sexta-feira, novembro 12, 2010

Perdendo oportunidades...

Adelson Elias Vasconcellos

Já demonstramos aqui, e por várias vezes, que a tal guerra cambial no que toca ao Brasil, está provocando estragos por culpa nossa mesmo. O chorar e ranger de dentes do governo Lula, ladainha agora incorporada também por Dilma Rousseff, é apenas a velha desculpa surrada de se esconder atrás de um problema externo, os verdadeiros males de um governo incompetente.

Todas as vezes que nos referimos a tal guerra cambial, fizemos ver ao leitor que os prejuízos para o Brasil que a supervalorização de nossa moeda provoca na economia. A solução de casa não foi feita, jogamos fora oito anos em que poderíamos ter avançado nas reformas de base, mas que Lula não quis fazer para não pagar o preço político que tais reformas lhe custariam. Para Lula mais do que o interesse do país, está sua ambição de poder, seu interesse pessoal. Assim, a economia brasileira vive um dilema no momento que poderia ter sido evitado. Aliás, tivesse Lula feito com determinação e coragem o que lhe competia fazer, não apenas a atual guerra cambial passaria ao largo, mas seria uma imensa avenida de oportunidades cujo efeito maior seria dar sustentabilidade ao nosso crescimento econômico.

Por que digo isso?

Antes de ir à resposta diretamente, o leitor me permita uma ligeira digressão. Por formação religiosa, sempre que me encontro diante de uma dificuldade, daquelas que todos nós temos que passar, antes de reclamar e sair por aí dizendo que se trata de uma injustiça, penso em Deus e como que pergunto, que lição ou lições deverei aprender com a prova que me é colocada. Isto permite que a gente, primeiro, enfrente a dificuldade com maior serenidade e melhor ânimo. Sofre-se menos. Segundo, não existe efeito sem causa. Se problemas preciso enfrentar é porque eu mesmo os criei, seja por pensamentos, palavras ou atos. Terceiro, toda a dificuldade é um ensinamento para que, no futuro, evitemos repetir os mesmos erros, para não precisar mais sofrer por aquelas causas.

Voltemos ao Brasil. Ora, se todos estão no mesmo balaio, purgando os mesmos padecimentos, por que, ao invés de chorar e se queixar, não olhamos para aquilo que a tal guerra cambial pode nos beneficiar?

Sabemos que o excesso de gastos correntes do governo federal criou um engessamento na política de juros do Banco Central, razão pela qual ele se mantém lá em cima, os mais altos do planeta. No momento em que o FED, o banco central americano, anuncia que vai jogar no mercado 600 bilhões de dólares, com os juros que praticamos, é natural que boa parte da bolada acabe sendo direcionada para o Brasil, em razão dos nossos juros.

Ora, sabemos que o governo federal tem certa dificuldade em bancar na sua totalidade, os investimentos públicos em infraestrutura. Não poderia grande parte destes dólares que aportarão por aqui serem aplicados nestas obras? Não se mataria dois coelhos com uma única pedrada?

A questão então que se coloca é a seguinte: há ambiente para atrair estes dólares, ou grande parte deles, para investimentos no país que não seja a especulação com títulos públicos? Pois é aí, justamente, que a gente começa a ver o quanto o governo Lula deixou de fazer. Ou, no que fez, o fez de maneira torta.

Há poucos dias foi publicado um ranking sobre ambiente de negócios mostrando os melhores e os piores países para investimentos produtivos. Adivinhem em que posição ficou o Brasil? Dentre os piores, lógico. Dois fatores contribuíram para a nossa péssima colocação: educação e infraestrutura. Pois então, a quem compete sanar estas dificuldades?

Mas não são apenas estes dois pontos, os nossos gargalos. Enquanto nos países emergentes, a média da carga tributária se situa não superior a 25%, aqui estamos em torno de 35%. A Petrobrás, ontem, em um simpósio sobre problemas brasileiros no Rio de Janeiro, precisou reconhecer o apagão de mão de obra qualificada existente no país e que a afeta sensivelmente.

Além disto, a burocracia asfixiante, conjugada a falta de segurança jurídica, torna a dificuldade para novos negócios ainda maior. E, especificamente neste ponto, o governo Lula é o único culpado. Primeiro, porque simplesmente destroçou as agências reguladoras com sua politicalha de boteco. Segundo, fez terra arrasada dos marcos regulatórios. E apesar do PAC, e todos os apelos feitos até aqui, o país ainda espera por grandes investimentos vindos de fora para a realização das grandes obras de infraestrutura de que carecemos.

Se olharmos para o que está sendo feito em relação ao trem-bala, teremos bem a medida que, tão cedo, este gargalo não será removido. Até certo ponto, o PIB brasileiro poderia alimentar maior aumento do investimento público na infraestrutura. Porém, a opção tem sido em ressuscitar gigantes estatais que acabam consumindo toda a poupança e energia do país, em benefício de pequeníssima parcela de apaniguados. De outro lado, enquanto na imensa maioria dos hospitais públicos faltam medicamentos básicos para atender a população pobre, Lula prefere investir em fábricas de medicamentos na África e embarcar milhares de remédios que aqui faltam para o Haiti. Não que não devamos ajudar os países em situação de extrema miséria como é o caso do Haiti. Mas tal deve ser feito não de forma prioritária, mas porque nosso povo tem atendimento sem as carências atuais e há disponibilidade para a ajuda humanitária a povos em dificuldades. Lula esquece, muitas vezes, de que foi eleito para ser presidente do Brasil, e não das Nações Unidas.

Fica visto, portanto, que, mais uma vez, o país movido por uma política que mais pensa na manutenção do poder, do que em dar vida à auto sustentabilidade de crescimento do país, vai deixar passar à sua frente preciosas oportunidades sem aproveitá-las. Vimos este filme quando a economia mundial teve seu mais espetacular momento de expansão. Nosso país ficou à deriva, muito embora tenha se beneficiado um pouco, mas não o tanto quanto poderia ter sido.

E, pelo discurso da sucessora de Lula, lamentavelmente, não será desta vez que o gigante despertará. Parece que para esta gente, sustentar um quarto de sua população com cestas caça votos é o máximo que se pode oferecer. E neste sentido, continuamos apostando em perder oportunidades de dias melhores que continuarão apenas nas propagandas de tevê das futuras campanhas eleitorais. Assim, antes de culpar apenas aos americanos pela guerra cambial, deveriam Lula e Dilma culpar também e, principalmente, a China. E, ao lado das reclamações, aproveitar o momento para atrair o investimento que nos falta para alavancar nosso desenvolvimento, gerando empregos e renda.

Mas acho que ambos ficarão só no discurso e na choradeira. Hoje, a preocupação da dupla, é garantir a continuidade sim, mas de poder, em 2014. Afinal, com bolsa família e uma campanha bem feita na tevê, mesmo que calcada em pura mentira e mistificação, parece ser a fórmula perfeita para o sucesso político de ambos. O resto não interessa.