Semana passada, de forma surpreendente, a Secretaria de Assuntos Estratégicos divulgou um estudo que, de antemão, e antes de entrar no mérito de seu conteúdo, considero uma vigarice suprema. E mais: além de ser uma vigarice, podemos qualificá-la como uma ofensa deplorável duplamente: um, ofensa à verdadeira classe média brasileira por rebaixá-la de forma ordinária a uma mistificação vil, e dois, por ofender de forma lastimável aos milhões de pobres do Brasil.
Assim, temos duas classes médias no Brasil: a do governo Dilma, que enfeita a propaganda do governo e a campanha eleitoral, mas que não passa de deslavada mentira, e a aquela que atende a nossa realidade, que todos sabemos qual é, como está construída, como age, qual a real qualidade de vida, seu poder de consumo.
Pelo estudo divulgado, teríamos:
- Classes D/E – Renda de até R$ 290,00 por mês
- Classes C - Renda de 291,00 a 1.019,00 por mês
- Classes A/B – Renda acima de 1.019,00 por mês
Há três meses atrás, mais precisamente, em 24.06., COMENTANDO A NOTÍCIA fez uma pesquisa sobre as faixas de renda da CLASSE MÉDIA, motivados que fomos por um estudo divulgado pelo economista MARCELO NERY, hoje à frente do IPEA (foi sua taxa de sucesso pelo “brilhante” trabalho), estudo este que o economista demonstrava em números o enorme crescimento da classe média brasileira, vindo de encontro à propaganda do governo petista neste sentido.
Na pesquisa e fruto dela o artigo que então postamos no blog, demonstramos que os números apresentados por Nery eram falsos. Para comprovar sua tese, ele como que espremeu o quanto as faixas de renda da classe média que, até então, seguiam os critérios adotados pelo IBGE. Para quem tiver curiosidade, pode acessar aquele matéria em sua íntegra aqui.
Antes de prosseguirmos, convém republicarmos aqui o quadro demonstrativo que integrou a pesquisa referida, que servirá de base para este novo estudo. Então, tínhamos:
Classes de Renda
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Faixa anterior
(de acordo com o IBGE
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Faixa atual
(a partir de Fevereiro/2012)
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Classe A
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Acima de R$
18.660,00
(ou + 30 salários-mínimos)
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(1) Acima de R$ 9.733,47
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(2) De R$ 6.563,73
A R$ 9.733,47
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Classe B
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De R$ 9.330,00 a
R$ 18.660,00
(ou 15 / 30 Salários Mínimos)
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(1) De R$ 3.479,36
A R$ 6.563,73
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(2) De R$ 2.012,67
A R$ 3.479,36
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Classe C
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De 3.732,00 a
R$ 9.329,00
(ou 6 / 15 salários mínimos)
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(1) De R$ 1.194,53
A R$ 2.012,67
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(2) De R$
726,26
A R$ 1.194,53
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Classe D
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De R$ 1.244, 00 a
R$ 3.731,00
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De R$ 484,97
A R$ 726,26
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Classe E
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Até R$ 1.244,00
(ou até 2 salários mínimos
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De R$ 276,70
A R$ 484,97
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Ora, se pelo entendimento de Marcelo Nery, já se praticava um vigarice, ao se considerar CLASSE MÉDIA quem recebesse um valor pouco superior a um salário mínimo – ou R$ 726,26, imagine-se neste recente estudo, agora a cargo da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, que considera piso mínimo a exorbitância de R$ 291,00 por mês!!!!???? Mas pelo menos, o economista hoje no IP)EA, tinha um senso de realidade que este estudo da SAE parece não ter: havia variáveis e gradações em cada categoria social que permitiam fazer uma leitura mais adequada da realidade de cada uma. O estudo da SAE, chefiada por Moreira Franco, não diferenças. Para ele existem apenas três estágios, e ponto final. Tenta dar uma explicação sobre o vem a ser classe média mas, ao final, parece desconhe4cer seus próprios critérios e arbitra valores fantasiosos, como tentando fazer uma conta de chegar para justificar sua tese esquizofrênica.
É claro que Moreira Franco tenta agradar a chefia, visando assim, numa provável reeleição de Dilma, preservar sua boca rica, inútil, é bem verdade, mas ainda assim, rica.
De fato, não é tão fácil, como se imagina, tentar definir o que vem a ser “classe média”. São tantas as variáveis que se deve considerar, são tão diferentes os conceitos existentes de uma país para outro, que os próprios especialistas e estudiosos, muitas vezes se confundem quando se confrontam.
Assim, nãoa dá para comparar, por exemplo, alguém de classe média nos Estados Unidos, num outro padrão em termos de qualidade vida e de renda, com o que se tem no Brasil, com padrões, comportamentos e rendas completamente distintos.
Assim, o que deve se levar em conta, ao menos no caso brasileiro, é a qualidade dos serviços que cada categoria social utiliza dentro do seu padrão de renda. Não o fato de todos poderem ter carro, celular, TV com conversor HD, assinatura de TV a cabo, refrigerador, microondas, videocassete, etc. que determina estas diferenças. Porque alguém pobre, pode sim ser motorizado, mas seu carro ou será um popular ou até um usado. Já para os ricos, o carro terá opções de preço, acessórios e até “grife” inacessíveis às demais categorias sociais em função justamente da renda menor. Da mesma, os demais bens podem até serem os mesmo na utilidade, mas a depender da faixa seus componentes e preços serão tremendamente diferenciados. E me parece ser esta a dificuldade de entendimento do senhor Moreira em sua palestra Vozes da Classe Média.
Não, os níveis de consumo não são os mesmos, e não os mesmos jamais poderia servir de base para a distinção de classes. Além do consumo, temos também serviços que, historicamente pertencem a classe média e que ficaram alijados nesta nova categoria de “classe média”, por absoluta insuficiência de renda. Nas classes médias tradicionais planos de saúde privadas, empregadas mensalistas, escola particulares para os filhos, atividades de formação complementares como clubes de dança, música, natação, dentre outros, seguros de vida, poupança, previdência privada, casa própria de melhor padrão, são itens e serviços que sempre estiveram presentes no padrão de vida da classe média.
Agora, por favor, peguem todos estes itens, consumo e serviços, e tentem colocar dentro da faixa de renda que a Secretaria de Assuntos Estratégicos estabeleceu para ver se cabe? É bom lembrar que ainda tem que sobrar algum para abastecer o carro, alimentação da família, farmácia, vestuário, além de artigos de higiene e limpeza pessoal. Talvez Moreira Franco até tivesse boa intenção na divulgação de seu estudo, afinal de contas, quem não gosta de sabe que, no mês passado era pobre, e no mês seguinte passou a classe média! Faz bem para o ego de qualquer um, não é verdade? Porém tal mudança deve seguir critérios de renda que é a base determinante para acesso ao consumo de bens e serviços.
Daí porque o critério que o IBGE até recentemente seguia, vejam no quadro lá alto, me parece muito mais preciso e realista do que tanto este do governo Dilma, quanto até o de Marcelo Nery, que até era um pouquinho mais rigoroso, mesmo que fosse irrealista e fantasioso.
Menos mal que, pelo menos parte da imprensa, criticou de forma veemente, alguns até com ironia, esta classificação do governo. Mas a crítica precisava ter sido mais retumbante, mais forte, mais incisiva, que obrigasse mesmo o governo a sentir-se envergonhado pela sua divulgação e encomendasse novo estudo.
Da forma como ficou, parece que a mentira acabou sendo aceita e não será refeita. Emoldurará a propaganda petista de mistificar conquistas que não se consumaram.
De nossa parte, sempre que possível, e entendemos ser esta nossa missão também, vamos criticar e apontar o erro brutal do conceito admitido pelo governo. Não nos parece lógico sermos omissos à empulhação e deixar que ela vingue. Até porque este tipo de engodo acaba sendo prejudicial ao próprio povo brasileiro que, sentindo-se “promovido”, mesmo que de mentirinha, acaba gastando mais do que deve, se endividando, comprometendo sua própria qualidade de vida, reduzindo-se o atendimento à necessidades até mais urgentes. Serve ainda para as categorias de menor renda sentirem-se acomodadas pela falsa ilusão de promoção social.
E se isso tudo ainda não bastasse, ainda tem um lado perverso: o da manutenção do confisco sobre o trabalho assalariado. Antes de Lula assumir em 2003, a faixa de isenção do imposto de renda ia até cinco salários mínimos, o que estava em consonância com a divisão de renda em categorias sociais. Hoje, esta faixa de isenção reduziu-se para inacreditáveis tanto quanto inadmissíveis 2,41 salários mínimos. Ou seja, na medida em que o governo rebaixa as faixas de renda da classe média, colocando nela milhões de brasileiros que não deixaram de ser pobres, aplica um garrote violento nestes mesmos milhões cobrando-lhes imposto de renda na fonte sobre seus ganhos. Se isso não se chama sacanagem não que mais sacanagem se pode cometer contra os pobres. Talvez só a péssima qualidade de serviços que. sob o governo petistas, se deterioraram visivelmente, e não perspectivas de vá melhorar no curto prazo.
Não pensem que critico o governo petista movido por razões ideológicas. Faço as críticas a partir de fatos concretos. Este estudo feito pela Secretaria Assuntos Estratégicos sobre a tal nova classe média é uma das maiores aberrações estatísticas que este país já assistiu. Só um arrematado imbecil, que tenha um mínimo de formação e informação, pode dar credibilidade a tal estudo. O governo Dilma deveria sentir-se envergonhado em divulgar esta monstruosidade. Contudo, não creio que irá fazê-lo. Para quê, se ele serve para embasar 10 anos de mentiras e mistificações que alavancam o projeto de perpetuação no poder pelos petistas?
Assim, abaixo da linha de pobreza, entendo, devem se enquadrar qualquer pessoa que receba menos de um salário mínimo por mês, portanto, pessoas ou que vivam de trabalho informal, sem registro em carteira, ou aqueles que vivem de bicos, sem ter uma renda fixa mensal. Poder-se-ia a partir daí, e até uma faixa de renda em torno de três salários mínimos mensais, enquadrar a classe pobre. A partir deste ponto, mínimo dos mínimos, é possível vislumbrar um lampejo de vida próxima à classe média. E, assim mesmo, deveríamos obedecer aos critérios históricos de baixa, média e alta classe média, indo até cerca de 10 salários mínimos. Deste ponto em diante, teríamos as classes B, que hoje representam grande parte dos profissionais liberais graduados e funcionalismo público federal de alto padrão, especialmente. Classe A somente para rendimentos superiores a 30 salários mínimos.
Dentro deste critério, acreditamos, é possível estratificarmos melhor as diferentes categorias sociais do povo brasileiro, aproximando tal classificação da nossa realidade. O aumento da classe média só pode ser aceita através do critério de aumento de renda, e nunca, repito, NUN-CA pelo rebaixamento vergonhoso de sua renda como agora faz o governo federal. Se, para o país crescer precisa, antes de tudo gerar e aumentar a geração de riquezas , para o indivíduo a regra deve ser a mesma, ou seja, sua renda deve crescer para que tenha acesso a mais consumo, mas consumo de melhor qualidade, possibilidade de acesso a mais e melhores serviços.
Nenhum país se tornou rico e desenvolvido por decreto. Nenhum indivíduo se tornou milionário recebendo como renda valores ínfimos que se assemelham muito mais a bolsa sobrevivência do que renda propriamente dita. Promovam os pobres do país sim, mas pela via do aumento e do rebaixamento de sua renda. Portanto, até prova em contrário, este é um país ainda tremendamente desiguale majoritariamente pobre. A grande riqueza que se tem produzido por aqui, e com requintes de crueldade explícita, são as mentiras que o governo Dilma conta e tenta emplacar.
Por este estudo do SAE, reparem, a renda da classe média conseguiu, segundo o governo, a proeza de ser menor, na média, do que era há dois anos atrás. Isto demonstra bem o absurdo e as mentiras deste estudo.