domingo, janeiro 09, 2011

Lula mais presidente depois de ex

Villas-Bôas Corrêa

Depois de oito anos dos dois mandatos como presidente da República, embora não seja a regra, é compreensível que Lula custe e desencarnar. Mas, pegaria bem um pouco de cautela para não passar os limites da excentricidade.

Um ex-presidente merece o respeito do país e mais do que isto, Lula é mais popular líder de todos os tempos. Mas, não domina a ânsia de continuar desfrutando do que o caro tem de melhor.

E como os seus ministros que continuam ministros da presidente Dilma Rousseff também se consideram ministros de Lula, os qüiproquós se sucedem, enriquecendo o anedotário oficial.

Na noite em que deixou o cargo, Lula e a sua esposa, dona Marisa Letícia foram passar a noite no apartamento da família em São Bernardo do Campo. De camiseta e calção dormiu a noite com o sono pesado da exaustão. O banho de chuveiro, o café com leite e bolinhos preparados por dona Marisa Letícia restabeleceram o animo do ex-presidente, que voltou à atividade com todo o vigor.

A presidente Dilma vai assumindo o exercício do alto cargo, com decisões surpreendentes como o convite às companheiras das torturas nas masmorras da ditadura militar para assistir a sua posse. E que foram recebidas com todas as gentilezas pela presidente.

Mas, Lula não tem jeito para ex. E no angu de dois presidentes, um ex que prolonga as despedidas, com um programa de dar inveja a um milionário e a presidente que vai ocupando o seu espaço, a cada dia o pitoresco vai renovando o seu repertório.

A última é a mais festejada, deixando o ministro da Defesa, Nelson Jobim numa que gostaria de ter evitado. E, ao contrário, teve que assumir a responsabilidade pelo convite ao ex-presidente Lula, de sua mulher, dona Marise Letícia, filhos, noras e netos para se hospedarem no Forte dos Andradas, no Guarujá, no litoral de São Paulo e uma propriedade do Exército. Convite feito e aceito na hora. Lula e a sua família estão hospedadas no Forte dos Andradas pela quinta vez, a primeira como ex-presidente.

E o ex-presidente Lula tem lá as suas razões. Foi ele quem construiu a suíte presidencial e toda a infra-estrutura para a hospedagem do presidente, a família e convidados,

O presidente brinca com os netos na praia, pesca peixes miúdos. Um de seus filhos, Luís Cláudio Lula da Silva, comemorou o sol que aqueceu Guarujá depois de uma semana de chuva.

A Casa Civil, com os naturais embaraços, confirmou para os jornalistas que o ex-presidente da República não tem o direito de gozar férias em instalações militares. E amaciou o embaraço pelo desvio do óbvio de que ex-presidente poder ser convidado “como qualquer pessoa para se hospedar no Forte dos Andradas”.

Mas, a lei que trata dos ex-presidentes – 7.474/86, regulamentada pelo decreto 6.381, de 27 de fevereiro de 2008 – estabelece que eles têm direito a quatro funcionários, dois automóveis e seguranças pagos pelo governo. E só.

Ora, se o comportamento de Lula é censurável, não se compara com a orgia de gastos que estão sendo aprovadas pelo novo Congresso, já credenciado para disputar o título de pior de todos os tempos. O PMDB e o PT, aliados do governo mas que se unham como gatos, travam uma briga de bastidores por cargos e espaços no governo, responsável por obras e com fartas verbas orçamentárias. Não se conhecem planos, propostas, projetos na ganância por nomeações e ministérios com obra e verbas.

A mina disputada pelo PMDB e o PT é o Ministério da Saúde, com um orçamento de R$ 77,3 bilhões para este ano. O PT já abocanhou a pasta da Saúde para o ministro Alexandre Padilha. Mas, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), como outros cargos no Ministério, ainda são disputados pelo PMDB e o PT, aliados que disputam cada naco do governo.

O vice-presidente da República, Michel Temer, entrou no baile para abafar o ruído da orquestra. E deu o seu palpite sensato sobre o aumento do salário mínimo acima de R$ 540,00. Garantiu que a bancada do PMDB não votará contra o governo. Se a proposta do governo for encaminhada ao Congresso, a bancada do PMDB só aprovará se for compatível com as possibilidades do Erário.

Não se pode exigir maior demonstração de fidelidade ao governo. O PMDB é o novo PSD, o Partido Social Democrático da fase dourada do Congresso, depois da queda da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Outros tempos e costumes.