José Paulo Kupfer
O Estado de S.Paulo
Não há mais muitas dúvidas de que a economia brasileira se encontra numa etapa de transição. É só observar a curva do crescimento econômico trimestral para visualizar esse fato. O nível de atividades está saindo de um ciclo de baixa, relativamente longo, que começou no primeiro trimestre de 2010 e se estendeu até o primeiro trimestre de 2012. Agora, parece ter iniciado um movimento de reversão, de moderada intensidade e chances de se prolongar por algum tempo.
É justamente neste momento peculiar que a economia doméstica está sendo sacudida por estímulos fiscais e monetários de variada abrangência e intensidade. Alguns, como as reduções de IPI para bens duráveis e material de construção, são de fôlego mais curto e caráter conjuntural. Mas, outros, como a redução dos juros básicos e a desvalorização cambial, são de natureza mais estrutural e com potencial para revirar alguns modelos de produção construídos exatamente para tirar vantagem de juros altos ou câmbio valorizado.
Os juros básicos vêm sendo derrubados há um ano, já acumularam cortes de 5 pontos porcentuais e, mesmo que ocorram repiques em futuro próximo, dissemina-se a convicção de que uma taxa real inferior a 3% ao ano veio para ficar. Do mesmo modo, a taxa de câmbio, pouco acima de R$ 1,50 por dólar também há um ano, parece ter encontrado, com a ajuda de intervenções do Banco Central, um ponto de ancoragem em torno de R$ 2 por dólar.
São mudanças com óbvio impacto nas cadeias de produção, ainda não detectadas com nitidez pela maior parte dos sismógrafos econômicos. Até porque alguns desses equipamentos não foram ainda calibrados para captar as novidades.
Sistemas de medição fora do ponto podem induzir analistas a considerar como erros de diagnóstico, que levariam a resultados negativos, o que pode ser o começo de um promissor novo tempo. Fenômeno semelhante ocorreu com o fim do descontrole inflacionário e as profundas mudanças advindas do Plano Real.
É natural que, numa primeira etapa, como no Plano Real e a inflação, a reversão do ambiente de juros altos e câmbio valorizado produza choques e perdas. A economista Zeina Latif, experiente analista de conjuntura, recentemente, chamou a atenção para o fato de que a indústria tem perdido com a redução dos juros. Parece um contrassenso, mas faz todo o sentido.
Sim, historicamente, para se defender dos juros altos, o setor trabalha com caixa elevado, muito acima do padrão internacional. Trata-se de uma defesa para compensar, com ganhos em aplicações financeiras, os custos de produção inflados pelos altos juros. Com juros mais normais, no entanto, é de se supor que, aos poucos, as fábricas aproveitarão os custos menores para se reorganizar e buscar eficiência no que de fato produzem.
Não está sendo diferente com os impactos de um câmbio mais desvalorizado. Empresas com dívidas antes "baratas" em dólar têm sido negativamente afetadas. Idem para as que passaram a importar mais do que seria conveniente, relaxando na eficiência e produtividade internas, para aproveitar os preços "baixos" dos produtos importados.
Mesmo aquelas empresas que não podem escapar de importações terão, com o tempo, de reequilibrar os processos produtivos, podendo aproveitar oportunidades que, fatalmente, se abrirão no mercado doméstico.
Até os bancos, campeões de rentabilidade com os juros altos, diante das perdas dos últimos trimestres, já descobriram que não é mais possível viver na sombra e na água fresca dos certificados de depósito interbancários (CDI) e da zona de conforto exclusiva dos papéis de renda fixa flutuante.
A novíssima palavra de ordem no setor, com a redução de margens e receitas, é eficiência - o que, pelo menos nas comparações internacionais, sempre faltou às instituições brasileiras.
A defasagem de tempo entre a adoção das medidas e a disseminação de seus efeitos pela economia conspira contra os impacientes. Reconhecer que a economia brasileira encontra-se numa etapa de transição é, nas atuais circunstâncias, parte relevante do roteiro para análises mais sintonizadas com a realidade "invisível" do momento e, principalmente, para projetar com mais probabilidade de acerto o futuro de médio prazo.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A preocupação que nasce, não apenas a partir da análise feita pelo Kupfer, mas de modo geral de todas as medidas que vem sndo adotadas e implentadas pelo governo federal é o enorme impacto que elas terão nas contas públicos. Não se pode negar, por exemplo, que Dilma Roussseff enterrrou toda a política positiva em relação ao etanol, com a política de subsidiar via congelamento de preços da Petrobrás, a variação dos preços dos combustíveis. A Petrobrás perdeu terreno, sua ações se desvalorizam em cerca de 1/3 der seu valor de mercado, além de obrigar a o mpanhia a rever investimentos e o país em aumentar bruscamente suas importsação de óleo.
Também no seu pacto de ferrovias e rodovias. Poder, há um enorme custo embutido que pesará nas arcas do Tesouro. O governo comprará a capacidade de carga disponível e a redistribuirá, inflando outro enro em subsídio a ser bancado pela União. Se o trem bala entrar nos trilhos, ali teremos outro milionário suporte a ser degustado pelo Tesouro. Agora, em seu pacote de energia, mais uma vez a diferença entre o que era cobrará pelas concessionárias e corte promovido nas tarifas, novamente o Tesouro arcará com a milionária diferença.
De outro lado, no recente pacote previdenciário para o funcionalismo, mais uma vez empurrou-se para daqui, o início da curva descendente do estrondoso déficit. Até lá, fica do jeito que está.
Claro que não podemos esquecer os enormes subsídios que são concedidos já há algum tempo, via bolsa BNDES, para algumas privilegiadas atividades de amigos do reino, em retribuição a sua colaborações “espontâneas” para o caixa do partido.
Senhores, não é preciso ser exímio matemático para entender que isto tudo tem um enorme custo para o país, e uma influência direta sobre o equilíbrio das contas públicas. Está-se se retirando do orçamento nacos importantes de recursos que, de outro modo, seriam revertidos para investimentos. Trata-se de uma política de alto risco: estamos jogando para o futuro uma expectativa de tudo dará certo, sem levar em conta a dinâmica da economia, e os muitos fatores que podem, inesperadamente, mudar o curso dos acontecimentos. Estamos trocando as reformas estruturantes por medidas arriscadas com impacto direto no futuro do próprio país. Se der certo, seguiremos em frente, sem ao menos ter a certeza de que o crescimento se tornará sustentável. Se der errado, bem neste caso, teremos o caos, porque teremos jogado no lixo o enorme esforço despendido pelo país em quase duas décadas de sacrifícios e trabalho.
Resta-nos torcer, e principalmente, rezar. Rezar muito.