sexta-feira, novembro 12, 2010

Dúvidas do Panamericano

José Paulo Kupfer, Estadão.com

A intervenção (branca) no Banco Panamericano projetou, como seria natural e sempre ocorre nesses episódios, uma sombra sobre o sistema bancário, sobretudo os bancos médios e pequenos. Mas até onde se pode apurar, o ocorrido com o banco do grupo Silvio Santos e, desde o ano passado, da Caixa Econômica Federal (CEF), detentora de metade do capital, não parece fazer parte de algum problema generalizado.

Na atual estrutura do setor bancário brasileiro, com a forte concentração em meia dúzia de bancões, restou espaço para umas tantas instituições com atuação em segmentos mais específicos e para um conjunto de financeiras com o nome fantasia de bancos. Há vários, entre eles o Panamericano, neste último grupo.

Daí a compreensível dúvida se os problemas que levaram à quebra do Panamericano não teriam algo de sistêmico em relação ao crédito – e, principalmente, o crédito pessoal, inclusive o consignado, e o crédito direto para a aquisição parcelada de bens. Ainda mais que, neste segmento, observam-se movimentações, envolvendo compras e vendas de instituições.

Quanto à situação do conjunto de instituições pequenas e médias, no entanto, as melhores informações disponíveis são tranqüilizadoras. Análises recentes não apontam sinais de preocupação com o segmento. Do ponto de vista macro, os índices de inadimplência mantêm-se estáveis e em níveis considerados baixos, ao mesmo tempo em que a massa de salários continua em crescimento, numa perspectiva de expansão da economia, ainda que em ritmo menos acelerado.

Uma investigação retrospectiva no mercado de certificado de depósitos bancários (CDBs) de bancos médios e pequenos, realizada nesta quarta-feira, não encontrou alterações significativas nos rendimentos oferecidos. Sinal de que as instituições não estão “correndo” a praça para conseguir recursos urgentes para cobrir rombos.

O que ainda não está claro são, basicamente, dois pontos: 1) as reais motivações para a fraude de R$ 2,5 bilhões; 2) como tantas instituições demoram tanto para pegar a fraude.

É difícil acreditar que o golpe contábil tenha sido aplicado apenas para engordar bônus de executivos – a primeira explicação divulgada. Já se sabe que a manipulação se dava com a apropriação, na contabilidade do Panamericano, de rendimentos de carteiras (ou parte de carteiras) já vendidas para outras instituições. Mas, como diz um experiente operador de mercado, essa explicação não é suficiente para entender “a lógica do mal”. Seria muito esforço e muito risco para objetivo tão simplório.

Outra dúvida diz respeito à atuação do Banco Central, da CEF, da Deloitte, responsável pela auditoria do Panamericano, e da KPMG, auditora contratada pela CEF para analisar a situação contábil do Panamericano à época da aquisição pela instituição estatal.

A demora em deflagrar a intervenção pode ter a ver com o calendário eleitoral. Mas, a pergunta que não quer calar e talvez devesse estimular uma análise de como anda operando a fiscalização – pública e privada – no sistema financeiro é mais óbvia: visto que o volume fraudado não poderia ser acumulado a não ser em anos de práticas, digamos, exóticas, como BC, CEF e auditorias deixaram passar entre as pernas golpe tão rudimentar?