma digressão, a título de background.

Partidos soi-disant de esquerda não perdem noites de sono por causa da instabilidade de preços. Ao contrário, entendem que a estabilidade é uma preocupação monetarista, reacionária etc etc.

Aventuro-me até a dizer que a opção deles - obviamente não explicitada – é em geral contra a estabilidade, no pressuposto de que a inflação cria condições favoráveis à ”mobilização das massas”.

A garfada nos salários intrínseca a todo processo inflacionário não passa de um detalhe … Do ponto de vista partidário, quanto pior, melhor.

Num ambiente econômico estável, os assalariados facilmente se entregam a ambições pequeno-burguesas como a de fazer carreira, proporcionar bons estudos aos filhos e adquirir casa própria ; alguns chegam ao disparate de quererem se estabelecer como pequenos empresários.

Não estou atribuindo tudo isso ao PT, mas, na questão específica da estabilização, ele mesmo fez questão de evidenciar sua posição . Ao Plano Real, lançado durante o governo Itamar Franco, ele deu cerrado combate .

Oficialmente, os petistas vaticinavam o fracasso e denunciavam o sentido “anti-popular” da iniciativa conduzida pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, e como em outros momentos importantes dos últimos 30 anos, eles se posicionaram para auferir dividendos políticos e não para compartilhar responsabilidades.

Considerando que Dilma Rousseff se ‘educou’ politicamente em ambientes de extrema-esquerda, pode-se conjecturar que o seu pitoresco pedido de resposta tenha decorrido de algum incômodo epidérmico com o tema da inflação. Mas esta hipótese é simplista. Veja-se o caso do deputado Michel Temer, que de esquerda não tem nada : pois ele não declarou algum tempo atrás que “uma inflaçãozinha não faz mal a ninguém” ?

O que importa é portanto o pensamento econômico de Dilma Rousseff em sua condição atual de candidata à presidência.

No dia 9 de maio deste ano, o economista Rogério Werneck publicou no Estadão este interessante relato :

“Na semana passada, a candidata foi cuidadosamente preparada para deixar boa impressão junto a investidores em Nova York. [No] evento de que participou, (…) evitando qualquer referência ao ministro Guido Mantega, [a candidata] ressaltou a importância que sempre atribuiu à condução prudente da política fiscal.

“Externou ainda seu reconhecimento ao excelente trabalho que vem sendo prestado ao País por Henrique Meirelles. E sublinhou seu inarredável compromisso com metas de inflação cadentes e a manutenção da autonomia operacional do Banco Central (BC)”.

“Quem quer que tenha acompanhado as posições defendidas por Dilma Rousseff ao longo dos últimos cinco anos deve ter ficado boquiaberto diante do recém-estreado discurso da candidata.

“Há uma mudança impressionante, por exemplo, em relação ao que se viu no final de 2005, quando a já então ministra-chefe da Casa Civil [...], permitiu-se declarar que melhor seria ter inflação de 15% ao ano e recursos mais fartos para investimento”.

“Há também contraste gritante com a forma aguerrida com que, também em 2005, a ex-ministra comandou o torpedeamento da proposta de contenção da expansão de gastos correntes feita pelo então ministro Antonio Palocci.

“Ou ainda com suas declarações do final de 2007, quando afirmou que qualquer esforço de contenção de gastos seria deixado para o próximo mandato presidencial, que “o popular choque de gestão não leva(va) a nada” e que o grande mérito do PAC era ter feito o País romper com a tradição de contenção fiscal”.

Como se vê, o relato de Rogério Werneck é altamente esclarecedor. Que a ex-ministra, antes de desembarcar em Nova York, se converteu a teses econômicas que antes não apoiava, não cabe pois qualquer dúvida.

E oxalá sua conversão tenha sido genuína, pois assim, no caso de ela ser eleita, o país estará em tese protegido contra o risco de um monumental retrocesso. Estará a salvo da instabilidade que o assolou durante três décadas, até o Plano Real.

Durante os anos 80 e começo dos 90, como é arqui-sabido, a economia brasileira esteva à beira da desorganização total. Os chamados planos “heterodoxos” (Cruzado, Bresser, Collor e outros) conseguiam frear a inflação por um curto período, mas ela recrudescia poucos meses depois.

Enquanto não se livrasse desse problema, o Brasil não teria como retomar o crescimento, não receberia investimentos como recebe hoje, e muito menos teria como encetar programas consistentes no sentido de reduzir a desigualdade e a pobreza.

Esta é a verdade elementar que certas pessoas, por ignorância ou má-fé, se recusam a reconhecer.