O Globo - Editorial
A escalada do conflito de raízes fisiológicas, travado entre PT e PMDB, em torno de vagas e verbas na administração direta e em estatais, ganha dimensões preocupantes.
Como, nos últimos oito anos — com destaque para os quatro finais —, o PMDB e legendas menores da base se acostumaram ao toma lá dá cá com o Planalto, num mercado de trocas de acesso a verbas e cargos por apoio no Congresso, peemedebistas têm ido com avidez redobrada sobre este butim, anabolizados pelo fato de estarem representados na vice-presidência, com Michel Temer.
Os petistas, por sua vez, demonstram estar bastante mais ousados na busca pelo controle de áreas do governo, agora com a ausência de Lula em Brasília, líder supremo do partido, único capaz de domar os mais ferozes interesses existentes na legenda.
Sem ele, é como se os leões do circo ficassem sem domador e fora da jaula. Alguém precisa pegar o chicote, para enfrentar estas e outras feras.
Pode ser que tudo não passe de um momento de readaptação de todo o país a um governo em que o presidente governa trabalhando em gabinete, e não de cima de púlpitos.
Mas não é agradável a impressão de um Planalto inerte, sob o cerco de toda a sorte de interesses, geralmente inspirados pela cultura do baixo clero da política.
Como em governos anteriores, partidos, PMDB à frente, praticam a chantagem de ameaçar votar contra o Planalto em matérias de grande impacto nas finanças públicas — salário mínimo é o alvo predileto —, se não conseguirem empregar quem querem, no lugar que desejam. De preferência, onde há muitos bilhões de reais para gastar. Fazem bonito para a arquibancada e, de fato, atemorizam autoridades.
Mas este tipo de pressão é tão previsível que os governos precisam encontrar formas de responder a ele, e assim evitar a degradação da administração pública.
Adiar o preenchimento de cargos no segundo escalão, diante da grita peemedebista e petista, é medida aceitável para ganhar tempo. Mas ele se esgota.
O governo não pode é mercadejar setores como o da saúde pública, um dos vários campos de bata-lha entre PT e PMDB. As verbas que transitam na área atraem de longe qualquer político fisiológico. Apenas a Funasa (Fundação Nacional de Saúde) movimenta por ano R$ 4,7 bilhões.
O dramático é que, enquanto cenas de pugilato político transcorrem em torno de orçamentos, milhões de brasileiros são diariamente mal atendidos em hospitais e ambulatórios do SUS.
Ninguém briga para ter a primazia de reformar este enorme e ineficiente sistema, do qual depende a vida da maior parte da população. Luta-se apenas para gastar os bilhões de reais do Ministério da Saúde, sem qualquer outra preocupação com a qualidade dos serviços médicos.
O governo de Dilma Rousseff, logo nos seus primeiros dias, enfrenta momentos- chave. Se se curvar ao fisiologismo do PT, do PMDB e de qualquer outra legenda, não precisará tirar da gaveta qualquer projeto de melhoria de qualidade de serviço, de saneamento de estatais, de combate à corrupção.