Diego Zanchetta e Rodrigo Burgarelli
O Estado de São Paulo
Símbolo da discrepância de remunerações na Casa, Alexandre Pereira é, na verdade, assessor parlamentar do vereador Juscelino Gadelha
SÃO PAULO - Um garagista da Câmara Municipal de São Paulo não trabalha na garagem há pelo menos seis anos. Alexandre Camargo Pereira, de 37 anos, é, na verdade, assessor parlamentar do vereador Juscelino Gadelha (PSB). Segundo o site da Casa, seu salário bruto é de R$ 23.206,96 - mais que o dobro do que ganha o presidente José Police Neto (R$ 9,3 mil).
O salário dos garagistas, maior também que o dos 55 vereadores, de R$ 7,2 mil mensais, chamou atenção até do prefeito Gilberto Kassab (PSD). Um dia após a divulgação dos salários do Legislativo - a Câmara de São Paulo foi o primeiro órgão desse poder a abrir os vencimentos dos seus funcionários -, o prefeito brincou e disse que gostaria de ser garagista da Casa. Até a revista inglesa The Economist falou sobre os holerites dos servidores paulistanos, a quem apelidou de "gatos gordos".
Pereira nunca prestou concurso para trabalhar no Legislativo. Foi nomeado assessor parlamentar de Gadelha, que vai trabalhar com carro próprio e não usa motorista da Casa, em janeiro de 2005. Filho de Joaquim Nabuco Pereira, que recebeu em maio - em valores brutos - R$ 17 mil para coordenar os motoristas, ele hoje é um "faz-tudo" no gabinete de Gadelha. Ajuda tanto a descarregar caixas que chegam ao gabinete quanto na elaboração de ofícios que são enviados a secretarias municipais. "Quem trabalha na garagem é meu pai, o supervisor dos motoristas. Eu já fui motorista do Zé Eduardo (José Eduardo Martins Cardoso, atual ministro da Justiça, vereador até 2003), já fiz esse trabalho, mas agora estou no gabinete do Juscelino", confirmou Pereira nesta terça-feira, 26, ao Estado.
Segundo o vereador, Pereira foi colocado "em função errada" e seu salário real é de cerca de R$ 7 mil - ele teria recebido o salário errado de R$ 23 mil por "dois ou três meses". Gadelha diz ainda que o valor recebido a mais será devolvido aos cofres públicos, "mesmo que ele tenha de tirar a diferença "do próprio bolso".
Nesta terça, o holerite de Pereira, publicado no site da Câmara, ainda mostrava os vencimentos de maio, com salário bruto que chega a R$ 23 mil. Procurado, ele afirmou que a reportagem deveria pedir mais explicações ao chefe de gabinete de Gadelha, Edson Dominguez. "O que sei é que foi um erro do vereador. Ele não trabalha na garagem, o Juscelino nem usa motorista", admitiu Dominguez. A presidência da Casa informou que "no próximo mês haverá a atualização de dados, com o novo salário".
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Graças à Lei de Acesso à Informação ficamos sabendo que a média de salários dos servidores do Executivo Federal gira em torno de R$ 5 a 6 mil/mês. No Judiciário o valor sobe para a faixa de R$ 9 a 11 mil/mês. Já no Legislativo, talvez o metro quadrado de maior densidade demográfica de Brasília, a média gira em impressionantes R$ 15 mil/mês. Seria interessante que alguém do Legislativo tentasse justificar para o país a discrepância e o valor que é pago. Isto é um ROUBO.
Quando se desce para os Legislativos estaduais, a coisa engrossa de vez. O que vemos acima não tem justificativa que dê jeito: é caso de polícia mesmo! E não é só em São Paulo, não: isto acontece em todo o país. Ou seja, se não bastassem os políticos roubando-nos miseravelmente, ainda tem uma penca infinita de assessores de porra nenhuma ganhando salários astronômicos e para não fazerem absolutamente nada. São vagabundos assaltando o bolso da sociedade. Depois, fica fácil para estes cretinos alegarem falta de recursos para aumentarem os salários dos professores, investirem em saúde, em saneamento, em segurança, em transporte público.
É por estas e outras que não se pode consentir que despesas realizadas com dinheiro público, deixem de prestar contas, a exemplo do que ocorre, por exemplo, com os gastos com cartões corporativos na Presidência da República. Sabe-se que cerca de 90% do total gasto sequer é informado ao Tribunal de Contas, aparecendo sob o grifo "Confidencial". Gasto público secreto!!! Balela. Gasta-se em coisas que a lei determina determina ser indevida. Não existe no mundo civilizado despesa pública que não seja obrigado o servidor que a realizar, tenha ele o cargo que tiver, fazer a devida prestação de contas e esta despesa ficar à disposição para consulta pública.
Sempre que se tenta ocultar a destinação do dinheiro que é não é do servidor tampouco dos políticos, e sim do povo, acreditem, alguém está desviando, corrompendo, ou praticando algum delito.
Quanto ao motorista da reportagem, tem mais coisa que se descobriu sobre o safado. No próximo post a gente conta.