Deborah Berlinck
O Globo
Afrouxamento nos EUA não apreciou real, diz banco
GENEBRA — Um relatório do Banco de Compensações Internacionais (BCI) — espécie de banco central dos bancos centrais — derruba a tese do governo brasileiro de que o afrouxamento das políticas monetárias nas economias avançadas — em especial, nos Estados Unidos — é a causa da apreciação das moedas nos países emergentes. Para o BCI, a valorização do dólar desde setembro frente à várias moedas emergentes, apesar de mais relaxamento monetário nos países ricos, demonstra o contrário.
— O afrouxamento de políticas monetárias nas economias avançadas criou expectativas que o capital iria fluir para economias emergentes, causando valorização de suas moedas. Quando isso aconteceu, em novembro de 2010 e junho de 2012, o dólar caiu mais de 5%. Mas desta vez o dólar valorizou nos últimos três meses frente a várias moedas de mercados emergentes e nas transações de comércio — argumenta o BCI.
O banco cita dois motivos para o dólar ter ganho força frente às moedas emergentes nos últimos meses. Um foi a perspectiva de menor crescimento econômico nos países emergentes, que levou alguns, como o Brasil, a baixar suas taxas de juros para estimular o crescimento.
— As perspectivas menores de crescimento nos mercados emergentes explicam, parcialmente, porque estas moedas e os fluxos de capital reagiram de maneira diferente — diz o relatório.
Ou seja: com menor crescimento e juros mais baixos, emergentes também passaram a atrair menos capital externo. Outro motivo foi o fato de que várias economias emergentes adotaram políticas para impedir a valorização de suas moedas. O relatório destaca, em particular, as intervenções no câmbio feitas pelo Banco Central brasileiro.
— O banco central brasileiro interveio no mercado de moedas estrangeiras e os operadores de câmbio tiveram a impressão que outros bancos centrais na América Latina e no leste da Asia também entraram em ação — diz o BCI.
Outros emergentes também reagiram. A Republica Tcheca ameaçou intervir no mercado. E a Coréia do Sul apertou o cerco contra derivativos.
— Todas estas medidas foram associadas a maior estabilidade no valor das moedas — concluiu o BCI.
O dólar além disso, ganhou força frente às moedas emergentes apesar de o Fed ter anunciado que manterá sua política de juros excepcionalmente baixas até meados de 2015, mesmo no caso de a economia americana se fortalecer até lá. O conclusão do BIS, portanto, vai na direção contraria do governo brasileiro. No que chamou de “guerra cambial”, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, argumentou que países ricos, para enfrentar suas crises, estão “emitindo dinheiro”. Isso, segundo ele, desequilibra o câmbio e provoca a valorização artificial nas moedas dos países emergentes. Num discurso na Assembléia Geral da ONU, em setembro, a presidente Dilma Rousseff martelou esta tese do governo, de que a culpa da valorização do real é dos países ricos.
— Os Bancos Centrais dos países desenvolvidos persistem em uma política monetária expansionista que desequilibra as taxas de câmbio. Com isso, os países emergentes perdem mercado devido à valorização artificial de suas moedas, o que agrava ainda mais o quadro recessivo global — disse Dilma.
O relatório do BCI apresenta também o estudo de três autores, que mostram que a crise na zona do euro provocou uma redução drástica nos empréstimos dos bancos europeus aos países emergentes durante a segunda metade de 2011. O principal motivo seria a deterioração da situação dos bancos no continente. Mas em contraste com emergentes da Ásia ou da Europa do leste, a América Latina sofreu apenas uma “modesta desaceleração do crescimento de empréstimos” neste período.