Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa
Existem no Brasil duzentos milhões de técnicos de futebol, duzentos milhões de especialistas em Fórmula 1, duzentos milhões de juristas altamente preparados para analisar complexos casos de utilização de dinheiro público. Os dez ministros do Supremo - que, de uma ou outra forma, estão na lista dos principais operadores do Direito no país - são avaliados o tempo inteiro por pessoas (inclusive, e especialmente, jornalistas) cuja principal ferramenta é o partidarismo. Trata-se a nata dos juízes de Direito, escolhidos pelo presidente da República e referendados pelo Senado para ocupar cadeiras na principal Corte do país, como se juízes de futebol fossem, submetidos aos gritos da torcida nos estádios. "Ei, juiz, vá - e seguem-se os insultos de praxe.
Quem, fora os ministros do Supremo e os advogados dos réus, leu as 50 mil páginas dos processos? E, mais do que lê-las, estudou-as, colocou-as à luz das leis e da jurisprudência, buscou novas interpretações legais possíveis? Na opinião deste colunista, ninguém, ou quase ninguém, exceto os diretamente interessados no julgamento do Mensalão. Como no futebol, poucos estão mesmo interessados na exata aplicação das 17 regras do jogo. A coisa é bem mais simples. Se marcou a nosso favor, o juiz está certo; se favoreceu o adversário, está errado.
Casos como o Mensalão, no entanto, são de grande complexidade, e não cabem dentro da histeria partidária. Vamos a uma história ocorrida no Exterior, há mais de 50 anos, e a duas interpretações possíveis (haverá certamente outras), apenas para exemplificar como é possível ver o mesmo fato por ângulos opostos.
No livro 20 cartas a uma amiga, Svetlana Stalina, filha do todo-poderoso Stalin, cujo poder pessoal moldou a União Soviética, conta uma história singular. Após a morte do pai, recebeu, entre seus objetos pessoais, dezenas de envelopes de pagamento, fechados, intactos. Stalin recebia seu salário do Governo soviético em dinheiro, como era normal na época. Jogava os envelopes na gaveta e se esquecia deles. Agora, as duas possibilidades:
1 - Os envelopes fechados comprovavam que Stalin, fossem quais fossem seus defeitos, não dava importância a dinheiro nem buscava enriquecimento pessoal. Sua honestidade em questões econômicas era absoluta e inatacável.
2 - Os envelopes fechados comprovavam que Stalin parasitava o Estado.
Tudo o que quisesse lhe era fornecido diretamente, sem jornalistas chatos querendo saber se aquilo seria ou não útil à população, sem discussões - da roupa às refeições, da boa vodca ao melhor caviar do mundo, do carro oficial a um jato civil ou militar de última geração, se o desejasse. O salário era desnecessário: que é que iria fazer com aquele parco dinheiro?
Dá para discutir muito tempo - e não é este colunista, que não entende nada de leis e utiliza seu partidarismo, de maneira confessa, em futebol (o que é bom para o Corinthians é certo, o que não é bom é errado), que irá debater o tema. Como também não é possível para qualquer pessoa leiga e desconhecedora dos autos discutir as decisões sobre o Mensalão, processo que foi analisado durante sete anos por ministros do Supremo Tribunal Federal - e, por uma questão de destino, um grupo de ministros em que a grande maioria foi escolhida pelos governos mais atingidos pelo julgamento.
No caso, ou se conhece Direito e se estudou o processo, ou resta apenas aceitar sem choro nem vela a decisão de quem os conhece. Pode-se lamentar, pode-se ficar triste, pode-se ficar contente, pode-se comemorar (se bem que comemorar a perda de liberdade de alguém seja extremamente difícil). Mas, para discutir, é preciso mais do que disposição de falar bobagem e carteirinha de partido político.
O limite do ódio
O debate público sobre o julgamento do Mensalão há muito extrapolou os limites do bom-senso. Houve insultos racistas em blogs e nas "mídias sociais" ao ministro Joaquim Barbosa, houve arremedos ridículos de análise psicológica; os ministros Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, mais propensos à brandura no tratamento do caso, foram insultados nos mesmos meios de comunicação, atribuindo-se sua posição à escolha por Governos petistas.
Só se esqueceu uma peculiaridade: o ministro Joaquim Barbosa também foi nomeado por um Governo petista, e dos dez ministros que hoje atuam sete foram escolhidos por Lula e Dilma.
Falando bobagem
A exacerbação dos sentimentos chegou a tal ponto que o normalmente cordato José Genoíno acusou a imprensa de torturá-lo, da mesma maneira que os torturadores da ditadura, só trocando o pau de arara pela caneta. Besteira, e ele sabe disso - ou, se não sabe, estará confirmando histórias que andaram circulando a seu respeito e em que as pessoas que o conhecem sempre se recusaram a acreditar. Tensão é uma coisa; insulto a profissionais que sempre o respeitaram é outra.
O advogado do PT em Goiás, Sebastião Juruna, foi mais longe: disse que "jornalista bom é jornalista morto". A frase é infeliz em si; é infeliz num momento em que, no Brasil, cresce a matança de jornalistas (em 30 profissionais assassinados em todo o continente, sete são brasileiros); é humor de péssima qualidade, tão ruim que Juruna fez questão de repetir, várias vezes, que aquilo era uma piada. "Tem de ter espírito humorístico", repisou. "Era sacanagem. Sou da Comissão de Direitos Humanos da OAB".
Engraçado, né? A Líbia já fez parte da Comissão de Direitos Humanos da ONU.