terça-feira, outubro 02, 2012

Prejuízo bilionário das aéreas faz governo acender 'luz amarela'


Breno Costa
Folha de São Paulo

Os prejuízos registrados por companhias aéreas neste ano fizeram acender a "luz amarela" para o governo federal. O receio refere-se aos impactos que os resultados negativos possam ter sobre os preços de passagens e a saúde financeira das empresas.

A preocupação foi externada pela ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, a representantes do setor de turismo durante reunião fechada no Palácio do Planalto anteontem.

Estavam presentes representantes de associações, entre elas, a recém-criada Abear (Associação Brasileira das Companhias Aéreas).

Durante o encontro, um dos presentes citou o prejuízo bilionário registrado pelas companhias Gol e TAM no segundo trimestre deste ano --juntas, duas registraram perdas de R$ 1,6 bilhão-- e disse que "luzes vermelhas" deveriam ser acesas por conta desses resultados.

Gleisi admitiu, então, que essa era uma preocupação do governo e que a "luz amarela" estava acesa.

A ministra, na reunião, afirmou: "A questão da aviação comercial também é algo que nos preocupa, acendeu a luz amarela. Nós temos que conversar muito com aqueles moços ali, para ver o que está acontecendo, porque é uma concessão, um serviço público concedido. É o direito de ir e vir das pessoas".

"Eu nunca vi o governo manifestar preocupação antes. Espero que não seja só discurso, senão poderá ser tarde demais", diz a diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio.

Entre os presentes na reunião, estava o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz. À Folha ele admitiu que as "perspectivas são negativas" para os números dos próximos trimestres.

Contudo, afirmou que as companhias "não pretendem" aumentar os preços das passagens aéreas. No lançamento da Abear, em agosto, os presidentes da TAM e da Gol disseram que a tendência era de aumento nos preços.

A Casa Civil, em nota, disse que a preocupação mencionada na reunião "diz respeito à garantia e qualidade da prestação de serviços por parte das empresas aéreas à população".

O órgão afirma que "cobrará medidas que devem ser tomadas pelas companhias para eficiência de sua gestão".

A pasta não menciona no documento ações do governo para reduzir o custo dos combustíveis e o das tarifas de aeronavegação --mencionados pelas aéreas como responsáveis por parte do prejuízo.

A Casa Civil citou a recente desoneração da folha de pagamento das empresas como uma medida para conter a sangria das aéreas, mas a Abrae diz que a medida não é suficiente.

Do prejuízo de R$ 1,6 bilhão, o alívio sobre a folha cobre apenas R$ 300 milhões, segundo Sanovicz.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Há pelo menos três anos o blog vem denunciando e alertando as autoridades sobre o resultado danoso que provocaria a política de concorrência predatória, praticado especialmente pela GOL, mas também pela TAM, oferecendo tarifas abaixo do custo.

Isto, num cenário de crise, é o caminho certo para a degola. Nem o governo federal, tampouco a ANAC, se importaram com as consequências daquela política, uma vez que ela se ajustava ao projeto político do PT. O crescimento da demanda pelo transporte aéreo representava maior crescimento com distribuição de renda.  Contudo, o artificialismo de tal “resultado” não resiste, como não está resistindo,  sem que as empresas encontrem meios de se capitalizarem. 

Praticando preçinhos promocionais, numa empresa que, apenas em 2011, acumulou um rombo de R$ 750 milhões, é suicídio. A TAM, se bem que em valor menor, amarga um prejuízo vultuoso.

Este tipo de política predatória se, de um lado, derruba e afasta a concorrência, concorrendo para a formação de monopólios e oligopólios, sempre há de cobrar um alto preço. Deveriam as autoridades ter alertado tanto a GOL e a TAM evitasse tais políticas, pois acabariam ambas queimando suas gorduras, até o ponto de atingirem alto grau de endividamento, ficando sem capacidade de renovar sua frota, por exemplo. 

 Não dá para esconder que a saúde da GOL, foi seriamente comprometida com os tais precinhos promocionais. O resultado é uma inevitável venda de uma fatia da empresa rumo à sobrevivência. E tenham em conta que a política de combustíveis do governo Dilma coloca em favor das companhias aéreas um enorme subsídio que,  retirado, tornaria a situação da GOL insustentável. Isto provocaria duas consequências imediatas: forte elevação das tarifas, o que em parte reduziria o número de passageiros, e a busca desesperada de um investidor capaz de oxigenar as finanças da companhia.

Assim, esta tal “lua amarela” está acendendo muito tarde. Ela já deveria estar piscando, de forma intermitente, há pelos menos dois ou três anos, justamente que o setor aéreo pudesse se manter saudável. Claro que isto obrigaria a prática de tarifas mais elevadas e consequente redução no número de passageiros, contrariando a propaganda oficial do partido no poder.

Fica claro, deste modo, que o governo petista não tem como objetivo o benefício do país, e sim sua sustentação no poder, mesmo que precise sacrificar os interesses nacionais.  

Vamos aguardar para conhecer quais medidas serão adotadas pelo governo Dilma. Conceder linhas de crédito especiais e subsidiadas é o pior dos mundos, porque jogará o problema para frente, sem combatê-lo e dar-lhe solução definitiva.  Portanto, que a direção da GOL adota uma política de preços realista, ponha um ponto final neste suicídio de preços abaixo do custo.

Se houver gordura para queimar, faça-o, mas sem comprometer a receita necessária para a amortização de seu elevado prejuízo. O Brasil precisa entender que o custo do transporte aéreo é elevado por natureza. Assim, não dá para “facilitar” seu uso por pessoas com baixa renda, e utilizar este instrumento como política de governo.  O melhor caminho é incentivar o crescimento econômico capaz de elevar a renda das pessoas, permitindo-lhes usar o transporte aéreo de maneira natural, sem subsídios de qualquer espécie. 

Praticar “política social” a custa de se sacrificar a saúde econômica e financeira das empresas do setor, vai quebrar todo mundo, criando um desequilíbrio tal de difícil arrumação.  Já chega a desarrumação provocada pelo governo Lula, em seus dois mandatos e que Dilma tem dado continuidade, na Petrobrás.