Bolívar Lamounier, Portal Exame
A violência no Rio de Janeiro: dá para dizer algo novo, instigante, original? É óbvio que não. Pode ser que haja algo útil, algo que valha a pena repetir, mas neste momento até isso é difícil.
Quando a guerra estoura, o resto fica em suspenso. De ambos os lados, a hora é dos especialistas em violência, dos que conhecem o terreno e entendem de armas e táticas . De quem faz a guerra, não de quem tem recomendações sobre o que precisa ser feito para evitá-la. Tampouco dos pesquisadores, dos conselheiros ou dos pacificadores de almas.
Atrevo-me mesmo assim a fazer três ou quatro observações .
É triste dizer isso, mas o Rio está tendo em 2010 o seu momento de São Paulo-2006. O drama paulista de quatro anos atrás foi de igual proporção, e deveu-se a causas genericamente semelhantes.
Ninguém na plena posse do raciocínio poderia atribuir a quebra da ordem de 2006 em São Paulo prioritariamente a falhas políticas ou administrativas - admitindo, para argumentar, que falhas desse tipo tenham de fato ocorrido. Nem aquela, nem a deste ano no Rio de Janeiro.
O que se viu em São Paulo e o que se está vendo no Rio é uma ruptura em larga escala. É o banditismo demonstrando sua organização e sua capacidade de aterrorizar uma grande metrópole, no intuito de preservar seu negócio.
Em 2006 e mesmo depois, não faltaram explorações políticas e até eleitorais em torno dos fatos ocorridos em São Paulo. De agora em diante, o mínimo que se pode sugerir a todos quantos se inclinem por esse tipo de comportamento é pois que mantenham a boca fechada.
O que aconteceu em São Paulo e ora acontece no Rio de Janeiro pode se repetir em diversas outras cidades brasileiras . Esta afirmação não faria sentido se a droga e a criminalidade que gira em torno dela não estivessem por toda parte. Mas é óbvio que está.
São Paulo e Rio com certeza detêm a primazia - até por serem pontos de saída da droga para o mercado internacional - mas não a exclusividade dessa nefanda atividade.
Imaginar, portanto, que tal problema possa ser confinado e finalmente controlado dentro dos limites de uma cidade ou mesmo de um estado, é dar rédeas à fantasia. Não iremos a parte alguma sem uma política nacional de segurança e sem um controle efetivo das fronteiras pelas quais drogas e armas entram com sabida facilidade.
O momento, como eu disse acima, é dos especialistas em violência. Numa guerra entre nações, um chefe de Estado às vezes encontra brechas para negociar, diretamente ou através de intermediários, com o chefe do Estado adversário.
Na guerra contra os facínoras do tráfico, isso não é possível nem legítimo. O que a autoridade pública – no caso o governador do Rio de Janeiro – lhes há de dizer é que eles não são e nunca serão um Estado dentro do Estado.
E não só o governador do Rio. Ou o país decide fazer isso agora, ou espere pelo pior. Não usamos sombreros nem grandes bigodes, mas ninguém pode garantir que o Brasil esteja imune aos problemas do México.
Num horizonte de tempo mais dilatado, fatores à primeira vista etéreos podem entretanto fazer uma grande diferença. Falo aqui de certas percepções, conceitos e modos de pensar.
Generalizou-se no Brasil a noção de que a criminalidade tem raízes sociais : uma meia-verdade. Desta meia-verdade muitos políticos, cientistas sociais, clérigos e formadores de opinião tendem a saltar, com notável destreza acrobática, para uma falsidade completa : a de que nada de efetivo se pode fazer contra o crime enquanto o país não resolver seus problemas sociais.
Estarei por acaso caricaturando uma tese séria ? Ou a tese é que é em si caricatural ?
Diretamente, as percepções e modos de pensar da sociedade não traficam nem contratam “aviõesinhos”. Não armam nem desarmam os fuzis que disparam no meio da noite anunciando a chegada de um novo carregamento. Mas podem retardar a conscientização dos cidadãos quanto à natureza e à extensão do problema.
O que as densas teorias do crime como reflexo de desigualdades sociais não percebem é a distância sideral que separa a mãe que rouba um litro de leite para alimentar o filho e os narcotraficantes que pararam São Paulo e agora param o Rio de Janeiro. Aquela e estes não são farinha do mesmo saco. Ela precisa de políticas sociais. Estes precisam – para usar um termo atual – ser extirpados : inviabilizados como negócio e desativados como um poder pretensamente autônomo dentro do Estado nacional.