Adelson Elias Vasconcellos
Uma das maiores tragédias que qualquer gestor público pode cometer contra a educação universitária de um país além da omissão, é regular suas ações pela régua do “volume de recursos” que aplica e pela quantidade de cursos que vai abrindo país afora.
Dinheiro e cursos a mais nunca foram sinônimos do que é essencial: QUALIDADE. Como, também, não são garantia de melhores profissionais. Durante a campanha eleitoral, Lula se gabou de ter sido o presidente que mais universidades criou durante seu mandato. Bem, já vimos que a afirmação é uma vigarice monstruosa. Muitas destas “novas universidades” foram obras de fusão, e não de nova geração. Além disto, aumentar o número de vagas também é balela: somente nas universidades públicas, atualmente, chegam a 40 mil o número de matriculas ociosas.
Poderia reproduzir outro exemplo que desmonta esta ladainha governamental. Enquanto nos Estados Unidos, país com população e área geográfica maiores do que as do Brasil, conta com apenas 200 cursos de Direito, aqui passam de mil. E, tanto quanto se saiba, os advogados de lá são melhores e mais bem remunerados do que os daqui. Não só isso: há um perfeito equilíbrio entre oferta e demanda por lá, enquanto no Brasil, sobram advogados em todos os cantos.
E, ao contrário do que se vinha alimentando até agora, o MEC parece ter se dado conta que “quantidade” não é, mesmo, sinônimo de qualidade. Falta apenas aprender a lição de que, volume de recursos, também não.
Nos países desenvolvidos e naqueles que realizaram sua revolução na educação, a exemplo da Coréia do Sul, o maior investimento se concentra nos ensinos fundamental e médio. E é onde se realizam os maiores investimentos em qualificação. A partir daí, é o próprio mercado quem ditará as regras para a abertura de cursos superiores. No Brasil, enquanto sobram advogados, faltam engenheiros, como, também, já se observam enorme apagão de mão de obra especializada em nível médio na construção civil.
Portanto, é saudável que o MEC tenha adotado uma nova postura: a de desqualificar universidades picaretas, sem a menor competência e qualificação para a formação dos profissionais do nível de qualidade que o país precisa. É preciso dar basta ao desperdício do dinheiro público desviado para tais “centros” de vigarice.
Mas há uma questão que a sociedade brasileira deve atentar: o MEC está exibindo em rede nacional de televisão, uma campanha publicitária em que fala de qualidade na educação (estamos muito longe disso como o mundo inteiro já conhece), em que centra uma enorme valorização no aumento de recursos repassados. Ora, em quanto aumentou a arrecadação federal nos últimos 15 anos? É evidente que, dispondo de mais recursos, o valor dos repasses tende a aumentar. Isto não é mérito algum, é obrigação. Em muitos estados e municípios, há um percentual fixo sobre a arrecadação que OBRIGATORIAMENTE deve ser investido na educação.
Assim, este “aumento de recursos” não representa coisa alguma, se não for acompanhado de expressivo aumento de qualidade. Acrescento, também, que não basta apenas “aumentar o número de matrículas” em qualquer um dos níveis de ensino: enquanto permanecerem, por exemplo, mais de 40% dos adolescentes fora do ensino médio, isto representa o sintoma perfeito de que “alguma coisa” está fora do eixo. Não basta que, até 8 anos toda a criança seja alfabetizada. É preciso mais: é preciso que ela conclua o ensino médio sabendo ler, escrever, realizar as quatro operações básicas e ter exato entendimento do que lê. É bom que o MEC levem em conta isto: dois terços da população brasileira é analfabeta funcional. Deste total, apenas nove por cento é analfabeta total. Os demais tiveram quatro anos de escola, que, conforme se vê, não lhes representaram coisa alguma.
Portanto, é preciso ousar e avançar muito mais. Não podemos nos contentar com pouco, porque, pouco é o que já temos. E isto, está visto, não nos serve se o desejo é tornar o país uma nação, realmente, desenvolvida.