Adelson Elias Vasconcellos
Tão logo assumiu e ensaiou os primeiros passos na política externa, o governo Dilma foi louvado pelas bandas deste lado do Atlântico. A soberana condenara a ação do Irã de levar à morte uma cidadã daquele país sob a acusação de infidelidade. Seria morta a pedradas.
Observando bem o perfil da nova governante, e do novo chanceler das Relações Exteriores, escrevi aqui que preferia esperar para ver se a ação isolada de crítica, seria realmente mudança ou apenas aquilo mesmo, um ato isolado em favor de alguém do sexo feminino. Tinha sentido a afirmação feita, afinal o governo Dilma vem se caracterizando, entre outras coisas boas e ruins, por conceder maior espaço feminino na vida pública brasileira.
Fui mais longe. Deixei claro que a propalada mudança somente se concretizaria como tal SE e QUANDO a presidente condenasse a ditadura cubana, colocasse um freio de arrumação na bagunça que virou o Mercosul, e se criticasse, mesmo que veladamente, as ações totalitárias de alguns líderes latinos do tipo Hugo Chavez, Evo Morales e Cristina Kirchner.
Bem, nem foi preciso esperar muito para ver que aquela crítica ao Irã se tratava, efetivamente, de um ato isolado. Se a memória não me falha o nome da cidadã iraniana é Sakineh. Que fim levou? Ninguém sabe, e quem sabe não conta e não espalha. Mas o fato é que o governo Dilma não mudou coisíssima nenhuma na política externa destrambelhada do governo anterior. Talvez um certo afastamento em relação ao Irã, e nada muito além disso. As parcerias no continente continuam, rigorosamente, as mesmas e o o Mercosul que era para ser um bloco econômico transformou-se em um bordel de loucos desvairados, a tentar irradiar para o restante do continente a ideologia bolivariana do não menos destrambelhado Hugo Chavez.
Creio que a régua e o compasso com que se pode medir isto tudo está na questão paraguaia com o impeachment de seu presidente Fernando Lugo. Tinha esperanças de que o Brasil jamais repetiria as bobagens cometidas no caso Honduras, com a deposição – constitucional, deixo claro – de Manuel Zelaya. Apesar de não precisar acolher o presidente deposto em sua embaixada, para que de lá ele comandasse um processo de resistência – um absurdo jamais visto em nossa história – mas o comportamento do governo brasileiro seguiu rigorosamente o mesmo script, esquecendo-se por completo de que já tivemos presidente deposto e nem por isso o Brasil acabou. Pelo contrário. Fortaleceu suas instituições, a vida seguiu em frente e a economia modernizou-se,. além de amplas conquistas sociais.
No âmbito do Mercosul, sempre houve enorme pressão de Hugo Chavez para ter seu ingresso aprovado. O único país que se negava em aprovar este ingresso era o Paraguai. E o fazia não por birra ou por não se simpatizar com o beiçola. Não aprovava sob alegação – corretíssima – de atender ao que determina o Protocolo de Ushuaia que já em seu artigo primeiro deixa claro que “A plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração entre os Estados Partes do presente Protocolo”.
O senado paraguaio sempre negou o ingresso da Venezuela calcada em motivos mais que suficientes de que aquele país não respeitava as instituições democráticas, o que, aliás, é um fato amplamente conhecido.
Com a suspensão do Paraguai no Mercosul, promovida por Brasil, Argentina e Uruguai sob a alegação de que a deposição de Fernando Lugo foi um golpe, provocando uma ruptura democrática naquele país, o caminho para Chavez ficou livre e, no dia de hoje (29), a Venezuela teve seu ingresso aprovado no bloco. Que a Argentina quisesse retribuir os milhões de dólares que Chavez – fato comprovado até pelo empresário que levou a mala para Buenos Aires – contribuiu para sua campanha à presidência da Argentina, vá lá. Entre bandidos, uma mão sempre suja a outra. Agora o Brasil não poderia entrar nesta pilha histérica.
Infelizmente, se vê, a política externa do governo Dilma continua sendo a mesma patetice – para não dizer coisa pior – que a de seu antecessor. Cuba, por exemplo, recebeu a presidente de braços abertos, e esta nem condenou o regime como, de presente, ainda alargou créditos via BNDES em mais de 1,2 bilhões de dólares, para a construção de um terminal portuário, enquanto os nossos portos estão minguando e chorando por investimentos.
Já disse repetidas vezes que o Brasil não tem problema de recursos para que os investimentos governamentais aumentem a qualidade de vida do povo brasileiro. O artigo de Patrick Cruz, publicado pela Exame (leia íntegra aqui) é bem demonstrativo da ineficiência, incompetência e má gestão destes recursos. Projetos ficam anos mofando dentro de gavetas a espera de soluções burocráticas sem cabimento. Agora, com as carências do país, jogar mais de US$ 1,2 bilhões para construção de um porto em Cuba, não se justifica. Estamos financiando uma ditadura que mata, prende e tortura apenas os cidadãos por divergência de ideologia política. E este é o governo que instala uma Comissão da Verdade para investigar e punir os torturadores do regime militar? Com que moral?
O que se fez com o Paraguai segue, portanto, a linha desenhada por Lula e não se espere que o ingresso da Venezuela vá impulsionar o bloco Mercosul. Pelo contrário. Vai afastar os investidores que já perceberam as dificuldades para investirem no Brasil, e a insegurança que Chavez traz consigo de não cumprir compromissos e rasgar contratos, vai tornar estas dificuldades ainda maiores. Basta ver que a refinaria que seria construída no Pernambuco em parceira com o venezuelano, até o momento apenas o Brasil pos a mão no bolso. Sem contar as inúmeras agresões que ele comete diariamente com intervenções absurdas na economia.
Há algumas semanas, a presidente Dilma sinalizou que rezará pela mesma cartilha de Cristina Kirchner quando o assunto for economia. Agora, colocou-se a reboque da presidente argentina na questão paraguaia. Se continuar dando as mãos para estes bandolheiros, Dilma acabará matando os atrativos que o Brasil tem oferecido para investimentos internacionais. O mundo aliás, já percebeu a mudança de ventos e vem retraindo cada dia mais estes investimentos.
Se é isolamento internacional que Dilma Rousseff pretende implantar no Brasil, acreditem, o começo não poderia ser melhor. Pior para o Brasil.
É doloroso para todos nós, dada a relevante posição, a história, a economia pujante e a importância do Brasil na América do Sul, vê-lo abdicar do seu papel de protagonista para se tornar num reles coadjuvante de quinta categoria para caudilhos cucarachas. E que o governo brasileiro não se iluda: hoje, o bloco se voltou contra o Paraguai, condenando nele uma ação democrática, legal e legítima. Neste clube em que agora entra Chavez, serão todos contra o Brasil, ou será que as barreiras que a Argentina cria todo o santo dia contra os nossos produtos é sinal de amizade e cumplicidade?
Valer-se de um discurso rombudo para suspender o Paraguai, e aproveitar-se desta suspensão para admitir a Venezuela cuja entrada sempre foi negada justamente pelo Paraguai, se isto não é golpe, é porque o termo mudou de significado. Convenhamos que o governo Dilma vem se caracterizando, na política externa, por apreciar parcerias indigestas. E isto ainda vai nos custar muito caro. Tempo ao tempo.