Adelson Elias Vasconcellos
Ninguém, com um mínimo de sensibilidade, fica imune ao que se passa em alguns países europeus. Ninguém de sã consciência fica satisfeita em perder empregos, em ver suas aposentadorias reduzidas, seus direitos e benefícios sociais sendo cortados à metade ou até extintos.
Contudo, com um pouco de reflexão a gente vê que muitos europeus viverem as últimas décadas à sombra de uma capacidade fictícia de bem estar. Muitas conquistas foram alcançadas mercê ao chapéu alheio, isto é, mediante a um crescente e irresponsável endividamento de seus países. Poucos procuram corrigir a rota que se mostra à sua frente. Fecharam os olhos e trataram de aproveitar, caso dos políticos que imaginam que a farra jamais teria um limite.
A crise financeira de 2008 se foi dolorosa por um lado, pelas consequências de quebradeira de bancos em série, e consequente desemprego, por outro, serviu para mostrar que a aparência de bem estar de muitas nações não passava de fantasia aventureira, sem guardar nenhuma ligação com a realidade. O bem estar que desfrutavam não era fruto da geração de riquezas de e sim dinheiro tomado no mercado dos “tais derivativos” que afundou em 2008.
Alguns países como Alemanha, por exemplo, ao lado do bem estar de seu povo, há um compromisso sério de que os benefícios são produto direto do trabalho. É comum a gente ver sindicatos pleiteando redução de jornada de trabalho ao lado de conquistas com salários indiretos e benefícios variados, sem guardarem nenhuma relação com a geração da riqueza produzida.
Não se enganem: se no Brasil não aproveitarmos a calmaria atual para realizarmos reformas urgentes tais como a previdenciária, a trabalhista, a tributária e política, os dias de hoje são o espelho do que viveremos amargamente mais adiante. É nesta aparente estabilidade e tranquilidade que vivemos, ainda distantes das crises que afligem europeus, que devemos aproveitar para promover verdadeiras revoluções internas capazes de dar rumo e sustentabilidade ao nosso desenvolvimento. Não há outro caminho. Por mais difíceis que sejam as negociações em torno destas mudanças, e por muito impopulares que elas possam parecer, e são, não se duvida disto, contudo, é preciso que atual geração de governantes e políticos pensam no Brasil do futuro e não apenas olharem para seus próprios umbigos ou, a exemplo do PT, só tratarem de se perpetuarem no poder mesmo que o preço a pagar seja condenar as futuras gerações a sofrerem com a nossa omissão e desídia, tendo que enfrentar as mesmas aflições que os europeus padecem nos dias atuais.
E atenção: não pensem que já não existam indicadores acesos de sinal de alerta. Portanto, há tempo suficiente para o país se preparar e se prevenir.
Para que vocês tenham uma pálida ideia do que poderá ser o nosso futuro caso não façamos como devemos o dever de casa, segue reportagem do Jornal O Globo com informações da Agência Reuters sobre a situação calamitosa que vivem os espanhóis. Que não tenhamos que administrar crises futuras, é melhor trabalharmos no presente.
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Milhares de espanhóis protestam contra reforma trabalhista
Manifestantes temem que mudanças prejudiquem direitos dos trabalhadores
MADRI — Milhares de pessoas participaram de protestos em várias cidades da Espanha neste domingo contra uma reforma no mercado de trabalho que temem acabar com direitos dos trabalhadores e contra cortes de gastos que acusam de estar destruindo benefícios sociais.
Organizadores, incluindo as duas maiores entidades sindicais, a Comisiones Obreras e a UGT, afirmam que até 500 mil pessoas aderiram ao protesto em 57 cidades espanholas. Autoridades do país não forneceram a estimativa oficial de participantes.
Várias ruas de Madri ficaram lotadas de manifestantes de todas as idades, em um dos maiores protestos desde que a crise econômica começou, quase cinco anos atrás.
— Os contratos estão ficando piores a cada ano. Eles dizem que querem investir no futuro, mas estão cortando orçamento de pesquisa. Eles não estão olhando para o futuro, mas para próxima eleição, com os cortes sendo ditados por Bruxelas — disse o pesquisador universitário Nacho Foche, de 27 anos.
O novo governo conservador espanhol começou o mandato de quatro anos em dezembro com aumento de impostos e cortes de gastos avaliados em cerca de 15 bilhões de euros (US$ 19,74 bilhões) e precisa cortar mais cerca de 40 bilhões para cumprir com duras metas de déficit definidas pela União Europeia.
O governo também aprovou reformas no setor financeiro, que forçam bancos a reconhecerem perdas no setor imobiliário, e no mercado de trabalho, que garantem mais poderes para companhias contratarem e demitirem funcionários.
A quarta maior economia da zona do euro tem se mantido no olho do furacão da crise de dívida desde que o governo socialista registrou um dos maiores déficits orçamentários do bloco de países, deixando investidores preocupados com o risco de que governo tenha perdido controle sobre as finanças.
Os socialistas, derrotados na eleição de dezembro em meio à visão de falhas na condução da crise, promoveram grandes cortes de gastos e reformas enquanto a economia enfrentava problemas com o estouro da bolha do setor imobiliário e demanda doméstica em colapso.
O partido conservador, enquanto isso, afirma que sua reforma trabalhista, aprovada em 10 de fevereiro, dará a empresas em dificuldades maior espaço para se recuperarem da crise e para criarem empregos em um país onde quase a metade dos jovens está desempregada.
A Espanha tem a maior taxa de desemprego entre os países desenvolvidos (23%) e muitos espanhóis temem que o aumento de poder das empresas para decidir sobre a demissão dos trabalhadores, que agora custa menos às companhias, cause uma onda de demissões e contratos sem direitos trabalhistas.
— Se quisermos que a Espanha cresça e quisermos criar empregos, nós temos o que fazer o que temos feito — disse o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, durante o congresso anual do Partido Popular, neste domingo.
No mês passado, Rajoy foi flagrado dizendo, durante um evento Bruxelas, que a reforma trabalhista do país pode causar uma greve geral.
— Tem que haver uma greve geral. Eles disseram que cortariam os direitos dos trabalhadores para criar mais empregos. Eles cortaram os direitos, mas não disseram como planejam criar mais vagas — ressaltou o professor Alberto Carrillo, de 48 anos.