Adelson Elias Vasconcellos
Parece que ninguém quer embarcar no trem de Lula e Dilma. Bem, não foi por falta de aviso quanto aos erros de estudo, quanto a inviabilidade técnica, quanto a alguns esquecimentos importantes no edital sobre os custos com energia. O conjunto da obra é um todo confuso, que não dá segurança a nenhum investidor quanto ao retorno efetivo do investimento. O governo apresentou uma peça de ficção para ilustrar sua fantasia, dizendo e jurando que se trava de algo real. Se as propagandas oficiosas conseguem iludir aos eleitores brasileiros, as ficções dos números referentes a obras, não iludem quem tem dó do seu dinheiro.
Olha, quando se apresentam dois estudos de um mesmo empreendimento, com preços tão disparatados como os que se viu em relação ao trem-bala, a coisa não cheira bem. Quando o governo acena com um subsídio de R$ 5,0 bilhões caso o vencedor não atinja “x” de receita em “y” tempo, é possível perceber que existem trapaças que o governo está ocultando dos interessados.
Vimos que chineses, japoneses, franceses caíram fora. Agora, o Ministério Público pediu pelo cancelamento da licitação. Até ontem, o governo ainda relutava se adiava ou não o leilão, marcado para ocorrer segunda feira próxima, 29 de novembro.
O empreendimento não pode ser tocado sem nenhum critério. Seu preço, dada a magnitude da obra, não pode ser avaliado como se fosse pesquisa eleitoral. Preço mínimo: 33,1 bilhões de reais. Margem de erro, para mais ou para menos: uns 5,0 bilhões de reais. Ora, só do BNDES virão R$ 20,0 bilhões, o restante será bancado pelo consórcio vencedor do leilão. Mas e aí, aonde chegará o preço final? E o tempo previsto para execução da obra, é compatível com o leque imenso de dificuldades a serem contornadas, a começar pelas desapropriações, coisa que no Brasil sabemos demandar tempo demasiado longo em disputas judiciais e ajustes de valor das indenizações? E os estudos preliminares quanto ao impacto no meio ambiente e os geofísicos para determinar o tipo de estrutura adequada?
O Tribunal de Contas da União, debruçado sobre o estudo, apontou inúmeras inconsistências de projeto. Então, por que esta pressa maluca para se tocar uma obra de tal porte, sem as avaliações econômicas adequadas, sem as especificações técnicas indispensáveis, sem a segurança necessária de sua viabilidade, e sem respeitar os demais aspectos imprescindíveis para obra de tamanha envergadura?
Nesta semana afirmamos que o custo final não ficará por menos do que R$ 50,0 bilhões, os quais somados a outros delírios do atual governo, consumirão em torno de R$ 100,0 bilhões, dinheiro este que não temos, e que está fazendo falta para atender áreas bem mais urgentes e com maior benefício direto para a população. Vimos nesta edição um exemplo disto: uma mulher que foi retirar os pontos de uma cesariana no Centro de Saúde 2 de Sobradinho, no Distrito Federal, foi informada que precisaria comprar um bisturi. No local não havia nenhum. Só assim ela poderia ser atendida. Por favor, leitor, não se trata de piada. Esta é mais pura realidade de uma rotina constante da rede pública.
Sabe-se, por outro lado, existirem inúmeros estudos que indicam alternativas melhores, mais viáveis e bem mais baratas do que o trem bala. Por que não se aprofundam tais estudos? Por que esta estupidez com o dinheiro público?
Assim, se Lula quer encerrar com chave de ouro o seu reinado, o melhor que faria não seria inaugurar obras. Seria criar juízo e, com humildade, reconhecer que este trem precisa parar, e agora. Seria a decisão mais sensata que poderia tomar. Resta saber se lhe resta alguma grandeza de caráter para tanto.