Renata Malkes, O Globo
Casa de família cristã no Iraque
Foto: / AFP
A força de uma tradição de dois milênios de existência no Oriente Médio não foi o bastante para manter vivas centenas de comunidades cristãs na região que é o berço das três religiões monoteístas.
Se no início do século XX as estimativas apontavam os cristãos como 20% da população da área, predominantemente islâmica, essa porcentagem caiu hoje para menos de 10%, segundo a ONG "World Christian Database".
Fatores como a emigração em busca de melhores oportunidades, baixas taxas de natalidade, discriminação e conflitos sectários vêm contribuindo cada vez mais para transformar esses fiéis numa minoria acuada e ameaçada em seus países de origem: os que decidem ficar, temendo por sua segurança, preferem não denunciar - ou mesmo minimizar - a realidade na qual vivem.
Em meio ao fenômeno regional da evasão em busca de melhores empregos para uma população tradicionalmente bastante qualificada, a crise no Iraque pós-Saddam Hussein chama a atenção.
Principalmente pelos números: nada menos que metade da população cristã de cerca de 800 mil pessoas escapou do país após a queda do regime e a eclosão da guerra civil - totalizando, segundo estimativas, cerca de 20% dos refugiados iraquianos no exterior.
Além disso, as tensões sectárias produzidas pela politização do Islã - então sob controle estrito da ditadura de Saddam, ele mesmo representante de uma minoria, a sunita - tornaram cada vez mais frequentes ataques e desconfianças entre comunidades que até então conviviam pacificamente.
Militantes de grupos sunitas radicais como a al-Qaeda justificam sua cruzada anticristã: no campo religioso, os sunitas veem cristãos e xiitas como infiéis. Politicamente, questionam a lealdade dos cristãos iraquianos à terra natal, levantando sobre eles suspeitas de apoiarem países cristãos no Ocidente - como os Estados Unidos.
