quarta-feira, abril 24, 2013

A Omissão do Itamaraty


Rodrigo Cardoso
Revista ISTOÉ

Com o trabalho de um novo advogado, a situação dos corintianos presos há dois meses na Bolívia pode começar a mudar. Isso comprova a inoperância da nossa diplomacia

Os 12 brasileiros presos desde 20 de fevereiro em Oruro, na Bolívia, acusados da morte do jovem boliviano Kevin Espada, atingido por um sinalizador na partida entre San José e Corinthians, tiveram um sopro de esperança na quarta-feira 17. Em uma inspeção realizada no estádio Jesús Bermúdez, palco da partida, eles, enfim, viram a dúvida ser plantada na mente das autoridades bolivianas que apuram o caso. “Pode-se dizer que a investigação só começou agora, dois meses depois, porque a embaixada brasileira não colaborou com seus conterrâneos desde o início do caso”, afirma o advogado Sérgio Marques, que, como integrante da nova defesa dos brasileiros, se mudou para Oruro há 20 dias para tentar pôr fim à lentidão na apuração dos fatos.

Foto: STR/AFP Photo
O RETORNO
Brasileiros chegam ao estádio da tragédia, na Bolívia, sob forte escolta,
para uma inspeção: recomeço da investigação

Na inspeção no Jesús Bermúdez, quando os fatos foram apresentados no local, Marques defendeu as hipóteses de que o artefato que atingiu Espada pode não ter sido o lançado pelo menor H. A. M., autor confesso do disparo do sinalizador. Segundo o advogado , o jovem boliviano pode ter sido morto antes do início da partida. Se essas teses forem plausíveis – isso será divulgado nesta semana –, poderá ficar mais evidente que os 12 brasileiros foram vítimas de uma armadilha engendrada pelas autoridades bolivianas. E, pior, sucumbiram a ela pela falta de assistência diplomática brasileira na Bolívia. Levados à delegacia e lá interrogados, os torcedores assinaram seus depoimentos sem contar com o auxílio de um tradutor. Reclamam, desde o início, que muitas informações que constam do documento não foram ditas por eles. Outro fato que dá esperanças aos presos é a vinda ao País de um promotor boliviano para ouvir o adolescente H.A.M., o que foi acertado durante a visita do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo à Bolívia, na semana passada.

A inspeção no estádio demorou dois meses para acontecer. Graças a ela, passou a constar em ata que cinco dos 12 brasileiros disseram não estar nem sequer dentro do Jesús Bermúdez quando o sinalizador foi lançado. Mas essa e outras informações, que podem abalar a convicção das autoridades bolivianas sobre a culpa dos detidos, poderiam continuar desconhecidas, porque, de acordo com os advogados de defesa, a embaixada brasileira queria que o exame no estádio fosse cancelado. “Falei com o ministro Eduardo Saboia, da embaixada, depois de conseguir reverter o quadro. Ele me disse que estava cumprindo ordens superiores. Que história é essa?”, diz Marques. “As coisas agora estão andando porque esse serviço sujo, político, cheio de interesses pessoais da embaixada não está mais no comando.”

A embaixada, situada em La Paz, nega que tenha pedido cancelamento da inspeção e argumenta que nenhum diplomata esteve na delegacia, porque o governo boliviano não avisou a chancelaria brasileira. O ministro Saboia afirma ainda que chegou a comprar colchões para os torcedores e que foi até o presídio, certa vez, para retirar seis dos 12 presos que se encontravam cumprindo um castigo no calabouço. Marques, o advogado dos brasileiros, entrou com uma medida cautelar na Corte Interamericana de Direitos Humanos, requerendo a soltura dos seus clientes. Algo que até agora não havia sido feito pelos diplomatas brasileiros.