terça-feira, setembro 25, 2012

Governo estuda flexibilizar leis trabalhistas


Lu Aiko Otta e João Villaverde
O Estado de S. Paulo

Projeto permite que os salários e a jornada de trabalho sejam reduzidos de forma temporária em caso de dificuldades econômicas 

BRASÍLIA - Como parte da agenda para aumentar a competitividade da economia, a presidente Dilma Rousseff ensaia entrar num terreno pantanoso para um governo do PT: a flexibilização das normas trabalhistas. A Casa Civil analisa proposta de projeto de lei pelo qual trabalhadores e empresas poderão firmar acordos com normas diferentes das atuais, baseadas na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), em vigor há 69 anos.

Na prática, o projeto permite que os salários e a jornada de trabalho sejam reduzidos de forma temporária em caso de dificuldades econômicas. Ele abre caminho também para a utilização mais ampla do banco de horas, pelo qual os trabalhadores cumprem horas extras sem receber adicional, e compensam o tempo trabalhado a mais com folgas. 

Os acordos entre empregados e empresas seriam firmados por meio do Comitê Sindical de Empresa (CSE), segundo prevê o projeto de lei. As normas à margem da CLT comporiam um acordo coletivo de trabalho. 

Empresas que concordarem em reconhecer no CSE seu interlocutor e os sindicatos que aceitarem transferir ao comitê o poder sindical terão de obter uma certificação do governo. 

O papel dos sindicatos, nesse sistema, seria o de atuar nas empresas que optarem por continuar sob o "modelo CLT". Eles também selariam com as entidades patronais as convenções coletivas - por meio das quais empregados e patrões definem, anualmente, aumentos salariais. Todos os membros do CSE terão de ser sindicalizados. 

A proposta em análise foi elaborada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, baseada no modelo alemão. O texto foi entregue ao ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Recentemente, a Casa Civil, que auxilia Dilma na elaboração de normas legais, pediu para analisar o projeto. 

Ainda não está certo se o governo adotará o projeto como seu e o enviará ao Congresso. A presidente costuma pedir análises detalhadas dos projetos que considera interessantes, para depois decidir se os levará adiante ou não. Para colher mais subsídios, um grupo deverá ir à Alemanha nas próximas semanas. 

Na Alemanha, boa parte da indústria e dos sindicatos concordaram em reduzir a jornada de trabalho e os salários, em caráter excepcional e com prazo de validade, para permitir que a economia atravessasse a crise sem falências ou demissões. "Formaram um pacto nacional, que só foi possível do ponto de vista legal porque as leis lá são flexíveis", diz uma fonte graduada da equipe econômica do governo.

O projeto é visto com simpatia no Palácio do Planalto e, principalmente, no Ministério da Fazenda. Chegou a ser citado pelo secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, em palestra na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, como parte da agenda do governo.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Fosse este anúncio produzido por um governo de oposição ao PT, e muito provavelmente sindicalista já estariam na rua batendo bumbo, os petistas estariam pondo a boca no trombone e a imprensa chapa branca estaria mancheteando palavras de ordem contra a suposta medida. 

Mesmo assim, mesmo com aparente calma, vamos o que de fato será mexido e qual será a reação dos sindicalistas. O incrível é que diante do anúncio, e mais uma vez jogando sua chance no lixo, não ouve um pio da oposição. 

De qualquer modo, há aspectos que precisam ser modernizados na legislação trabalhista. Não se trata de eliminar direitos conquistados ao longo de décadas, mas acabar por exemplo com alguns privilégios que não cabem mais, além de permitir maior flexibilidade nas negociações diretas entre patrões e empregados.  Há um excesso, e desnecessário, paternalismo do Estado nesta questão. Os empregados já têm seus sindicatos para protegê-los, não precisam que o Estado se meta a babá em nome de coisa alguma, a não ser praticar uma politicagem caolha e prejudicial.