Adriano Pires
O Globo
O primeiro efeito:
No dia seguinte à divulgação do pacote que antecipou a renovação das concessões, o mercado financeiro mostrou, através da queda dos preços das ações, que a rentabilidade das empresas do setor deverá ser fortemente impactada. A queda foi generalizada, sendo liderada pelas ações da CESP, cuja queda chegou a quase 30%. A Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) teve seu valor de mercado reduzido em 24%, enquanto as ações da Cemig caíram 19,7%. A má recepção do mercado derivou da “quebra de contrato”, que antecipou para 2013 a renovação das concessões, com tarifas mais baixas, reduzindo as receitas esperadas para os próximos 2 anos, e da incerteza quanto ao valor das indenizações. De acordo com informações preliminares do próprio Governo, apenas dez usinas hidroelétricas de maior porte com concessões a vencer entre 2015 e 2017 não tiveram seus investimentos totalmente amortizados. Do total a ser amortizado, 74% devem ser destinados à Chesf, subsidiária da Eletrobras. Ademais, está aberto o caminho para longas contestações judiciais.
A reação do mercado é importante porque mostra que a perspectiva de rentabilidade das empresas é preocupante, o que com certeza comprometerá os investimentos do setor. Com volume menor de investimentos, teremos queda na qualidade do serviço e diminuição na garantia de fornecimento dos serviços de energia elétrica.
O segundo efeito:
Ontem, além das ações do setor elétrico, o mercado penalizou as ações dos demais setores ligados a concessões de serviços públicos como saneamento e rodovias. Houve quedas significativas das ações de companhias como CCR, Sabesp e ALL.
Todos nós, inclusive os agentes do mercado financeiro, estamos assistindo ao aumento brutal da intervenção estatal na economia. Já estávamos até acostumados com os desmandos do Governo no setor de petróleo e na Petrobras. No entanto, o novo pacote do setor elétrico mostrou que a truculência pode avançar para outros setores, o que certamente aumenta o risco político e vai impactar a atratividade do Brasil como oportunidade de investimento.
O resultado de tudo isso nós já conhecemos. Desinvestimentos, piora na qualidade do serviço, aumento do custo Brasil, elevação do déficit público e inflação. Já vimos esse filme.