domingo, janeiro 09, 2011

Cenário externo escancara necessidade das reformas

Ana Clara Costa, Veja online

A realização de ajustes profundos nas políticas fiscal, tributária e de investimentos é urgente para ampliar ainda mais a solidez da economia

(Evaristo Sá/AFP)
Dilma Rousseff
precisará de articulação política
para retomar a agenda das reformas
Há pouco que o Brasil possa fazer, no curto prazo, para se proteger num cenário de deterioração da economia internacional. Com o passar dos anos, contudo, pode adotar medidas que lhe confeririam solidez econômica ainda maior para enfrentar as dificuldades. O foco, apontam os especialistas ouvidos pelo site de VEJA, terá de ser a retomada das reformas que foram abandonadas pelo governo Lula. Há um consenso de que o ajuste fiscal, a reforma tributária e os investimentos em infraestrutura são os pilares que poderão segurar a economia doméstica em novas situações de turbulência externa no longo prazo.

“Um dos efeitos que a valorização do real traz é justamente esse de escancarar a necessidade de trabalhar as agendas de ajustes na economia”, diz Zeina Latif, economista-chefe para América Latina do Royal Bank of Scotland (RBS). Entretanto, o orçamento de 2,07 trilhões de reais anunciado pelo Congresso para 2011 deixa dúvidas, em um primeiro momento, se os ajustes realmente ocorrerão. O número supera os 1,86 trilhão de reais anunciados para 2010. “O ajuste no orçamento para 2011 é tão essencial quanto o controle da inflação”, afirma Robert Wood, analista para América Latina da Economist Intelligence Unit (EIU).

Na hipótese de a equipe econômica do governo Dilma colocar em prática mudanças que reduzam o custo Brasil, como a reforma tributária, e melhorem o ambiente de crescimento, como os investimentos em infraestrutura, a competitividade industrial poderá ser favorecida sem que o país tenha de interferir no câmbio. “Não há como adiar essa agenda e eu acho que a equipe da presidente sabe disso. Estamos abandonando o jogo no mercado externo e perdendo o mercado interno para os importados”, afirma Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Mesmo que Dilma e sua equipe queiram impor controle à desvalorização do dólar sobre o real as tentativas serão em vão. A combinação de liquidez no mercado internacional, países centrais com imensas dificuldades e indicadores muito favoráveis no Brasil – aumento da renda e do emprego, mercado interno com crescimento explosivo, ascensão social das camadas mais pobres e, as “cerejas do bolo”, juros elevados e enorme competitividade no mercado de commodities, cujos preços não param de subir – fazem com que a economia doméstica torne-se irresistivelmente atrativa ao investidor externo. Soma-se a isso a política deliberada do governo americano de desvalorizar sua moeda para reativar a economia. A valorização do real, eminentemente estrutural, é quase impossível de ser combatida.

Um remédio para o médio e longo prazo seria o comprometimento com a melhoria das contas públicas, que teria o poder de abrir espaço para que o Banco Central reduza os juros astronômicos que tanto atraem capital em busca de lucro fácil. A queda dos juros também teria o efeito de estimular o ambiente de negócios. Os discursos dos integrantes da nova equipe econômica são positivos, mas muito precisa ser feito para que as boas intenções transformem-se em política efetiva.

Enquanto nada disso é feito, o Banco Central, em seu último relatório de inflação, deixa clara a necessidade da subir juros no curto prazo – fato já esperado pelo mercado e que terá efeito negativo sobre a economia, tendo em vista que poderá atrair ainda mais dólares para o mercado interno, além de encarecer o crédito e conter a demanda doméstica. “Os investidores estrangeiros estão em busca de retornos maiores”, afirma Wood, da EIU. Sem ajustes fiscais, de mãos atadas em relação ao exterior e diante da iminente alta da Selic, uma coisa é certa: Dilma Rousseff não tem à frente o melhor ano dos últimos tempos. E cometer erros macroeconômicos é um luxo do qual ela não poderá usufruir.