sábado, março 17, 2012

Dilma faz oposição a si mesma

Adelson Elias Vasconcellos

Creio ser meio cedo para a gente descortinar as consequências deste arranca-rabo entre a presidente Dilma e sua base aliada. Contudo, ao abrir verias frentes de atrito e descontentamento, Dilma acaba levantando barreiras contra seu próprio, o que, em tese, poderia inviabilizar seu mandato que sequer chegou à metade. 

Claro que Dilma não tem estofo político para encarar um segundo mandato. A exigência do cargo e o desgaste que as relações vão provocando pelo caminho, não se coadunam com o perfil da pessoa Dilma Rousseff. Ninguém pode exigir dela o que ela própria não tem.  Dilma tem um perfil gerencial, não importante se competente ou não. Mas em política é preciso ter jogo de cintura e muitas vezes perfis técnicos acabam atropelam aquelas negociações de bastidores tão própria dos políticos e que servem para aparar arestas. Não é o caso da presidente.

Como podemos imaginar que sua atuação seja apenas para abrir caminho e dar passagem à Lula em 2014, surgindo como o grande salvador e pacificador de uma base em frangalhos e desarticulada.  Perfil para negociador em situação como a atual Lula tem, e de sobra. Aliás esta coalizão tão ampla foi arquitetada por ele mesmo.  Talvez a tenha ampliada muito além da necessária para conquistar certa estabilidade e governança. E isto sempre abre brechas e deixa rastros. 

Porém, precisará a presidente Dilma entender que, no presidencialismo brasileiro, há hora certa para estrebuchar, como há hora certa para o carinho e do qual ninguém abre mão. Tentar levar tudo de roldão, a ferro e fogo, atropelando a necessária diplomacia que o cargo impõe para negociar,  as áreas de atrito só tendem aumentar.  Há que recuar muitas vezes, ser mais persuasiva do que impositiva. Tudo bem que Dilma não tenha lá muito talento para exercer liderança política, mas precisa aprender, e rápido, que há mais de um caminho para impor sua vontade e que recuar, muitas vezes, acaba revigorando muito mais a autoridade do que tentando impor esta vontade à força. 

Portanto, recuar agora e tentar reconciliar-se com sua base, articulando e negociando ações que satisfaça aos dois lados, pode ser muito mais inteligente e produtivo para o seu governo, com benefícios para o próprio país, do que, por orgulho e birra, forçar a barra de que apenas a sua vontade deve prevalecer. 

Do contrário, a insistência na estratégia inadequada, acabará comprometendo seu próprio governo. Talvez nem a oposição, se fosse mais competente e comprometida com país, pudesse e ousasse tanto. 

Há uma historinha que corre na internet que nos faz pensar bem sobre o momento atual do governo Dilma.

Navegando há vários meses sem que os marujos tomassem banho ou trocassem de roupas, o que não era novidade na Marinha Mercante britânica, o navio fedia.

O Capitão chama seu Imediato:

- Mr. Simpson, o navio fede. Mande os homens trocarem de roupa!

- Yes, Sir!

Simpson reúne seus homens e diz:

- Sailors, o Capitão está se queixando do fedor a bordo e manda todos trocarem de roupa. David troque a camisa com John. John troque a sua com Peter. Peter troque a sua com Alfred. Alfred troque a sua com Fred... 

E assim prosseguiu. Quando todos tinham feito as devidas trocas, ele retorna ao Capitão e diz:

- Sir, todos já trocaram de roupa.

O Capitão, visivelmente aliviado, manda prosseguir a viagem.

Você acaba de entender exatamente o que é o Brasil no governo atual.

Dilma precisa deixar, portanto, de fazer oposição contra si mesma. Além disto ela deve ao país muitas explicações sobre o que prometeu em campanha eleitoral, e que no governo está pondo de lado. Creches, UPAs, UPPs, etc. Agora a novidade é precisar reduzir as obras da Copa para apresentar um mínimo dos mínimos em termos de organização. Fala sério, presidente. É estelionato eleitoral demais em tão pouco tempo. Ah se este governo tivesse uma oposição de verdade além da própria presidente!!!