Adelson Elias Vasconcellos
Vocês veem abaixo, a confirmação daquilo que foi dito aqui: não apenas o governo federal liberou a merreca de 1 milhão de reais para o Rio de Janeiro, em todo o ano de 2010, e isto após o desastre de angra e Ilha Grande, como também, Angra, ainda aguarda a verba prometida, a exemplo de Santa Catarina. E, como incompetência pouca é bobagem para o governo petista, em outro artigo, o site Contas Abertas nos informa que, há dois anos, o Ministério da Integração Nacional tenta viabilizar a construção do Centro Nacional de Gerenciamento de Desastres (Cenad), que acumulou ao longo deste período orçamento de R$ 2,6 milhões e poderia minimizar os danos provocados pelas chuvas com o monitoramento dos riscos. Nenhum centavo, no entanto, foi liberado para o projeto, segundo o ministério, “por conta de dificuldades relacionadas ao terreno que vai abrigar o departamento em Brasília”.
Em companhia de Sérgio Cabral, dona Dilma sobrevoou a região serrana fluminense atingida pelos desastres. E na rápida entrevista coletiva que concedeu depois, atacou a ocupação ilegal dos morros e encostas. Contudo, não assumiu a responsabilidade que acima vemos, e que cumprida, teria ao menos amenizado o número de vítimas atingidas.
Assim, não pode o governo federal escusar-se de fazer um mea culpa. Conforme digo em post abaixo, Sérgio Cabral, num daqueles rasgos de serviçal boçal em relação, primeiro à Lula, agora à Dilma, tratou de fazer a defesa do governo federal afirmando haver recebido 500 milhões de reais nos últimos quatro anos. Ocorrem duas coisas: primeiro, o que se repreende no governo central não são os últimos quatro anos, e sim, o ano de 2010, e, neste aspecto, a verba repassada foi sim de apenas 1 milhão. Segundo, Angra ainda não recebeu os 30 milhões prometidos por Lula logo após o desastre em Angra. E isto é um fato.
A consequência inicial da afirmação destrambelhada de Sérgio Cabral é a seguinte: vamos aceitar que o governo federal lhe tenha entregue nos quatro últimos anos os tais 500 milhões. Muito bem: quem foi o governador do estado durante este tempo? E, o que é o principal, o que foi feito por este governador com o dinheiro recebido?
Vê-se que, prá frente ou para trás, na contagem do tempo, não podem nem Governo Federal tampouco o Estadual livrarem-se do abacaxi que tem em mãos, tampouco da irresponsabilidade com que tem tratado o assunto. E no plano federal a coisa ainda soa mais grave: vejam que sempre instado a responder pela promessa de verbas e que não liberou, o governo se sai com a desculpa de “falta de projetos”. Pois bem, e o projeto montado e pronto no âmbito do Ministério de Integração Nacional, contando inclusive com dotação orçamentária, por que não saiu do papel?
Ora, é fácil empurrar culpas e responsabilidades para o colo e os ombros alheios. Difícil mesmo é assumirem seus próprios erros.
Cabral, naquele seu jeito estúpido de ser, atacou o populismo dos prefeitos. Porém, quando a imprensa ignorou sua demagogia ordinária e o pressionou com fatos de sua própria gestão, percebendo que, de fato, lhe cabe boa dose de responsabilidade pelo desastre ceifar tantas vidas, tratou de mudar de assunto. E se saiu com esta:
“...A hora é de arregaçar as mangas e ajudar a essas famílias. É máquina, bombeiros trabalhando. Sempre tem a hora de fazer avaliação. Tem que se fazer uma autocrítica, por que se permitiu fazer tudo isso. Mas agora é resgatar corpos e ajudar famílias desabrigadas. Não vamos perder tempo nesse momento...".
Tudo ficaria muito bem não fosse Cabral ser o sujeito que é. Ele próprio voltou a criticar nesta sexta-feira o populismo praticado por antigos prefeitos que, segundo ele, cederam certidões de posse para moradores de áreas de risco.
E arrematou: "A natureza não temos como evitar. Temos visto isso no mundo inteiro. Mas temos visto aqui e em outras regiões uma ocupação desordenada e irresponsável"
Sei, quando a crítica lhe atinge os calos, a hora é imprópria, mas ele mesmo não se furta de atacar o populismo dos prefeitos. Esse comportamento, típico do senhor Cabral, tem nome: mau caráter.
Claro que a hora é para as autoridades atacarem o que é prioritário, ou seja, resgatar os mortos e salvar vidas, apoiando no que for possível, as necessidades primeiras de quem tudo perdeu.
A análise do que deve ser feito, e não foi, deve ficar relegada a um segundo plano. Contudo, é inevitável que se diga e se aponte o diagnóstico correto: apesar da chuvarada atípica, os governos estadual e federal são os maiores culpados pela tragédia ter atingido as proporções trágicas que atingiram.
Todos sabem o que deve ser feito no curto prazo para se evitar que 2012 se transforme na cópia fiel e perfeita do que foi 2011 e do que já tinha sido 2010, e do que vem sendo há mais de trinta anos.
Como lembrei aqui, a questão não é apenas negar que as pessoas morem e se arrisquem em áreas de risco. Se não for nestas áreas, que opções são oferecidas para as famílias construírem suas casas? Que áreas seguras são ofertadas, onde possam contar com infraestrutura adequada a uma qualidade de vida minimamente decente? Não basta como faz Cabral dizer que se deve negar certidões de posse para moradores em áreas de risco. As pessoas não vão morar no meio do mato ou debaixo de viadutos. Elas querem e desejam dignidade e as oportunidades para tanto quem lhes deve oferecer e garantir são as autoridades. É para isso que elas ali estão e foram colocadas. E foram ali colocadas não por uma decisão arbitrária da sociedade. Tais pessoas embutidas na “autoridade pública” se ofereceram para tanto, e seu dever é agir para melhorar a vida das pessoas, e não para sentarem-se choramingando e caçando bruxas. Não é para criticarem o passado, porque para isto não precisaria o país bancar o alto custo de se ter autoridades públicas.
Está passando da hora dos governantes brasileiros pararem com esta história de “herança maldita” dos antecessores servir de escudo e desculpa para não fazerem nada. Que cada um em sua área específica de atuação tenha consciência de seus deveres e faça o que deve ser feito, sem demagogia ou hipocrisia, sem adiamentos e postergação. Se tudo for feito como tem sido a constante dos últimos anos, em 2012, corremos o risco de ver novos desastres e tragédias e para piorar: ter de ouvir as mesmas desculpas e cretinices sobre as providências que não foram tomadas.
