O Globo
Com Agências Internacionais
Candidato da oposição teve que pegar um barco para dar continuidade à agenda
AFP
Homens jogam pedras antes da chegada do candidato
opositor Henrique Capriles em Puerto Cabello
PUERTO CABELLO, Venezuela — Três dias depois de cancelar um comício alegando ameaça de grupos armados, o candidato da oposição na Venezuela, Henrique Capriles, foi impedido de chegar ao aeroporto de Puerto Cabello , no Norte do país. Apoiadores da candidatura opositora e partidários do presidente Hugo Chávez entraram em confronto, usando pedras e coquetéis molotov, deixando ao menos 14 pessoas feridas. Uma caminhonete de campanha da oposição foi incendiada.
As agressões ocorreram nas proximidades do terminal, onde Capriles era esperado por seus partidários. Segundo o candidato da oposição à prefeitura da cidade, Ylidio Abreu, simpatizantes de Chávez chegaram ao local para amedrontar os adversários e partiram para a agressão. Os acessos ao local também teriam sido fechados por caminhões.
A imprensa oficial culpa os oposicionistas. O canal VTV acusa “vândalos” de agredirem militantes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a legenda de Chávez, e contabiliza 25 feridos - a polícia de Carabobo, estado governado pela oposição, fala em 14 lesionados. O prefeito da cidade, o governista Rafael Lacava, afirma que a ação foi organizada por “grupos violentos” que atuaram na tentativa de golpe contra o presidente em 2002, e que seriam comandados pelo governador do estado, Henrique Salas Feo.
- É um preâmbulo de que não vão aceitar o resultado da eleição - disse. - Fomos atacados por um grupo avançado, que ele (Capriles) sempre manda à sua frente quando realiza esse tipo de evento.
Capriles, que chegou à cidade de barco, culpou diretamente o presidente.
- Essas ações não são espontâneas. Há um responsável, há um candidato que está há 14 anos no poder. É você que quer esse cenário, que quer semear medo e quer que os venezuelanos sigam se enfrentando uns aos outros.
Retórica violenta
Em busca da terceira reeleição, Chávez lidera a maioria das pesquisas de intenção de voto - a respeitada Datanálisis lhe dá 12,5 pontos de vantagem. Nas últimas semanas, entretanto, Capriles vem registrando avanços e alguns levantamentos o colocam ligeiramente à frente. O presidente tem endurecido o discurso e recorrido a uma retórica violenta. No domingo, numa mensagem aos ricos do país, alertou para o risco de uma “guerra civil” caso não saia vitorioso.
No último domingo, Capriles cancelou um comício em Caracas diante da ameaça de boicote por parte de simpatizantes armados do governo. Segundo ele, policiais lhe escreveram dizendo terem recebido ordens “de pessoas violentas do partido (PSUV)”.
O candidato da oposição diz que também foi avisado, na noite de terça-feira, sobre a possibilidade de violência no evento em Puerto Cabello.
- Corriam rumores de que haveria problemas, de que tomariam o aeroporto.
Abreu, o candidato à prefeitura, ressaltou que os membros da Guarda Nacional não intervieram no confronto, apesar de esse ter ocorrido em frente a um destacamento da corporação. Segundo a TV Globovisión, Capriles contou ter recebido mensagens de membros das Forças Armadas que contavam ter recebido orientações de não intervir.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Mesmo que perca a re-re-reeleição, não acredito que Chavez vá passar o bastão para Capriles. A começar por entender que a eleição corre sério risco de ser fraudada em seu resultado final. Chavez detém o controle do Estado e já deve ter armado a estratégia para que o resultado lhe seja favorável, independente do que disserem as urnas.
E, mesmo que perca e aceite transferir o poder, Capriles terá que enfrentar um Chavez mordido na oposição, onde não poupará esforços para sabotar o governo do adversário. Portanto, vale o alerta feito aqui há algumas semanas: o governo brasileiro deve se manter em alerta máximo para um provável risco de instabilidade política no continente.
