Bruno Villas Bôas
O Globo
Ciclo de correção já dura 15 semanas, segundo relatório do HSBC
Ibovespa tem o pior desempenho das principais Bolsas globais, diz banco
RIO - A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) passa este ano por sua mais longa crise da história, com duração de 15 semanas, segundo um estudo elaborado pela área de pesquisa banco HSBC. É a mais longa, mas não a mais profunda: nesse período, o mercado brasileiro recuou 16%, contra uma média de queda de 22% nas correções anteriores. “Correção” é como o mercado chama momentos em que as ações caem mais de 15% em um curto período de tempo. Isso pode acontecer por variados motivos. É diferente do chamado “mercado de urso”, mais grave, como ocorreu na quebra da Bolsa de Nova York em 1929 e na crise financeira internacional de 2008.
Foram 19 “correções” ao longo dos últimos 20 anos. No relatório, assinado por quatro analistas, o banco avalia que esta correção, diferentemente das outras, tem sido guiada mais por preocupações com as políticas internas brasileiras do que por volatilidade externa. A segunda mais longa durou 14 semanas e aconteceu em 1999, ano da maxidesvalorização do real.
Segundo o HSBC, o Ibovespa, índice de referência da Bovespa, tem o pior desempenho das principais Bolsas globais. O Ibovespa recua 12% no ano, mais do que a média de mercados de países emergentes (queda de 4%) e de países desenvolvidos (alta de 7%). O banco cita entre as razões a “estagflação” do país, ou seja, inflação elevada com baixo crescimento, além do intervencionismo do governo e incertezas sobre o crescimento da China.
O banco, no entanto, passa uma mensagem positiva. Em tese, três quartos da queda média histórica da Bolsa já aconteceram. E a média de recuperação do mercado brasileiro, após o período de correção do preço das ações, costuma ser de 26%, pela média histórica dos últimos 20 anos. Isso, segundo o banco, sugere uma oportunidades de compra de ações na Bolsa.
Mas, claro, que nada garante que a queda não vai se aprofundar nos próximos meses. O banco pondera que houve quatro “quebras” (crash) da Bolsa nos últimos 20 anos, ou seja, períodos de queda de mais de 40% do índice. Nesse caso, se uma nova “quebra” ocorrer, o mercado brasileiro estaria agora apenas na “metade do caminho” das perdas com ações.
“Nós não vemos um ‘crash’ da Bolsa, porque o sentimento do mercado já está muito baixo, os ganhos achatados, e a economia está se recuperando, e a alta dos juros pode reduzir o temor com a política”, avaliam os analistas Ben Laidler, Alexandre Gartner, Juan Mateos, Francisco Schumacher, no relatório.
Sete ações brasileiras recuaram mais de 20% neste ano, mais do que as perdas do Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro. O banco cita papéis como Eletropaulo, CSN, Brookfield, MRV, Rossi, Bradespar e Vale.
Hersz Ferman, gestor da Yield Capital, lembra que nos últimos 20 anos o Brasil passou por diferentes períodos de crise. Entre 1997 e 2002, por exemplo, o mercado enfrentou crises como da Ásia, da Rússia, a bolha da internet, e a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
— Foram nove períodos de correção pré-2003. Dessas, em apenas três o retorno nos 12 meses seguintes foi positivo. Mas, depois de 2003, das oito correções do mercado, sem contar essa última, em apenas uma o retorno nos 12 meses seguintes foi negativo. Isso tem a ver com o ambiente mais positivo a risco — afirma Ferman.