sexta-feira, novembro 12, 2010

Escândalo Panamericano: todos sabiam do rombo e não há inocentes

Adelson Elias Vasconcellos


Ontem, ficamos sabendo que havia fraudes também com cartões de crédito no Panamericano, qualquer coisa em torno aí de seus R$ 400,0 milhões. De fato, o Brasil é um muito mais rico do que a gente imagina: aqui, roubo não é coisa pequena, as cifras são sempre na casa dos muitos milhões, raramente resulta na prisão de um grandão, e o país nunca quebra com tanta rapinagem.

Nesta questão do Banco Panamericano se vocês repararem bem, até agora tivemos o crime, mas criminoso que é bom, não apareceu ninguém. É um tal de empurra a responsabilidade para o colo do outro que não acaba mais.

Segundo nos informa a Folha, após participar de 15 reuniões com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para negociar uma saída para o PanAmericano, o empresário Silvio Santos disse ter uma única preocupação em mente: manter a imagem de credibilidade com o seu público. O relato foi feito à Folha por um dos integrantes dessa reuniões que manteve contato com o apresentador e dono do Grupo Silvio Santos. Em uma dessas reuniões, o empresário afirmou que procurou o presidente Lula, antes do segundo turno eleitoral, no dia 31 de outubro, para buscar ajuda. Ao empresário Lula teria dito que ele deveria procurar os “canais competentes”, citando o ministro Guido Mantega (Fazenda) e o presidente do BC, Henrique Meirelles. Antes de seguir para Seul, onde ocorre a reunião do G20, Lula afirmou que não tratou do assunto, quando Silvio foi a Brasília pedir doação para o Teleton.

Como a palavra de Lula vale menos do que uma nota de R$ 3,00, e até por algumas coisas estranhas ocorridas durante a campanha do segundo turno, envolvendo o SBT, prefiro acreditar que o encontro no Planalto entre Lula e o empresário tenha tratado, sim, sobre o socorro ao banco Panamericano. Porque nesta história toda só há um inocente: o grupo de correntistas do banco. O resto, uns mais outros menos, são todos culpados.

A começar pelo próprio governo. Falhou, sem dúvida, o sistema de fiscalização do Banco Central, e falhou duplamente. Tomadas as palavras do próprio presidente da instituição, Henrique Meirelles, o BC já sabia do rombo há pelo menos dois meses. É mesmo? Vejamos: dois bilhões e meio de reais, da forma como a falcatrua estava sendo feita, não se realiza de uma hora para outra. É coisa que vem sendo feita há pelo menos dois anos, ou mais. E se o BC soube há apenas dois meses, o que foi feito antes, escapou à sua fiscalização.

Mas o governo é culpado, também, pela Caixa Federal que adquiriu 49% do controle acionário há quatro meses, após estudo feito pela própria CEF com aval do BC (olha o BC de novo aí!). Dizer que seus auditores se valeram dos estudos e levantamentos dos auditores do próprio Panamericano é assinar um atestado de incompetência. Nenhuma auditoria deve se espelhar em trabalho de terceiros. Tinham os analistas da Caixa o dever de olharem com pente fino os negócios e a situação econômico-financeira do Panamericano, uma vez que se tratava de avalizar ou não uma compra de R$ 750,0 milhões, o que não é pouca coisa.

Mais: se o BC já tinha conhecimento da fraude há pelo menos dois meses, por se esperou todo este tempo para tomarem providências quanto ao socorro que acabou ocorrendo nesta semana? Por causa das eleições?

Assim, fica claro que o comportamento estranhíssimo do SBT em relação à própria campanha eleitoral tinha uma motivação bastante especial. Aquele último debate, por exemplo, que deveria ser realizado pela afiliadas da rede, no Nordeste, e que Dilma se negou em participar, pelo acordo firmado antes, o debate deveria realizar-se mesmo com a ausência de um dos candidatos, ficando sua cadeira vazia. E o que fez o SBT? Simplesmente, avisou José Serra que o debate fora cancelado, mesmo que o candidato tucano manifestasse desejo de comparecer, e apesar do acordo firmado pelas direções de campanha, e que o SBT simplesmente fez questão de ignorar.

Mas, desta lambança toda, pelo menos um ponto positivo ressaltou-se: a de que a medida adotada pelo governo FHC quanto a criação do FGC – Fundo Garantidor de Crédito, bancado exclusivamente com recursos privados, uma vez mais, poupou o governo Lula de mais este vexame, muito embora a Caixa tenha torrado R$ 750,0 milhões num banco virtualmente quebrado.

Quanto ao empréstimo em si, há uma irregularidade que precisa ser esclarecida nos próximos dias: diz-se que Silvio Santos teria dado em garantia sua rede de televisão, o SBT, e mais o Baú da Felicidade como garantias para que a operação se consumasse. O detalhe é que o SBT não pode ser dado como garantia: trata-se de uma concessão pública. Silvio Santos está oferecendo em garantia um bem que não lhe pertence cem por cento, e há toda uma legislação pertinente que foi ignorada.

Claro que, no frigir dos ovos, o banco Panamericano acabará sendo vendido e, da parte que Silvio Santos detém de seu controle acionário, ela deverá ser repassada para amortização do empréstimo feito junto ao FGC. Fica claro, portanto, que, mesmo na hora de socorrer o banco, uma vez mais neste governo, se ignorou a lei, o que tem sido uma praxe desde Lula chegou ao poder.